sábado, agosto 25, 2007

A propósito...


Os políticos de Negócios

Alguns partidos, perante a diminuição da sua influência, motivada pela sua própria incapacidade de representar de forma efectiva o interesse geral e de conduzir as (cada vez mais) diversas solicitações dos cidadãos, vêem-se obrigados a transformar-se internamente, em épocas de crise. Em consequência dessas transformações, sobretudo em momentos de crise dos partidos de massas, surge uma nova classe de político que considera que a política não é mais que um negócio como qualquer outro. Essa transformação abre espaços à infiltração nos partidos de uma classe de políticos com parco sentido da moral e da coisa pública. Nesta situação, a classe política é facilmente substituída por indivíduos que consideram a política basicamente como um negócio.
Os políticos de negócios caracterizam-se por indivíduos que querem sacar o máximo de proveito pessoal do controle dos recursos públicos. Para atingirem o seu objectivo, substituem a representação do interesse colectivo pela concretização das pretensões individuais.
Esta nova classe política consolida o seu poder ocupando vários cargos no sector público, uma vez que estes cargos permitem desde logo, atingir os seus objectivos sem entrave, nomeadamente no que se refere à apropriação privada de recursos públicos. E utilizam mesmo a burocracia (na forma como ela é entendida por Max Weber) em seu próprio benefício. Estes políticos de negócios enriquecem pessoalmente por meio de subornos e pela aplicação do seu poder político noutras actividades, sobretudo naquelas em que esse poder lhes confere um estatuto de condição de superioridade.
Em geral os políticos de negócios não possuem a preparação profissional ou formação ideológica que lhes permitiria cumprir as tarefas requeridas pela administração pública, nem tão pouco uma identidade colectiva formada com base numa comunidade de interesses.
Tudo isto obriga a perder a ideologia dos partidos e a sua capacidade para fazerem propostas, criando em simultâneo um sistema que exclui todos os que não compactuam com os seus métodos. Utilizam por isso todos os métodos necessários para conservar o poder adquirido e o acesso aos recursos públicos. Este tipo de partidos transformam-se em agências de socialização da ilegalidade, colocando os seus homens em cargos de responsabilidade de organismos públicos, a troco do cumprimento das regras de uso desses lugares, para o “financiamento político”. O facto de alguns partidos actuarem como centros do poder, ratificando os seus actos em vez de condená-los, permite que a corrupção se propague e se degrade tudo o que tem origem político.
A confiança é um elemento essencial na relação entre os cidadãos e os seus representantes, ou seja, é um valor que está implícito à decisão, na hora de eleger um representante. A confiança entre representados e representantes traduz-se também na confiança de um povo no seu sistema de governo, na legitimidade do Estado e das suas instituições. Em consequência, a diminuição ou falta deste valor pode colocar em causa todo o sistema político.
É importante salientar que a perda da confiança, derivada da corrupção política, produz um grave desinteresse da sociedade civil pela democracia representativa, traduzido num abstencionismo que nos afasta cada vez mais da vida política, na perda do significado do voto que tende a converter-se em mera mercadoria transaccionável, e numa falha na essência e legitimidade das eleições.
O tipo de apoio obtido pelos partidos políticos através da corrupção e do clientelismo, é incapaz de garantir uma verdadeira legitimidade ao sistema político e às instituições do governo.


Link relacionado.

quinta-feira, agosto 09, 2007

Dizer mal de Hugo Chavez. É obrigatório!

Decálogo para falar mal de Hugo Chávez, por Emir Sader
Actualmente, é professor aposentado da Universidade de São Paulo e dirige o Laboratório de Políticas Públicas (LPP) da Universidade do estado do Rio de Janeiro, onde é professor de sociologia. É autor de

Quem é Emir Sader:

Emir Simão Sader nasceu em São Paulo, no ano de 1943. Formou-se em Filosofia na Universidade de São Paulo. Fez Mestrado em Filosofia Política e Doutorado em Ciência Política, ambos na Universidade de São Paulo. Na mesma universidade, trabalhou como professor, primeiro de filosofia, depois de ciência política. Foi, ainda, pesquisador do Centro de Estudos Sócio Económicos da Universidade do Chile, professor de Política na UNICAMP e coordenador do Curso de Especialização em Políticas Sociais na Faculdade de Serviço Social da UERJ. Actualmente dirige o Laboratório de Políticas Públicas na UERJ, (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) onde é professor de sociologia.



Lembrete fornecido aos jornalistas da mídia oligárquica

1. Devo falar mal de Hugo Chávez porque ele recupera o papel do Estado, desqualificado e enterrado por nós há tempos.

2. Devo falar mal de Hugo Chávez porque ele se diz anti-imperialista e esse é um tema proibido nos media há tempos.

3. Devo falar mal de Hugo Chávez porque ele funda um novo partido, quando martelamos todos os dias que todos os partidos são iguais, que são negativos, que sempre reflectem interesses de grupinhos.

4. Devo falar mal de Hugo Chávez porque ele recupera o papel da política, quando todo o trabalho quotidiano dos media é para dizer que a política é irrecuperável, que só a economia vale a pena.

5. Devo falar mal de Hugo Chávez porque ele vende petróleo subsidiado aos países que não podem pagar o preço do mercado - inclusive a pobres dos Estados Unidos -, o que evidentemente fere as leis do mercado, pelo qual tanto zelam os media.

6. Devo falar mal de Hugo Chávez porque ele é um mau exemplo para os militares, que só devem intervir na política quando seja necessário um golpe militar e nunca para defender os interesses de cada nação.

7. Devo falar mal de Hugo Chávez porque ele ataca a os media privados e fortalece os media públicos. Porque ele acabou com o analfabetismo na Venezuela, tema sobre o qual devemos calar. Porque ele vai diminuir a jornada de trabalho em 2010 para 6 horas e esse tema é odiado pelos patrões.

8. Devo falar mal de Hugo Chávez porque assim me identifico com os interesses do dono do meio em que trabalho, garanto o emprego, fortaleço os partidos e as empresas aliadas do patrão.

9. Devo falar mal de Hugo Chávez porque ele faz com que se volte a falar do socialismo, depois que nos deu muito trabalho tratar de enterrar esse sistema, inimigo do capitalismo, a que estamos profundamente integrados.

10. Devo falar mal de Hugo Chávez (e de Evo Morales e de Lula e de todos os não brancos), senão eles vão querer dirigir os países, os jornais, as televisões, as empresas, o mundo. Será o nosso fim.

Este post foi copiado ao amigo António Melenas do blog Enquanto e Não.

segunda-feira, agosto 06, 2007

Vozes que se levantam


Em defesa da liberdade e da democracia


C om o 25 de Abril, um momento maior da história e da luta do Povo português, conquistámos a liberdade e abrimos as portas para profundas transformações na vida nacional. Ao derrubamento do regime fascista, sucedeu-se o lançamento das bases fundamentais de uma democracia integrando, complementarmente, as vertentes política, económica, social e cultural – uma democracia amplamente participada e conjugada com uma inequívoca afirmação de defesa da independência e soberania nacionais.

O regime democrático assim moldado foi consagrado na Constituição da República Portuguesa, aprovada em 2 de Abril de 1976 – sem dúvida um dos textos constitucionais mais avançados e progressistas da Europa.
Sabemos que, de então para cá, com responsabilidades e cumplicidades de diferentes governos e presidentes da República, a Constituição, não só não foi cumprida, como ainda foi desfigurada, por sucessivas revisões, em muitos dos seus aspectos fundamentais. E sabemos que, apesar disso, o cumprimento do actual texto constitucional, continuando a contemplar um inequívoco projecto democrático, constituiu a mais sólida garantia para defender a liberdade e o regime democrático, para projectar a defesa dos interesses dos trabalhadores, do Povo e do País.
Neste novo século, 33 anos depois do Dia da Liberdade, é tempo de reflectirmos sobre o caminho percorrido desde então e sobre a situação hoje existente.
Se em muitos planos vivemos hoje profundas inquietações na evolução do País, é na democracia social e económica, nas condições objectivas de vida dos trabalhadores e das populações, no desemprego, nos baixos salários, no trabalho precário, nas reformas e pensões de miséria, nas desigualdades sociais, na destruição de serviços públicos e do carácter universal do direito à saúde, ao ensino e à segurança social, que mais se faz sentir a degradação do regime democrático e que o colocam em perigo.
Situações essas que caminham a par e passo, com crescentes limitações aos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos, em particular dos trabalhadores e activistas sindicais no exercício dos seus direitos constitucionais, entre os quais, o direito à greve.
Direitos, liberdades e garantias dos cidadãos cujo exercício pleno se encontra cada vez mais vigiado e condicionado, quer nas muitas formas de organização e intervenção política e social, quer no acesso à informação, à cultura e à liberdade de expressão.
Regressões também no sistema político com a subversão do princípio constitucional da subordinação do poder económico ao poder político e onde, a pretexto de uma chamada «reforma», foram aprovadas leis profundamente antidemocráticas – como é o caso da «Lei dos Partidos» e da «Lei do Financiamento dos Partidos e das Campanhas Eleitorais» – e está em curso um processo de criação de leis eleitorais que distorcem o princípio da proporcionalidade.
Paralelamente, assiste-se a uma poderosa operação de branqueamento da história e da natureza do regime fascista, de ocultação dos seus crimes, de perigosa tolerância por parte das autoridades ao surgimento e intervenção pública de organizações de claro carácter fascista, violando a Constituição da República.
A situação actual e o futuro de Portugal impõem que os democratas, os homens, mulheres e jovens de esquerda, os trabalhadores, os intelectuais, façam ouvir as suas vozes e unam as suas forças em defesa do regime democrático de Abril.
É tempo de convocar os órgãos de soberania à assunção das suas responsabilidades no fazer cumprir a Constituição da República.
É tempo de renovar o apelo à intervenção cívica dos portugueses em defesa da liberdade e da democracia.
É tempo de redobrar o alerta e a acção para que cessem os ataques ao conteúdo democrático do regime saído da Revolução de Abril.
Para que Abril, os seus valores e os seus ideais, se afirmem como património vivo no Portugal do nosso tempo.
Para que a expressão «25 de Abril sempre, fascismo nunca mais» ganhe garantia de futuro.
Abaixo-Assinado

terça-feira, julho 10, 2007

Jorge Palma

Encosta-te a mim, desatinamos tantas vezes
vizinha de mim, deixa ser meu o teu quintal
recebe esta pomba que não está armadilhada
foi comprada, foi roubada, seja como for

Eu venho do nada porque arrasei o que não quis
em nome da estrada onde só quero ser feliz
enrosca-te a mim, vai desarmar a flor queimada
vai beijar o homem-bomba, quero adormecer

Tudo o que eu vi, estou a partilhar contigo
o que não vivi, um dia hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim

Encosta-te a mim, nós já vivemos cem mil anos
encosta-te a mim, talvez eu esteja a exagerar
encosta-te a mim, dá cabo dos teus desenganos
não queiras ver quem eu não sou, deixa-me chegar

Chegado da guerra, fiz tudo p´ra sobreviver
em nome da terra, no fundo p´ra te merecer
recebe-me bem, não desencantes os meus passos
faz de mim o teu herói, não quero adormecer

Tudo o que eu vi, estou a partilhar contigo
o que não vivi, hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim

sexta-feira, julho 06, 2007

O que eu gostaria de ter escrito

O Governo dos Ofendidinhos

"Eu cá por mim até acho que o médico do centro de saúde que escreveu a nota jocosa sobre Correia de Campos e a directora que não a foi arrancar a correr, mereciam um louvor do Estado."A

Já estou mesmo a imaginar os meus próximos pesadelos: - «Costuma criticar o ministro da Saúde?» – «Sim, faz parte das minhas obrigações como jornalista.» – «Então, está de castigo!»

Fazem-nos pagar taxas se formos operados, porque não é castigo suficiente estarmos doentes e termos de ir à faca. E não podemos rir? Fecham urgências por falta de clientela onde os privados querem abrir porque – adivinhem lá – têm clientela. E não podemos rir? Anulam direitos de acesso à saúde conquistados há décadas. E não podemos rir?

A queda nunca é quando nós esperamos...Eu cá por mim até acho que o médico do Centro de Saúde de Vieira do Minho, que escreveu a nota jocosa sobre Correia de Campos, e a directora que não a foi arrancar a correr (sim, porque mandou retirar, só que não foi tão rápida como o ministro acha que devia ter sido), mereciam um louvor do Estado. Há lá sítio neste País que precise mais de sentido de humor do que um centro de saúde? Bem, as escolas, se calhar... E daí, talvez não. Parece que o Governo ainda não se lembrou de atacar o sentido de humor das crianças. Mas é melhor pararmos por aqui, senão ainda lhes damos ideias.

Primeiro vem o Primeiro-ministro, José Sócrates, pactuar com a suspensão de um professor porque terá insultado o chefe do Executivo. Depois é o ministro da Saúde que decide a destituição da directora de um centro de saúde porque – reparem bem, trata-se de um acto gravíssimo – não mandou retirar, com grande urgência, um papel que era pouco simpático para Correia de Campos. Francamente, já não há pachorra para este Governo de ofendidinhos!

A Ponte 25 de Abril (eu sei, parece que não tem nada a ver, mas já vão ver que tem) foi construída de maneira a oscilar porque se fosse totalmente rígida, quebrava. O Primeiro-ministro, que ainda por cima faz tanta questão em ser engenheiro, tinha obrigação de saber que o que não é flexível, parte.

PS: As minhas desculpas pela ausência tão prolongada deste espaço de crónicas. É que andei um bocado ocupada a retirar das redacções os cartazes com dizeres jocosos sobre o Governo. Mas, espera lá, eles já nos tiraram a Caixa de Jornalistas, já instalaram um clima de terror tal no País todo que qualquer dia não temos fontes para os nossos artigos. O que é que nos podem fazer mais? Se calhar vou estar ausente mais uns tempos – tenho umas coisas para pendurar...
Isabel Nery, in Visão.

sexta-feira, junho 29, 2007

O quarto poder

O outro lado da liberdade de expressão
A

queles que dirigem e controlam a imprensa escrita e audiovisual não se cansam de proclamar enfaticamente que a comunicação social é o garante das liberdades cívicas, desde que desfrute de uma liberdade de expressão absoluta. É verdade que a liberdade de nos informarmos e de informar, constitui um travão para os que ostentam o poder. Mas essa liberdade, por sua vez, constitui uma forma de poder que pode degenerar e tornar-se manipuladora.Na realidade, a possibilidade de nos podermos expressar publicamente, é apenas de alguns, quase sempre profissionais da política e do jornalismo. A maioria dos cidadãos vêem-se reduzidos ao papel de leitores, radiouvintes e telespectadores. Apenas alguns têm a oportunidade de expor as suas opiniões por escrito. Ainda que os jornais reservem um espaço próprio para os leitores, na secção Cartas do Director. Mas até mesmo esta ínfima possibilidade de nos fazermos ouvir, depende da decisão do jornal e não do autor da carta. Valha-nos agora os blogs!
Sendo assim, em caso de polémica, este desequilíbrio entre o poder da imprensa e a multidão de cidadãos que carecem de meios de comunicação próprios, torna-se abismal e mesmo dramático. Os recursos de um jornal para fazer sentir a sua prepotência a quem se vê encurralado numa controvérsia são tão poderosos que, falar de liberdade de expressão é uma ironia. És atacado por um jornal e pedes direito de réplica. Concedem-no, fazendo alarde de liberalismo. Mas tardam em publicar a tua posição, mutilam-na e situam-na num espaço pouco destacado e, ao lado, até lhe colocam um artigo adverso… Entre o caçador e a presa há menos diferença quanto ao poder de atacar e defender-se, que entre um jornal e um cidadão que se enfrenta com alguém poderoso ou afecto ao mesmo.
A imprensa escrita e audiovisual exerce actualmente um verdadeiro “colonialismo da opinião pública”. Orienta o povo conforme as sentenças da sua forma de pensar. Para isso, selecciona os seus colaboradores, filtra as notícias, converte as informações em interpretações e comentários, destaca os dados que favorecem a sua própria posição ou prejudicam a imagem do adversário ideológico. Basta confrontar dois jornais de orientação diversa para verificar de que formas tão distintas se pode interpretar um mesmo acontecimento. A objectividade da notícia é parcial e está condicionada pela linha de um grupo ou do próprio jornalista. As notícias que nos chegam, independentemente de escritas, orais ou visuais, não apresentam o facto ocorrido mas sim a modificação/alteração necessária para cumprir com um determinado objectivo: o político. Hoje em dia a informação converteu-se num instrumento de poder e consegue atrair a opinião da sociedade, influenciando-a de uma forma voraz. É um elemento de manipulação através do qual se defendem diversas posturas e ideologias, um elemento que incide na nossa maneira de pensar, inconscientemente.
Depois do poder executivo, legislativo e judicial, temos o quarto poder: a informação (nas mãos de alguns privilegiados), que tem como finalidade informar e como objectivo, levar essa informação à sociedade.
Na minha opinião, considero que hoje em dia, todos os meios de comunicação têm demasiada influência na nossa maneira de pensar, atacam-nos, manipulam-nos, violam a intimidade dos mais mediáticos, etc… tudo para obter um pouco de glória, porque afinal são o quarto poder. Os meios de comunicação, actualmente, fazem o que lhes dá na gana, não têm regras… apenas um montão de informação, crê-la ou não, é da nossa conta.

Peço desculpa pela ausência nestes dias, mas a disponibilidade para escrever tem sido muito pouca.

quinta-feira, junho 14, 2007

Os invisíveis

A exclusão existe. Mas ninguém é um excluído por aquilo que é, mas sim pelo tratamento que recebe dos outros que o rodeiam. Talvez que o excluído não exista, e só existamos nós, os excludentes.A

exclusão social pressupõe negar à pessoa o direito de ser pessoa. O homem é um ser social, mas ao excluído arrebata-se tudo aquilo que lhe permite sentir-se humano. O excluído é todo aquele a quem a sociedade vira as costas. Os políticos não se lembram deles e nos meios de comunicação aparecem apenas nestas ocasiões O excluído social não desfruta dos direitos mais básicos, porque a sociedade não lhos reconhece e ele não pode reclamá-los.
A imagem da exclusão social mais evidente talvez seja a das pessoas que vivem na rua. Na “desenvolvida” União Europeia, calcula-se que cerca de 5 milhões de pessoas não têm lar e que mais de 15 milhões vivem em barracas. Ao mesmo tempo, os imigrantes sem papéis, os habitantes dos bairros marginais e os toxicodependentes sem tratamento, formam um grupo de excluídos cada vez maior. A verdade é que podemos afirmar que, se a sociedade não favorece os débeis, então ela os exclui. E começa a fazê-lo bem cedo. A falta de interesse pela educação, que recebem as crianças dos bairros marginais, assegura-lhes à partida, “uma taxa de exclusão” para o futuro. A igualdade de oportunidades apregoada por aí, não passa de uma frase feita, porque os meios públicos não são colocados de igual forma ao alcance de todos.
Fenómenos como o desemprego, a precariedade no trabalho ou a redução do Estado de Bem Estar, fazem aumentar a percentagem de excluídos. As novas estruturas sociais criam grupos de exclusão que antes eram impensáveis. O “avô” que até há pouco tempo era uma figura fundamental em qualquer família, enfrenta com uma das exclusões mais subtis: a solidão. Num país tradicionalmente familiar como Portugal, mais de um milhão de idosos vivem sós, e uma grande percentagem reconhece que o seu principal problema é a falta de companhia.
Os grupos de exclusão mudam com o tempo. Ao longo da história, foram vários os excluídos sociais: os judeus, os canhotos, os doentes mentais, os ciganos, os actores, os portadores do vírus da SIDA. A homossexualidade e o consumo de drogas foram rechaçadas ou dignificadas, consoante as diferentes culturas. São vários os grupos de exclusão que criamos ao nosso redor. Hoje em dia a principal causa de exclusão mundial é, simplesmente, a pobreza.
O excluído não é aquele que perdeu o emprego, mas sim aquele que não tem a mínima esperança de recuperá-lo. O problema dos excluídos não é que tenham problemas, é antes não ter a quem contá-los e a quem pedir ajuda. Excluído é o imigrante que chega sem uma garantia de futuro, a prostituta sem alternativa, o toxicodependente, a mulher maltratada, o sem abrigo. O idoso que não entende uma receita médica e não tem quem lha explique; o doente sem visitas há meses; o homossexual que tem de calar o que sente e o deficiente motor defronte de uma escada.
A verdade é que os excluídos não escolhem sê-lo. Somos nós que, entre todos, lhes escrevemos o rótulo.
Ninguém é um excluído por aquilo que é, mas sim pelo tratamento que recebe dos outros que o rodeiam. Talvez que o excluído não exista, e só existamos nós, os excludentes.
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quarta-feira, junho 13, 2007

Conclusões do G8

Ele diz que só bebeu água...


Todas as televisões francesas se recusaram a passar estas imagens, mas algumas tv's europeias tiveram a coragem suficiente para nos mostrar os bastidores do G8. Este vídeo está o máximo!

quarta-feira, junho 06, 2007

G8, what for?!!

A reunião dos chefes de Estado e de Governo dos oito países mais industrializados do mundo (G8), que tem hoje início em Heiligendamm na Alemanha, mostra-nos um cenário político e socio-económico pouco animador para o futuro da humanidade. No evento que terá como lema essencial “Crescimento e Responsabilidade”, os líderes do G8 debaterão e decidirão uma vez mais sobre as questões de economia e política global que os afectam, sem ter em conta os mínimos interesses dos países subdesenvolvidos, a não ser uma pequena referência sobre a situação económica em África.
Este ano a agenda incluirá para além da inversão e crescimento económico, a propriedade intelectual e a crise energética, sem qualquer referência aos acutilantes problemas económicos que envolvem os países subdesenvolvidos.


Tambores de Guerra

Q ue distintas são as coisas quando se vêem de distintos pontos da Terra! Para os que vivem no coração de África, o significado da Paz é totalmente diferente do que pode significar para os cidadãos da Europa. Se para estes a paz representa a tranquilidade, para os outros a paz, significa acima de tudo, sobrevivência. A guerra, na sua total crueldade, apresenta-lhes duas perspectivas: a do protegido e a do desprotegido. Para as grandes potências, a guerra representa um mero jogo de estratégias. Para os países subdesenvolvidos, o espectáculo dantesco da ruína, a fome e a morte.
As guerras esquecidas de África, as que não comovem a opinião dos europeus ou dos norte-americanos, porque aparentemente não lhes afecta a vida, poderiam servir para a "análise da natureza social da guerra". Existem três características comuns a todos os conflitos:
- Os homens da guerra;
- Ânsia de poder;
- Desequilíbrio económico.
Os homens da guerra são os sujeitos que concebem a guerra como um meio de impor os seus critérios num determinado conflito social. À frente de cada movimento belicista existe uma mente perturbada que interpreta a destruição do inimigo, como um objectivo para a sua afirmação pessoal. É comum aos homens da guerra dissimular um quadro psicológico de egocentrismo que os induz a considerar as discrepâncias sociais como uma ameaça à realização pessoal. Uma paranóia que inevitavelmente conduz à alternativa "vitória ou morte".
A ânsia de poder representa outra das características comuns de toda a iniciativa bélica. É esta que move os caciques das sociedades a colaborar com as iniciativas dos seus líderes. Subir na escada do poder é a perspectiva dos políticos, salvo para os poucos que assumem os seus objectivos como um serviço à sociedade. Os oficiais militares e os cabecilhas políticos oferecem-se para constituir os "estados-maiores" que realizarão as operações de extermínio do grupo social, elevado à categoria de inimigo. Personificar-se e identificar-se com o líder, constitui a garantia de uma quota de poder, alcançada a vitória.
Mas uma das características que mais induz à guerra é a irrealidade que se segue a todo o real desequilíbrio económico. Aqueles que todos os dias convivem com a miséria, são os mais frágeis para continuar e assumirem um Estado com esperança na prosperidade, após o alistamento na luta armada. Os que nada têm, têm aparentemente menos que perder e muito mais a ganhar. São estes dois objectivos que movem muitos a lutar, sem perceberem que, da destruição da guerra apenas se obtém duas coisas: mais pobreza, mais miséria e mais dor.
As sociedades mais débeis são por si só, as sociedades mais frágeis aos interesses das grandes potências, que utilizam os homens da guerra como os seus baluartes para a exploração do terceiro mundo, que não só confiscam as suas riquezas naturais, como ainda dizimam as suas populações e as lançam na maior das pobrezas.
O dia que os tambores calarem e os povos massacrados tomem consciência do poder da paz e do trabalho, todos unidos, estarão rumo ao desenvolvimento. Mas talvez que esse dia seja já tarde demais.

STOP!!!

sexta-feira, junho 01, 2007

Dia Mundial da Criança

LOS HIJOS DEL HAMBRE NO TIENEN MAÑANA


Con la mirada perdía en esos ojos de cuencas vacías,
se me notan las costillas, debo vivir el día a día.

Y tú preocupao por cómo adelgazar,
pensando todo el día en esos kilitos de más.
Siéntate un ratito y ponte a pensar
en cómo viven y mueren los demás.

Pa' poder vivir debo arriesgarme a morir,
aún me queda la esperanza de poder seguir aquí.
Navegan mis ilusiones en un frío mar añil,
escapar de la pobreza, ¡Por fin, por fin, por fin!
Y si merece la pena hay cruzar en una patera
que va a naufragar antes de llegar a Gibraltar.

Me asusta la pobreza, vete de aquí.
Nos quitas el trabajo y nos traes de fumar,
educamos a tus hijos pa que roben el pan,
el día de mañana nos vas a gobernar.

Y apaga el televisor y todo vuelve a ser real,
las cosas que has visto se te van a olvidar:
guerras, hambre y precariedad...
¡Calla tu conciencia y déjate llevar!...

Entonces se apagan todas las luces del barrio
y la gente duerme y no piensa
en los que pierden su vida a diario.


Con la mirada perdía en esos ojos de cuencas vacías,
se me notan las costillas, debo vivir el día a día.
Música y letra por CanteCa de MaCao.

quinta-feira, maio 31, 2007

Olhando o dedo

"Quando alguém aponta para a lua, os imbecis ficam olhando o dedo."



Um dos grandes defeitos da nossa sociedade é a proliferação de um grande número de imbecis em colaboração estreita com outros tantos chicos-espertos. Uns estão encavalitados em altos cargos do poder, outros prestam-lhe vassalagem, mas todos estão dotados de um nível médio de escolaridade que lhes arroga o direito de opinar veemente daquilo que pouco ou nada sabem. XIÇA!!!!!E, como sabem pouco, e no fundo não querem aprender mais porque crêem que nada mais têm para saber, costumam opinar sobre temas conjunturais. Ou seja, sobre o que geralmente a comunicação social já opinou o que, no entanto, não deixa de ser medíocre, escandaloso, pretensioso e de grande ignorância. Outro defeito mais que têm os “manda bocas” aficionados ou os “língua de trapo” profissionais, é a sua incapacidade para se manterem em silêncio quando as circunstâncias o exigem.
Hoje, a propósito de alguns comentários que li e ouvi sobre a greve geral de ontem, veio-me à memória esta frase que ouvi em tempos e que caricata de forma fidedigna este tipo de gente. Nada mais certo! Porque se não sabemos ou não queremos saber, se estamos simplesmente distraídos e não entendemos as coisas mais prementes que nos rodeiam, então é porque também fazemos parte desse grupo de imbecis que ficaram olhando o dedo.

A ler...


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sexta-feira, maio 25, 2007

A Greve Geral de 30 de Maio

Conhecem aquela experiência da rã?

Introduziram uma rã numa sertã com água muito quente. Naturalmente que a rã saltou logo borda fora.
Numa segunda operação tentaram colocar a rã em água temperada, Neste caso, embora não estivesse totalmente cómoda, nem sequer se moveu. Colocaram então o recipiente a aquecer lentamente no fogo, mas com um aumento constante da temperatura, ainda que suave. Pouco antes de alcançar a temperatura mortal para a rã, viu-se que ela tentou fazer um movimento, e logo de seguida flutuou inerte.
Ficou a dúvida se a rã morreu ainda antes de tentar saltar fora da sertã, ou se a permanência na água quente tinha anulado a sua capacidade de salto.
Os poderosos desta sociedade sabem muito bem que não poderiam governar a sociedade verdadeiramente como lhes gostaria e por isso, conduzem-nos gradualmente, sem pressa e sem parar, rumo aos seus objectivos.
Creio, contudo, que hoje em dia ainda conservamos essa capacidade de reacção quando nos agridem clara e fortemente.

MUDAR DE RUMO! Porque é preciso mostrar o cartão vermelho ao Governo! Porque chega de precariedade, de flexigurança, de desemprego, de desigualdades! Porque é justo o nosso protesto!
... e quando assim é, como será melhor? Todos juntos ou cada um por si?

É por isso que aqueles que estão segurando no cabo da sertã, sabem que não podem subir a temperatura rapidamente. Vão-nos agredindo pouco a pouco:
- A precariedade agrava-se e gera insegurança e instabilidade;
- O desemprego é já o dobro de há 3 anos, aumentando a pobreza e a exclusão;
- A emigração é a saída para milhares de portugueses, principalmente jovens;
- O patronato bloqueia a contratação colectiva, recusa o aumento dos salários e ataca os direitos dos trabalhadores;
- Os salários valem menos, os preços sobem demais, os lucros dos grandes são imensos e as desigualdades aumentam escandalosamente;
- Na flexigurança, a prometida protecção social não protege, não compensa, nem é realizável em Portugal, ou seja, tudo é flexi e nada segurança;
- Diariamente o patronato e o governo-patrão desvalorizam o valor e a dignidade do trabalho;
- Enfraquece o SNS, fecham maternidades, hospitais, centros de saúde, os médicos saem do SNS, aumentam as taxas moderadoras, taxam-se os internamentos e cirurgias… tudo a favor das clínicas e hospitais privados;
- Escolas fecham-se, o Ensino Público degrada-se. É insuficiente o financiamento das Universidades;
- Degrada-se a justiça, são excessivas as custas judiciais, nega-se o apoio judiciário, fecham tribunais;
- Uma pior Segurança Social com redução das pensões no futuro e a diminuição das condições de atribuição do subsídio de desemprego;
- A imposição de baixos salários;
- A injusta distribuição da riqueza;
- A pobreza e a privação, mesmo de quem trabalha.
ESTAS SÃO MEDIDAS POLÍTICAS GOVERNAMENTAIS, NÃO ACEITÁVEIS!!!
E então eu pergunto àqueles que acham que não vale a pena fazer greve: quando a temperatura da água for demasiado alta e insuportável, não será que pode ser já demasiado tarde para saltar??

quarta-feira, maio 23, 2007

Mudando um pouco o tema


Universo Feminino


T irando as "Amélias", uma espécie aliás em franco processo de mutação, toda a mulher que se preza não vive sem a sua vaidade. Para os homens, pode parecer felicidade barata mas, para as mulheres, que sabem o alto custo disso, um dia de sorriso garantido é aquele em que a pele amanhece perfeita, os cabelos dispostos a colaborarem e o guarda-roupa recheado de peças que parecem ter sido desenhadas sob medida. Mas quem pensa que a tradicional produção visual feminina visa encantar os olhares masculinos, engana-se. É claro que, nessa história, há uma boa dose de síndrome de pavão, que se enfeita para atrair o sexo oposto, e também um pouco de satisfação pessoal. Mas o que atormenta a maioria das mulheres naqueles dias de t-shirt, calça de algodão e rabinho de cavalo é a própria opinião feminina. Como boas representantes da espécie, elas sabem que o mundo é uma arena de leoas, todas de olho vivo para condenar sapatos mal escolhidos, maquilhagens borradas e outros deslizes da concorrência.

A maioria, é com a opinião das outras que se preocupa na hora de escolher a roupa. Vestimo-nos para as mulheres, sem dúvida. E somos muito cruéis, não deixamos passar nada. Nem os homens são tão exigentes, acreditem. O ginásio é o melhor lugar para comprovar isso. Aquele bando de mulheres reparando se nós usamos o mesmo fato de treino todos os dias ou se mudamos amiúde. É um julgamento constante. Da mesma maneira, no trabalho, quando somos mais de duas, reparamos em tudo e comentamos. Quando vem alguma mais bem arrumadinha, uma ou outra faz questão de elogiar. Mas é notótio que tal generosidade é, na verdade, uma espécie de inveja velada. É um horror. No fundo, roemo-nos de inveja por perceber que há alguém mais bonita do que nós. É uma autêntica competição. Os homens não reparam se o cinto combina com o sapato ou se repetimos a mesma saia a semana inteira.

E não reparam mesmo. Basta uma rápida pesquisa para comprovar que, quando passa uma mulher, há, para os homens, outros apetrechos mais interessantes a serem observados do que a produção fashion. Para eles, basta que a mulher apenas aposte nas peças que realcem, digamos, as suas bênçãos naturais. Quando coloca uma blusinha mais decotada, uma saia mais justa, não precisa mais nada. Não importa a cor, nem se combina com a calça, ou qualquer coisa assim. Desde que esteja valorizando coisas boas, se a roupa for curta e justinha, nada mais importa.

A todo o instante está patente essa antiga realidade: a competência feminina. Na maioria dos casos, é uma necessidade de compensação da auto-estima, como o carro o é para o homem, afinal de contas. Mas não deixa de ser difícil, essa vida de mulher: arrumar-se para elas, despir-se para eles.

sexta-feira, maio 11, 2007

Opinião

A camuflagem imprescindível
P

orquê o nome “terroristas”? Quem foi que os adjectivou assim? Que reacções provoca esta palavra a quem a escuta? O dicionário diz que terroristas são aqueles que comentem actos de terrorismo, definindo-o como o conjunto de actos de violência cometidos por uma organização, com o intuito de criar um clima de insegurança para derrubar o governo.
Terrorismo é um neologismo adjectivado do “terror” e dizer terror é dizer medo, atemorizar… É também, utilizando homónimos, falar em pavor, pânico. O terror está intimamente ligado à violência, que pode ser súbita ou persistente. O terror expressa uma situação extrema que fragiliza a condição humana, que a obriga a pensar em termos de sobrevivência, que subverte todos os padrões da normalidade e todos os valores éticos. O terror, evidentemente, é uma sensação individual, subjectiva, intimamente vinculada a mecanismos de instintivos de defesa e protecção, mas a sua acção é sempre desencadeada no âmbito social; é uma linguagem que nasce do desespero e que estabelece uma simbiose estranha com o contexto que a origina.
O terrorismo, evidentemente, é social. Está desenhado para nos atingir individualmente, mas concebido para actual globalmente. Funciona com a lógica do castigo, da advertência, da discriminação, da perversidade. O terrorismo impõe metas, marca fronteiras e estabelece uma classe de vítimas e sacrifícios. Escolhe as suas vítimas e as formas de comunicação para que o terror seja apreendido na sua forma mais pura.
O terrorismo existe para gerar medo e o medo só tem razão de ser quando é colectivo, quando se propaga pelas ranhuras da consciência e se instala em cada indivíduo. Esse medo paralisa, destrói os princípios da solidariedade, faz de cada ser humano uma partícula de violência. Esse medo corrói a memória, gera temores, provoca ressentimentos e altera as relações com os outros, rompendo qualquer possibilidade de solidariedade.
Quando a sociedade inteira é aterrorizada, dominá-la torna-se mais fácil. O terrorismo, contrariamente à sua acepção no dicionário, não é a acção de uma qualquer organização para provocar instabilidade e derrotar o governo. Na realidade, o terrorismo é uma estratégia para atemorizar o colectivo, é a perversidade do poder absoluto que pretende obter a submissão total, é uma táctica de amedrontamento feita para destruir o inimigo, é o apelo à violência social na sua forma historicamente mais pura, é a consequência da utilização e da administração preconcebida do medo, é o “grau zero”da solidariedade.
O verdadeiro terrorismo não está na bomba que explode num centro comercial, na rua ou noutro sítio qualquer. Essa bomba provoca surpresa, indignação, dor, ira, desejo de vingança, mas nunca um medo persistente, quotidiano, permanente. A planificação do medo requer uma actuação mais sistemática e elaborada, ou seja, mais técnica. Alguns regimes totalitários provocaram verdadeiros genocídios sem o mínimo protesto ou resistências de maior por parte das suas sociedades. Na sua planificação do medo, as razões do poder converteram-se em razões da história e foi impossível contrariá-las, resistir-lhes. Esta é a obsessão do terror, impossibilitar a resistência e torná-la também impensável.
As ditaduras do sul da América Latina, nos anos 60 e 70, fizeram do medo uma estratégia oficial para sustentar uma guerra suja contra os seus povos; Israel utiliza o terrorismo para dominar e controlar o Médio Oriente fazendo na realidade, do terrorismo, uma verdadeira política de Estado. Se o terrorismo é a planificação, administração e execução sistemática do medo, através do uso estratégico do terror, então afinal quem são os que podem ser considerados terroristas? Sabemos que aqueles que administram o medo e a violência não são chamados de terroristas. Aqueles que se justificam dizendo que recebem ordens, os soldados que participam em verdadeiras carnificinas com o pretexto de destruir o inimigo ou aqueles políticos que legitimam e defendem o uso do terror, jamais foram acusados de terroristas ou de favorecer o terrorismo. A ninguém lhes passa pela cabeça que o governo israelita, por exemplo, possa ser assumido como um governo terrorista, mas em contrapartida, em virtude de um processo de transferência de conotações, os terroristas serão aqueles que utilizam as formas mais artesanais da violência, quase sempre como resposta última e desesperada perante o outro terrorismo. É esta transferência de significantes que possibilita uma cómoda distribuição social de culpas e castigos. Em suma, os terroristas serão aqueles que caiam no jogo de responder à violência do poder com a violência da resistência. Durante o III Reich alemão, a resistência estava tipificada como terrorismo. O governo israelita também qualificou como terroristas os povos árabes palestinos. Os Estados Unidos encontraram no terrorismo a base de sustentação ideológico-política para o seu projecto de expansão imperial. A figura do “terrorista” serve de cobertura e de expiação. É uma figura necessária e imprescindível, que permite a construção de um discurso político e de uma actuação histórica, feita para manter o poder e a sua vigência continuada. O poder usa essa figura para construir discursos, consensos, unificar vontades, disfarçar intenções, articular estratégias e impor sanções e controle. A construção da figura do terrorista cria um rosto sem cara, que pode facilmente ser assumido como o inimigo “real” desse poder. É a construção de um ident-kit, no qual se podem adaptar, segundo as circunstâncias, perfeitamente os nossos próprios rostos.
Os verdadeiros terroristas querem que o mundo inteiro se adeqúe aos objectivos do seu próprio pensamento: pensar como eles, ser como eles, aparecer como eles, colaborar com eles.
Na verdade, o terror que nasce do poder necessita justificar-se, necessita uma vítima propiciatória que justifique os seus excessos e que perdoe as suas atrocidades. Então, aponta-nos os terroristas e diz-nos que são homens sem escrúpulos, instrumentos do mal que é necessários eliminar. Todos podem ser apontados como terroristas: os contestatários mais radicais, os sindicalistas, o movimentos rebeldes, os intelectuais comprometidos, os árabes muçulmanos… ninguém está seguro, e esse é mesmo o objectivo. A verdade é que são muitos os regimes que se dizem democráticos, e que fazem da administração sistemática do medo, a sua essência de poder.
A que chamo eu terrorismo afinal?
O verdadeiro terrorismo é aquele que é exercido pelos que simplesmente carregam nos botões, conduzem mísseis “inteligentes” assassinos, ordenam terríveis bombardeios e asfixiam economicamente os povos realmente inocentes. Este terrorismo de estado e de “colarinho branco”, que se exerce sem o mínimo pudor, comodamente sentado numa poltrona e sem arriscar minimamente a sua integridade pessoal, é muito mais baixo, mais indigno, mais cruel e mais cínico que a violência daqueles que usam a sua própria vida, o único que lhes resta, para defender as suas ideias e contra atacar os seus inimigos.

quinta-feira, maio 10, 2007

Ladrões de tempo

Q

uando se rouba dinheiro, jóias, quadros ou outro qualquer objecto de valor, se o ladrão se arrepender, pode sempre devolver o produto do roubo. Quando se rouba o tempo, não existe forma alguma de o devolver. O tempo perdeu-se, irremediavelmente. Cada um de nós pode fazer com o seu tempo, tudo o que lhe der na gana. Ninguém deveria dispor do tempo dos outros contra a sua vontade.
Vítor Hugo dizia: "A vida é curta e ainda a encurtamos mais com o insensato desperdício de tempo". O problema está em que uma boa parte da perda é forçada por pessoas incapazes de respeitar os bens alheios. Há pessoas que roubam o tempo dos outros de forma impune. Diz-se que o tempo é ouro, mas não me parece que possua os mesmos quilates daquele que é usado para fabricar jóias. Porque se arrogam o direito de no-lo roubar? Ainda que o queiramos "gastar mal", esse tempo é nosso! E o problema ainda é mais grave, na medida em que esse roubo se faz em plena luz, descaradamente, impunemente. O tempo é ouro

Podia enumerar múltiplos exemplos. Mas vou apenas referir-me a dois: engarrafamentos e filas em algumas repartições públicas. Cada um de nós deve ter uma experiência abundante de situações idênticas de roubo.
Todas as manhãs, para chegar ao trabalho, muitos cidadãos têm de passar por entupimentos enormes de trânsito. E o mesmo acontece ao final do dia, de regresso a casa. Todos os dias. Felizmente, este é um problema que não me aflige porque estou a 8 minutos em transporte público do meu local de trabalho. Mas, quando tenho de ir a Lisboa fico com enxaqueca logo na véspera, só de pensar naquilo que vou ter de passar. Quem nos devolve o tempo perdido olhando a matrícula do carro da frente? E todos os dias o mesmo, ainda que seja uma matrícula diferente…
Quando vamos a um Banco, por exemplo, precisamos de fazer fila de uma forma quase sistemática. Reparamos num "guiché" com o aviso correspondente: FORA DE SERVIÇO. E pensamos porque diabo não nos atende a pessoa que está por detrás da janelinha. Simplesmente porque está a fazer o serviço que interessa ao Banco. Mas com mais pessoal poderiam certamente atender os clientes e gerir o nosso dinheiro, não? Será que os gerentes não vêem as filas? Não sabem que com mais pessoal, estaríamos menos tempo à espera? Quem nos devolve esse tempo perdido?
Quando precisamos de resolver algum tipo de processo numa repartição pública, é para esquecer. Demoras e mais demoras, constantes pedidos de mais este ou aquele documento, de novo demoras, pedidos de informação que não chegam, escusas dos serviços com outros organismos, de novo mais demoras e fazemos por esquecer que o nosso tempo precioso não tem para eles nenhum valor. Apenas tempo perdido… O mais que pode acontecer é recebermos uma explicação de credibilidade duvidosa.
A verdade é que não permitiríamos a um ladrão fugir impunemente depois de ter pedido perdão por nos roubar a carteira: "Perdoe a moléstia, senhor (ou senhora) mas acontece que eu preciso de aumentar as minhas disponibilidades monetárias". O que mais me indigna é que nos tomem por idiotas.
A verdade é que o tempo dos poderosos é ouro, e o dos cidadãos é lixo. Não há pois problema se o deitarmos fora. O tempo perdido é inversamente proporcional à categoria das pessoas. Quanto mais categoria, menos tempo perdido, quanto menos categoria, mais tempo roubado. Às vezes surpreende-me a paciência de alguns que conseguem aguentar sem refilar. Ficam nas filas do Banco e não mostram o mínimo sinal de impaciência. Os condutores, entretêm-se nos engarrafamentos, tamborilando com os dedos sobre o volante ao som da música do rádio. Será que alguma vez fizeram o cômputo do tempo perdido à semana, ao mês, ao ano, na vida? Se o fizessem, descobririam que lhes estão roubando uma parte importante. Que fazer então? Ir a tribunal a denunciar os ladrões? É impressionante a impunidade dos ladrões de tempo. Nunca lhes acontece nada. Ninguém entra com as algemas num Banco para prender o gerente, ninguém se lembra de colocar o ministro das obras públicas na prisão e ninguém grita "ladrão" quando o seu tempo é sistematicamente roubado numa repartição pública. Ao pobre desgraçado que rouba uma galinha (ou um creme de 3,99 euros) levam-no a tribunal.
O tempo é de cada um de nós. Ninguém tem o direito de delapidá-lo. Bernard Berensen, conhecido critico de arte, quando estava quase a cumpri 90 anos, disse: "Gostaria de colocar-me numa esquina com um chapéu na mão, pedindo aos transeuntes que depositassem nele todos os minutos da sua vida que não chegaram a usar".
Todos nós pacientes (e impacientes) cidadãos deveríamos processar a quem nos rouba um bem tão precioso, porque não há direito a cometer estes roubos a plena luz, de forma tão descarada e com impunidade total.

sexta-feira, maio 04, 2007

Marionetas

D efendo que uma sociedade é mais rica quando a participação dos seus cidadãos é maior e a sua personalidade mais desenvolvida. A personalidade, como consciência íntima de projecção individual, de interpretação subjectiva do sentido da vida, assenta no amadurecimento do conhecimento intelectual. Pressupõe a determinação da singularidade do indivíduo em pessoa autónoma.


E ssa diversidade da personalidade, não obstante ser um dos factores decisivos para o progresso social, representa para aqueles que dirigem (governam) a comunidade, o maior obstáculo ao exercício do poder. As estruturas políticas cumprem melhor o exercício do poder que se propõem, quanto maior for a uniformidade da massa social que administram e menor a dispersão de critérios. Por exemplo, as estruturas económicas procuram a uniformidade no consumo, com o objectivo de facilitar a planificação da produção. A pressão que o poder exerce sobre a sociedade favorece a uniformidade e força a personalidade dos cidadãos a padrões preconcebidos.

Esta tendência torna-se real mediante a promoção de ideais que modelam a vontade dos cidadãos. E como? Através da manipulação das populações, utilizando a propaganda política ou a publicidade comercial. Percebe-se facilmente que existe uma finíssima margem entre a informação e a coacção psicológica, o que determina por si só um limite à própria liberdade. Concluir que um cidadão é livre na medida em que exerce mediante sufrágio, a sua opinião sobre algumas realidades sociais, não é mais do que uma "concepção pobre" da liberdade.

Uma sociedade é tanto mais livre, quanto mais participativa e organicamente mais dinâmica for a sua estrutura.

Os poderes, segundo o adágio romano de pão e circo costumam distrair os cidadãos das suas próprias responsabilidades, transmitindo-lhes a imagem de que a sua segurança e progresso estão garantidos. Assim, as pessoas satisfeitas nas suas necessidades primárias, adiam o hábito de pensar e convertem-se em indivíduos amorfos.

Contra essas condutas totalitárias, mais ou menos revestidas de democracia, a única contenção está no desenvolvimento da cultura humanística que desperte no indivíduo a sua capacidade protagonista e o leve a interrogar-se se a sociedade que se constrói ao seu redor corresponde à sua expectativa de progresso social.

São muitos os "poderes" que se podem utilizar para silenciar a iniciativa pessoal, obrigando-nos a vaguear no mundo como marionetas. Alguns tão antigos como pão e circo, transformaram-se hoje em televisão e consumo.

Magnolia