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sábado, agosto 25, 2007

A propósito...


Os políticos de Negócios

Alguns partidos, perante a diminuição da sua influência, motivada pela sua própria incapacidade de representar de forma efectiva o interesse geral e de conduzir as (cada vez mais) diversas solicitações dos cidadãos, vêem-se obrigados a transformar-se internamente, em épocas de crise. Em consequência dessas transformações, sobretudo em momentos de crise dos partidos de massas, surge uma nova classe de político que considera que a política não é mais que um negócio como qualquer outro. Essa transformação abre espaços à infiltração nos partidos de uma classe de políticos com parco sentido da moral e da coisa pública. Nesta situação, a classe política é facilmente substituída por indivíduos que consideram a política basicamente como um negócio.
Os políticos de negócios caracterizam-se por indivíduos que querem sacar o máximo de proveito pessoal do controle dos recursos públicos. Para atingirem o seu objectivo, substituem a representação do interesse colectivo pela concretização das pretensões individuais.
Esta nova classe política consolida o seu poder ocupando vários cargos no sector público, uma vez que estes cargos permitem desde logo, atingir os seus objectivos sem entrave, nomeadamente no que se refere à apropriação privada de recursos públicos. E utilizam mesmo a burocracia (na forma como ela é entendida por Max Weber) em seu próprio benefício. Estes políticos de negócios enriquecem pessoalmente por meio de subornos e pela aplicação do seu poder político noutras actividades, sobretudo naquelas em que esse poder lhes confere um estatuto de condição de superioridade.
Em geral os políticos de negócios não possuem a preparação profissional ou formação ideológica que lhes permitiria cumprir as tarefas requeridas pela administração pública, nem tão pouco uma identidade colectiva formada com base numa comunidade de interesses.
Tudo isto obriga a perder a ideologia dos partidos e a sua capacidade para fazerem propostas, criando em simultâneo um sistema que exclui todos os que não compactuam com os seus métodos. Utilizam por isso todos os métodos necessários para conservar o poder adquirido e o acesso aos recursos públicos. Este tipo de partidos transformam-se em agências de socialização da ilegalidade, colocando os seus homens em cargos de responsabilidade de organismos públicos, a troco do cumprimento das regras de uso desses lugares, para o “financiamento político”. O facto de alguns partidos actuarem como centros do poder, ratificando os seus actos em vez de condená-los, permite que a corrupção se propague e se degrade tudo o que tem origem político.
A confiança é um elemento essencial na relação entre os cidadãos e os seus representantes, ou seja, é um valor que está implícito à decisão, na hora de eleger um representante. A confiança entre representados e representantes traduz-se também na confiança de um povo no seu sistema de governo, na legitimidade do Estado e das suas instituições. Em consequência, a diminuição ou falta deste valor pode colocar em causa todo o sistema político.
É importante salientar que a perda da confiança, derivada da corrupção política, produz um grave desinteresse da sociedade civil pela democracia representativa, traduzido num abstencionismo que nos afasta cada vez mais da vida política, na perda do significado do voto que tende a converter-se em mera mercadoria transaccionável, e numa falha na essência e legitimidade das eleições.
O tipo de apoio obtido pelos partidos políticos através da corrupção e do clientelismo, é incapaz de garantir uma verdadeira legitimidade ao sistema político e às instituições do governo.


Link relacionado.

segunda-feira, agosto 06, 2007

Vozes que se levantam


Em defesa da liberdade e da democracia


C om o 25 de Abril, um momento maior da história e da luta do Povo português, conquistámos a liberdade e abrimos as portas para profundas transformações na vida nacional. Ao derrubamento do regime fascista, sucedeu-se o lançamento das bases fundamentais de uma democracia integrando, complementarmente, as vertentes política, económica, social e cultural – uma democracia amplamente participada e conjugada com uma inequívoca afirmação de defesa da independência e soberania nacionais.

O regime democrático assim moldado foi consagrado na Constituição da República Portuguesa, aprovada em 2 de Abril de 1976 – sem dúvida um dos textos constitucionais mais avançados e progressistas da Europa.
Sabemos que, de então para cá, com responsabilidades e cumplicidades de diferentes governos e presidentes da República, a Constituição, não só não foi cumprida, como ainda foi desfigurada, por sucessivas revisões, em muitos dos seus aspectos fundamentais. E sabemos que, apesar disso, o cumprimento do actual texto constitucional, continuando a contemplar um inequívoco projecto democrático, constituiu a mais sólida garantia para defender a liberdade e o regime democrático, para projectar a defesa dos interesses dos trabalhadores, do Povo e do País.
Neste novo século, 33 anos depois do Dia da Liberdade, é tempo de reflectirmos sobre o caminho percorrido desde então e sobre a situação hoje existente.
Se em muitos planos vivemos hoje profundas inquietações na evolução do País, é na democracia social e económica, nas condições objectivas de vida dos trabalhadores e das populações, no desemprego, nos baixos salários, no trabalho precário, nas reformas e pensões de miséria, nas desigualdades sociais, na destruição de serviços públicos e do carácter universal do direito à saúde, ao ensino e à segurança social, que mais se faz sentir a degradação do regime democrático e que o colocam em perigo.
Situações essas que caminham a par e passo, com crescentes limitações aos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos, em particular dos trabalhadores e activistas sindicais no exercício dos seus direitos constitucionais, entre os quais, o direito à greve.
Direitos, liberdades e garantias dos cidadãos cujo exercício pleno se encontra cada vez mais vigiado e condicionado, quer nas muitas formas de organização e intervenção política e social, quer no acesso à informação, à cultura e à liberdade de expressão.
Regressões também no sistema político com a subversão do princípio constitucional da subordinação do poder económico ao poder político e onde, a pretexto de uma chamada «reforma», foram aprovadas leis profundamente antidemocráticas – como é o caso da «Lei dos Partidos» e da «Lei do Financiamento dos Partidos e das Campanhas Eleitorais» – e está em curso um processo de criação de leis eleitorais que distorcem o princípio da proporcionalidade.
Paralelamente, assiste-se a uma poderosa operação de branqueamento da história e da natureza do regime fascista, de ocultação dos seus crimes, de perigosa tolerância por parte das autoridades ao surgimento e intervenção pública de organizações de claro carácter fascista, violando a Constituição da República.
A situação actual e o futuro de Portugal impõem que os democratas, os homens, mulheres e jovens de esquerda, os trabalhadores, os intelectuais, façam ouvir as suas vozes e unam as suas forças em defesa do regime democrático de Abril.
É tempo de convocar os órgãos de soberania à assunção das suas responsabilidades no fazer cumprir a Constituição da República.
É tempo de renovar o apelo à intervenção cívica dos portugueses em defesa da liberdade e da democracia.
É tempo de redobrar o alerta e a acção para que cessem os ataques ao conteúdo democrático do regime saído da Revolução de Abril.
Para que Abril, os seus valores e os seus ideais, se afirmem como património vivo no Portugal do nosso tempo.
Para que a expressão «25 de Abril sempre, fascismo nunca mais» ganhe garantia de futuro.
Abaixo-Assinado

sexta-feira, junho 29, 2007

O quarto poder

O outro lado da liberdade de expressão
A

queles que dirigem e controlam a imprensa escrita e audiovisual não se cansam de proclamar enfaticamente que a comunicação social é o garante das liberdades cívicas, desde que desfrute de uma liberdade de expressão absoluta. É verdade que a liberdade de nos informarmos e de informar, constitui um travão para os que ostentam o poder. Mas essa liberdade, por sua vez, constitui uma forma de poder que pode degenerar e tornar-se manipuladora.Na realidade, a possibilidade de nos podermos expressar publicamente, é apenas de alguns, quase sempre profissionais da política e do jornalismo. A maioria dos cidadãos vêem-se reduzidos ao papel de leitores, radiouvintes e telespectadores. Apenas alguns têm a oportunidade de expor as suas opiniões por escrito. Ainda que os jornais reservem um espaço próprio para os leitores, na secção Cartas do Director. Mas até mesmo esta ínfima possibilidade de nos fazermos ouvir, depende da decisão do jornal e não do autor da carta. Valha-nos agora os blogs!
Sendo assim, em caso de polémica, este desequilíbrio entre o poder da imprensa e a multidão de cidadãos que carecem de meios de comunicação próprios, torna-se abismal e mesmo dramático. Os recursos de um jornal para fazer sentir a sua prepotência a quem se vê encurralado numa controvérsia são tão poderosos que, falar de liberdade de expressão é uma ironia. És atacado por um jornal e pedes direito de réplica. Concedem-no, fazendo alarde de liberalismo. Mas tardam em publicar a tua posição, mutilam-na e situam-na num espaço pouco destacado e, ao lado, até lhe colocam um artigo adverso… Entre o caçador e a presa há menos diferença quanto ao poder de atacar e defender-se, que entre um jornal e um cidadão que se enfrenta com alguém poderoso ou afecto ao mesmo.
A imprensa escrita e audiovisual exerce actualmente um verdadeiro “colonialismo da opinião pública”. Orienta o povo conforme as sentenças da sua forma de pensar. Para isso, selecciona os seus colaboradores, filtra as notícias, converte as informações em interpretações e comentários, destaca os dados que favorecem a sua própria posição ou prejudicam a imagem do adversário ideológico. Basta confrontar dois jornais de orientação diversa para verificar de que formas tão distintas se pode interpretar um mesmo acontecimento. A objectividade da notícia é parcial e está condicionada pela linha de um grupo ou do próprio jornalista. As notícias que nos chegam, independentemente de escritas, orais ou visuais, não apresentam o facto ocorrido mas sim a modificação/alteração necessária para cumprir com um determinado objectivo: o político. Hoje em dia a informação converteu-se num instrumento de poder e consegue atrair a opinião da sociedade, influenciando-a de uma forma voraz. É um elemento de manipulação através do qual se defendem diversas posturas e ideologias, um elemento que incide na nossa maneira de pensar, inconscientemente.
Depois do poder executivo, legislativo e judicial, temos o quarto poder: a informação (nas mãos de alguns privilegiados), que tem como finalidade informar e como objectivo, levar essa informação à sociedade.
Na minha opinião, considero que hoje em dia, todos os meios de comunicação têm demasiada influência na nossa maneira de pensar, atacam-nos, manipulam-nos, violam a intimidade dos mais mediáticos, etc… tudo para obter um pouco de glória, porque afinal são o quarto poder. Os meios de comunicação, actualmente, fazem o que lhes dá na gana, não têm regras… apenas um montão de informação, crê-la ou não, é da nossa conta.

Peço desculpa pela ausência nestes dias, mas a disponibilidade para escrever tem sido muito pouca.

quarta-feira, junho 06, 2007

G8, what for?!!

A reunião dos chefes de Estado e de Governo dos oito países mais industrializados do mundo (G8), que tem hoje início em Heiligendamm na Alemanha, mostra-nos um cenário político e socio-económico pouco animador para o futuro da humanidade. No evento que terá como lema essencial “Crescimento e Responsabilidade”, os líderes do G8 debaterão e decidirão uma vez mais sobre as questões de economia e política global que os afectam, sem ter em conta os mínimos interesses dos países subdesenvolvidos, a não ser uma pequena referência sobre a situação económica em África.
Este ano a agenda incluirá para além da inversão e crescimento económico, a propriedade intelectual e a crise energética, sem qualquer referência aos acutilantes problemas económicos que envolvem os países subdesenvolvidos.


Tambores de Guerra

Q ue distintas são as coisas quando se vêem de distintos pontos da Terra! Para os que vivem no coração de África, o significado da Paz é totalmente diferente do que pode significar para os cidadãos da Europa. Se para estes a paz representa a tranquilidade, para os outros a paz, significa acima de tudo, sobrevivência. A guerra, na sua total crueldade, apresenta-lhes duas perspectivas: a do protegido e a do desprotegido. Para as grandes potências, a guerra representa um mero jogo de estratégias. Para os países subdesenvolvidos, o espectáculo dantesco da ruína, a fome e a morte.
As guerras esquecidas de África, as que não comovem a opinião dos europeus ou dos norte-americanos, porque aparentemente não lhes afecta a vida, poderiam servir para a "análise da natureza social da guerra". Existem três características comuns a todos os conflitos:
- Os homens da guerra;
- Ânsia de poder;
- Desequilíbrio económico.
Os homens da guerra são os sujeitos que concebem a guerra como um meio de impor os seus critérios num determinado conflito social. À frente de cada movimento belicista existe uma mente perturbada que interpreta a destruição do inimigo, como um objectivo para a sua afirmação pessoal. É comum aos homens da guerra dissimular um quadro psicológico de egocentrismo que os induz a considerar as discrepâncias sociais como uma ameaça à realização pessoal. Uma paranóia que inevitavelmente conduz à alternativa "vitória ou morte".
A ânsia de poder representa outra das características comuns de toda a iniciativa bélica. É esta que move os caciques das sociedades a colaborar com as iniciativas dos seus líderes. Subir na escada do poder é a perspectiva dos políticos, salvo para os poucos que assumem os seus objectivos como um serviço à sociedade. Os oficiais militares e os cabecilhas políticos oferecem-se para constituir os "estados-maiores" que realizarão as operações de extermínio do grupo social, elevado à categoria de inimigo. Personificar-se e identificar-se com o líder, constitui a garantia de uma quota de poder, alcançada a vitória.
Mas uma das características que mais induz à guerra é a irrealidade que se segue a todo o real desequilíbrio económico. Aqueles que todos os dias convivem com a miséria, são os mais frágeis para continuar e assumirem um Estado com esperança na prosperidade, após o alistamento na luta armada. Os que nada têm, têm aparentemente menos que perder e muito mais a ganhar. São estes dois objectivos que movem muitos a lutar, sem perceberem que, da destruição da guerra apenas se obtém duas coisas: mais pobreza, mais miséria e mais dor.
As sociedades mais débeis são por si só, as sociedades mais frágeis aos interesses das grandes potências, que utilizam os homens da guerra como os seus baluartes para a exploração do terceiro mundo, que não só confiscam as suas riquezas naturais, como ainda dizimam as suas populações e as lançam na maior das pobrezas.
O dia que os tambores calarem e os povos massacrados tomem consciência do poder da paz e do trabalho, todos unidos, estarão rumo ao desenvolvimento. Mas talvez que esse dia seja já tarde demais.

STOP!!!

sexta-feira, maio 11, 2007

Opinião

A camuflagem imprescindível
P

orquê o nome “terroristas”? Quem foi que os adjectivou assim? Que reacções provoca esta palavra a quem a escuta? O dicionário diz que terroristas são aqueles que comentem actos de terrorismo, definindo-o como o conjunto de actos de violência cometidos por uma organização, com o intuito de criar um clima de insegurança para derrubar o governo.
Terrorismo é um neologismo adjectivado do “terror” e dizer terror é dizer medo, atemorizar… É também, utilizando homónimos, falar em pavor, pânico. O terror está intimamente ligado à violência, que pode ser súbita ou persistente. O terror expressa uma situação extrema que fragiliza a condição humana, que a obriga a pensar em termos de sobrevivência, que subverte todos os padrões da normalidade e todos os valores éticos. O terror, evidentemente, é uma sensação individual, subjectiva, intimamente vinculada a mecanismos de instintivos de defesa e protecção, mas a sua acção é sempre desencadeada no âmbito social; é uma linguagem que nasce do desespero e que estabelece uma simbiose estranha com o contexto que a origina.
O terrorismo, evidentemente, é social. Está desenhado para nos atingir individualmente, mas concebido para actual globalmente. Funciona com a lógica do castigo, da advertência, da discriminação, da perversidade. O terrorismo impõe metas, marca fronteiras e estabelece uma classe de vítimas e sacrifícios. Escolhe as suas vítimas e as formas de comunicação para que o terror seja apreendido na sua forma mais pura.
O terrorismo existe para gerar medo e o medo só tem razão de ser quando é colectivo, quando se propaga pelas ranhuras da consciência e se instala em cada indivíduo. Esse medo paralisa, destrói os princípios da solidariedade, faz de cada ser humano uma partícula de violência. Esse medo corrói a memória, gera temores, provoca ressentimentos e altera as relações com os outros, rompendo qualquer possibilidade de solidariedade.
Quando a sociedade inteira é aterrorizada, dominá-la torna-se mais fácil. O terrorismo, contrariamente à sua acepção no dicionário, não é a acção de uma qualquer organização para provocar instabilidade e derrotar o governo. Na realidade, o terrorismo é uma estratégia para atemorizar o colectivo, é a perversidade do poder absoluto que pretende obter a submissão total, é uma táctica de amedrontamento feita para destruir o inimigo, é o apelo à violência social na sua forma historicamente mais pura, é a consequência da utilização e da administração preconcebida do medo, é o “grau zero”da solidariedade.
O verdadeiro terrorismo não está na bomba que explode num centro comercial, na rua ou noutro sítio qualquer. Essa bomba provoca surpresa, indignação, dor, ira, desejo de vingança, mas nunca um medo persistente, quotidiano, permanente. A planificação do medo requer uma actuação mais sistemática e elaborada, ou seja, mais técnica. Alguns regimes totalitários provocaram verdadeiros genocídios sem o mínimo protesto ou resistências de maior por parte das suas sociedades. Na sua planificação do medo, as razões do poder converteram-se em razões da história e foi impossível contrariá-las, resistir-lhes. Esta é a obsessão do terror, impossibilitar a resistência e torná-la também impensável.
As ditaduras do sul da América Latina, nos anos 60 e 70, fizeram do medo uma estratégia oficial para sustentar uma guerra suja contra os seus povos; Israel utiliza o terrorismo para dominar e controlar o Médio Oriente fazendo na realidade, do terrorismo, uma verdadeira política de Estado. Se o terrorismo é a planificação, administração e execução sistemática do medo, através do uso estratégico do terror, então afinal quem são os que podem ser considerados terroristas? Sabemos que aqueles que administram o medo e a violência não são chamados de terroristas. Aqueles que se justificam dizendo que recebem ordens, os soldados que participam em verdadeiras carnificinas com o pretexto de destruir o inimigo ou aqueles políticos que legitimam e defendem o uso do terror, jamais foram acusados de terroristas ou de favorecer o terrorismo. A ninguém lhes passa pela cabeça que o governo israelita, por exemplo, possa ser assumido como um governo terrorista, mas em contrapartida, em virtude de um processo de transferência de conotações, os terroristas serão aqueles que utilizam as formas mais artesanais da violência, quase sempre como resposta última e desesperada perante o outro terrorismo. É esta transferência de significantes que possibilita uma cómoda distribuição social de culpas e castigos. Em suma, os terroristas serão aqueles que caiam no jogo de responder à violência do poder com a violência da resistência. Durante o III Reich alemão, a resistência estava tipificada como terrorismo. O governo israelita também qualificou como terroristas os povos árabes palestinos. Os Estados Unidos encontraram no terrorismo a base de sustentação ideológico-política para o seu projecto de expansão imperial. A figura do “terrorista” serve de cobertura e de expiação. É uma figura necessária e imprescindível, que permite a construção de um discurso político e de uma actuação histórica, feita para manter o poder e a sua vigência continuada. O poder usa essa figura para construir discursos, consensos, unificar vontades, disfarçar intenções, articular estratégias e impor sanções e controle. A construção da figura do terrorista cria um rosto sem cara, que pode facilmente ser assumido como o inimigo “real” desse poder. É a construção de um ident-kit, no qual se podem adaptar, segundo as circunstâncias, perfeitamente os nossos próprios rostos.
Os verdadeiros terroristas querem que o mundo inteiro se adeqúe aos objectivos do seu próprio pensamento: pensar como eles, ser como eles, aparecer como eles, colaborar com eles.
Na verdade, o terror que nasce do poder necessita justificar-se, necessita uma vítima propiciatória que justifique os seus excessos e que perdoe as suas atrocidades. Então, aponta-nos os terroristas e diz-nos que são homens sem escrúpulos, instrumentos do mal que é necessários eliminar. Todos podem ser apontados como terroristas: os contestatários mais radicais, os sindicalistas, o movimentos rebeldes, os intelectuais comprometidos, os árabes muçulmanos… ninguém está seguro, e esse é mesmo o objectivo. A verdade é que são muitos os regimes que se dizem democráticos, e que fazem da administração sistemática do medo, a sua essência de poder.
A que chamo eu terrorismo afinal?
O verdadeiro terrorismo é aquele que é exercido pelos que simplesmente carregam nos botões, conduzem mísseis “inteligentes” assassinos, ordenam terríveis bombardeios e asfixiam economicamente os povos realmente inocentes. Este terrorismo de estado e de “colarinho branco”, que se exerce sem o mínimo pudor, comodamente sentado numa poltrona e sem arriscar minimamente a sua integridade pessoal, é muito mais baixo, mais indigno, mais cruel e mais cínico que a violência daqueles que usam a sua própria vida, o único que lhes resta, para defender as suas ideias e contra atacar os seus inimigos.

quarta-feira, abril 18, 2007

A propósito de espertezas...

Sociedade e Estupidez


H á quem pense que o número de estúpidos é mais elevado numa sociedade em decadência do que numa sociedade em ascensão, e penso que é um erro grave. A verdade é que ambas vivem recheadas com a mesma percentagem de estupidez. E a diferença reside no facto de que, numa sociedade em declínio, os estúpidos são mais activos em virtude de uma maior permissividade por parte dos outros membros.

Um país em ascensão possui também uma percentagem insolitamente alta de indivíduos inteligentes, que procuram controlar a fracção dos estúpidos e, ao mesmo tempo, produzem para eles e para os outros membros da comunidade, os benefícios suficientes para que o progresso seja um êxito.

Num país em decadência, a percentagem de indivíduos estúpidos é igual. No entanto, observa-se no resto da população, sobretudo entre os indivíduos que estão no poder, uma proliferação alarmante de corruptos, "chicos espertos" com uma elevada percentagem de estupidez e, entre os outros que não estão no poder, um crescimento, igualmente alarmante do número de incautos.

quarta-feira, abril 11, 2007

Opinião

A responsabilidade do poder

Todos os dias os portugueses se sentem mais defraudados com os políticos que elegem ano após ano, e nos quais depositam todas as esperanças. O problema até nem chegaria a ser espectacular, se não fosse o facto de que o mal se tornou crónico. E se as doenças crónicas não matam mas impedem viver saudavelmente, as maleitas sociais crónicas impedem a convivência, o desenvolvimento, e são a origem de todas as delinquências. Tiremos-lhe nós o cinto, para NOSSA própria segurança!

Do ponto de vista da democracia formal, Portugal deveria ser um “modelo”, mas a realidade mostra uma falha técnica na aplicação do sistema. Se o sistema é válido mas não funciona, devemos então presumir que a lacuna se encontra no “status” dos políticos que se mostram incapazes de fazer com que a máquina do poder funcione.

Deveremos então concluir que se trata de um problema cultural endémico dos nossos políticos? Talvez que hoje, mais do que nunca, seja necessário meditar sobre os fundamentos em que cimentamos a nossa administração do poder e da nossa democracia.

Os 48 anos de ditadura parecem ter deixado na estrutura política portuguesa, a sua “marca”, no que se refere concretamente à chamada denominação do cacique. A principal característica do caciquismo é a impunidade, uma “carta sem letras” que lhes permite fazer e desfazer a seu belo prazer todo o tecido social em que se estende o seu poder. A corrupção dos políticos não é só em Portugal, todos sabemos, mas o que nos difere dos outros é a generalidade da mesma, que nos incapacita cada dia mais e mais para vislumbrar uma referência a seguir e alcançar uma solução eficaz.

A irresponsabilidade do poder assenta no facto dos políticos chegarem ao extremo de estabelecerem um “status” de impunidade para os seus actos, sejam eles de que natureza forem.

O poder, que a teoria constitucional legitima no povo, está cada vez mais nas mãos dos grupos fraccionários que controlam a comunicação social e a economia (para não falar noutros sectores sociais). Esta impunidade mencionada é, em último lugar, a causa das sucessivas fraudes com que os portugueses se deparam, ano após ano.

Se caísse sobre os políticos, como acontece com todos os outros profissionais, a supremacia da lei, pelas irresponsabilidades do seu mandato, provavelmente que a aurora de um novo futuro se deixasse antever…

sexta-feira, março 30, 2007

Não acredito em coincidências...

Incidente Royal


O Irão é acusado de, a 23 de Março, ter preso sem nenhum motivo 15 militares britânicos da Royal Navy. O caso poderá ter como consequência algo muito mais grave do que a escalada do preço do petróleo.
Com a mesma veemência com que garantiu aos britânicos dispor de provas irrefutáveis da existência de armas de destruição maciça no Iraque, Tony Blair afirmou no domingo, em Berlim, que «simplesmente não é verdade que eles [os militares da Royal Navy] entraram em águas territoriais iranianas» e esperar que o governo iraniano «entenda quão fundamental» é para os britânicos uma «questão como esta».
Diferente é a versão iraniana que, segundo a imprensa local, diz dispor de registos de «dados geográficos» dos navios apresados, os quais confirmariam que os militares britânicos «entraram conscientemente nas águas territoriais iranianas e ali permaneceram», o que motivou a sua prisão.
A questão óbvia que se coloca é a de saber quem «ganha» com este incidente. O Irão não será certamente, pressionado como está a ser pelos EUA via Conselho de Segurança, já que é pouco plausível que possa retirar outros dividendos deste imbróglio que não um aumento da tensão, da pressão e das crescentes ameaças que lhe são feitas.
Já no respeitante à Grã-Bretanha, conhecida como aliada incondicional dos EUA, o caso muda de figura, pois não é absurdo admitir que se tenha prestado a levar a cabo uma provocação que sirva de pretexto ao objectivo de «legitimar» um ataque ao Irão.
A hipótese está há muito em aberto e é reconhecida por destacadas figuras da política norte-americana, como Zbigniew Brzezinski, antigo conselheiro de Segurança Nacional, que a 1 de Fevereiro último, numa audição no Comité de Relações Externas do Senado, admitiu como «cenário plausível para um ataque ao Irão» uma «provocação no Iraque ou um acto terrorista nos EUA» de que o Irão seria acusado. A generalidade dos média, curiosamente, não se interessou pelo depoimento, apesar da sua gravidade.
Blair ameaça que o processo para a libertação dos militares entrará numa «nova fase» caso fracassem os esforços diplomáticos. É muita coincidência junta para ser só coincidência.


Anabela Fino in Avante

quarta-feira, março 28, 2007

É preciso estarmos atentos

O fascismo do século XXI
Q

uando se fala de fascismo, somos frequentemente levados a pensar nos regimes políticos que influenciaram as décadas centrais do século XX. Do ponto de vista sociológico, a actuação e o poder desses regimes são as características mais relevantes do fascismo, mas numa análise filosófica do mesmo, vimos que a essência do seu "sucesso" reside na sua natureza social, nas suas características, na sua raiz, garantias da sua própria existência.
A constituição de uma estrutura de poder, num sistema de dependência verticais, é uma das características essenciais do fascismo. Estruturar as dependências entre os membros do poder, subentende a concessão de uma relação social a cada um dos seus elementos, em função de um programa previamente estabelecido. Esta "dependência operativa" pressupõe, ao fim e ao cabo, uma estrutura de domínio, mais ou menos evidenciada, correspondendo a uma concepção de sociedade autoritária, uma hierarquia de poder.
O apoio que a sociedade proporciona à estrutura do poder fascista, é justificado pela verdade que envolve a sua doutrina. O fascista justifica a necessidade do exercício do poder com o facto de conhecer a "verdade", e toda a sua estrutura é organizada no sentido do desenvolvimento da comunidade numa doutrina "sócio-redentora" dessa "verdade". Existe um verdadeiro empenho em conformar a sociedade com os princípios fundamentais que se propõem como "verdade" essencial da sociedade.
A formalização de uma doutrina fascista é quase sempre o resultado da conveniência de uma aristocracia intelectual ou económica que interpreta como única solução, a unificação do pensamento para atingir os seus objectivos. Generalizando os interesses sociais em função do interesse da sua própria classe, este grupo assume a direcção e estrutura do país, constituindo-se como promotor e defensor do novo poder estabelecido.
Uma vez estabelecida a doutrina e controlado o poder, o processo concentra-se em identificar os cidadãos com essa doutrina, usando a "ideologização"da educação, a repressão da informação e a reinterpretação da cultura. Inevitavelmente, o povo perde a percepção de liberdade, salvo para aqueles que se identificam com o movimento social em que navegam.
Por tudo isto, considerarmos o fascismo como um movimento social historicamente superado, supõe o perigo de não notarmos como alguns dos seus fundamentos se desenvolvem e enraízam nas mais variadas condições sociais, mimetizando-se com aparências mais ou menos democráticas e progressistas.
O exercício do poder que, por detrás de uma “verdade”, move um grupo social, pode encontrar a sua justificação numa ideologia política, num grupo económico, num sectarismo religioso, numa aristocracia social, etc. Construir desde aí a sua influência até consolidar um verdadeiro poder, é uma possibilidade mais real e próxima do que julgam aqueles que consideram o fascismo uma coisa do passado.
Se analisarmos determinadas estruturas de poder, no mundo actual, poderemos constatar como os elementos essenciais ao fascismo estão mais presentes do que à primeira vista nos parece.
Para ilustrar este texto, nada melhor do que este vídeo, a que alguns denominaram “O fascismo do século XXI”.
É preciso abrir os olhos e estar alerta!

segunda-feira, março 26, 2007

A cumplicidade do silêncio

"...A passividade dos portugueses perante os ataques sucessivos deste governo às suas liberdades e garantias tem de terminar..."A

s injustiças com que diariamente somos confrontados na nossa sociedade, todos sabemos que são da responsabilidade do governo. Mas, no terreno político, poucas seriam aquelas que avançariam sem o apoio dos que, directa ou indirectamente as consentem. Deste ponto de vista, podemos dizer que as injustiças sociais são mais da responsabilidade dos cidadãos do que possa parecer. Tendo em conta que a democracia é o governo do povo, a sua quota de responsabilidade é um facto, salvo para os que voluntariamente se afastaram do sistema.
Existem muitas formas de nos opormos às injustiças sociais, quer seja reprovando-as pessoalmente nos meios de comunicação, quer exteriorizando colectivamente a nossa repulsa mediante concentrações, manifestações, greves, etc.
No entanto, a opção mais comum perante o abuso de poder ou a injustiça, é o silêncio, pelo menos o "silêncio passivo", aquele que não passa de mero lamento interior, sem a mínima acção de manifesta repulsa. Esse silêncio, em democracia, é com frequência o melhor cúmplice da injustiça.
Quem cala perante uma decisão injusta, converte-se em cúmplice desse acto. E em democracia, o silêncio pode ler-se como um referendo à actuação do poder e em nada beneficia os cidadãos.
A experiência da falta de liberdade de expressão suportada pelos que sofrem um regime político autoritário, ou daqueles que não têm possibilidade nem meios para contestarem as injustiças de que são alvo, contrasta radicalmente com a oportunidade ao exercício do direito à manifestação inerente a uma sociedade livre como a nossa, direito a que unicamente se dá valor, quando o poder o infringe e limita.
Ainda que fosse apenas, por solidariedade com milhões de homens e mulheres que se vêem privados de denunciar a injustiça social, aqueles que nos consideramos protagonistas de um mundo livre, deveríamos sentir a obrigação de exercer com actos e palavras a nossa crítica às políticas anti-sociais, como um símbolo da verdadeira liberdade. Porque, se os povos democráticos silenciam a injustiça, como poderão alguma vez ser referência de liberdade para aqueles que se encontram subjugados?
Há momentos na vida em que calar se torna uma culpa... e gritar alto, uma obrigação. Não teremos calado já o suficiente?


Edição: Na sequência deste post e depois do resultado de ontem do Programa "Grandes Portugueses", penso ser oportuno ler este artigo, porque apesar de tudo, é reconfortante saber que temos jovens corajosos e conscientes neste país.

sábado, março 17, 2007

Considerações

A propósito da nota negativa na avaliação do desempenho

Estas e outras atitudes são mais frequentes do que se possa imaginar e são muitos os trabalhadores que as sofrem diariamente no seu local de trabalho. O Homem não é perfeito e actua pressionado pelo medo. Medo a perder o seu "status", medo a perder o "reconhecimento" alcançado, medo da sua própria debilidade…
Além de todas estas tácticas na corrida pelo poder, deparamo-nos com outro tipo de abusos que não têm outra finalidade senão o aproveitamento, no plano pessoal ou profissional, da condição de subordinação dos outros, aproveitando a maior parte das vezes a falta de transparência que impede que os abusos possam ser denunciados e julgados.
Numa organização hierarquizada, existem diferentes níveis de poder que se manifestam na tomada de decisões e supervisão e controle sobre as pessoas. Pessoas de todas as condições, sexo, raça, idade e status.
O poder muda, está em movimento constante, roda de uns para outros, num jogo constante em que cada um deve encontrar uma parcela, não só no terreno laboral, mas em todo o tipo de relações. Mas, a cultura, as ideias preconcebidas, o inconsciente colectivo da sociedade, são a razão principal para que surjam determinadas manifestações de poder que são injustas do ponto de vista lógico e até mesmo humano, mas que são aceites socialmente de forma fácil e continuam sendo aplicadas sem nenhum escrúpulo.
Por tudo isto, penso que a questão dos dois anos consecutivos com nota negativa, é um pau com muitos bicos!

Em todos os serviços, sejam públicos ou privados, existe competição, luta pela ascensão do poder. Cada um tem as suas ambições, e pode-se dizer que é legítimo o facto de se pretender alcançar um determinado poder para conquistar a sua própria "parcela". Mas, em cada serviço, a luta pelo poder apresenta-se de forma diferente e possui objectivos distintos. Existem centros vitais de poder para os quais está encaminhada a luta pela ambição. No entanto, nesta batalha, neste percurso pela conquista do poder ambicionado, no esforço em manter a pequena ou grande parcela de poder, que se ostenta, alguns homens e mulheres esquecem a dignidade de outros e extrapolam as suas funções, afectando inclusivamente alguns subordinados em aspectos pessoais e privados.
Nesta grande competição, alguns actuam com malícia e premeditação. Utilizam uma posição privilegiada de poder para bloquear ou marginalizar uma pessoa, sem lhe dar ocupação, por exemplo, até conseguirem que a mudem de lugar, por ser considerada um obstáculo. A "técnica do desgaste" por vezes vem mesmo a calhar, quando se pretende "acabar" com um competidor que se considera perigoso, e bombardeiam-no com trabalhos urgentes, sobrecarregando-o até que se revolte. Ao mesmo tempo, e quando deveriam dar boa informação dos seus subordinados, ocultam o seu verdadeiro valor e fazem ainda pior: fornecem confidencialmente, a pessoas "chave" do serviço, declarações contrárias à realidade, dando informação desfavorável e distorcida sobre eles.

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Abílio Fernandes em entrevista


Com que impressão ficaste da Assembleia da República?

Não fazia ideia nenhuma do que era aquilo. Digo isto agora, depois de ter lá estado estes dois anos. A Assembleia da República é de facto um mundo onde se consegue compreender o funcionamento do Estado. E onde se consegue perceber os jogos de bastidores e os compromissos de poder que ali se formam. Isto faz-nos compreender, a quem lá está, por que é que os dois partidos maiores, o PS e o PSD, num momento em que o País atravessa grandes dificuldades, não apresentam propostas válidas. Porque ambos têm fortíssimas culpas de tudo quanto se passou no País desde que começaram os governos constitucionais.

Foi difícil, a adaptação?

Sabes, tive uma grande sorte e felicidade de encontrar um conjunto de camaradas que já lá estão há muitos anos, e que demonstram não só uma grande capacidade de trabalho e de dedicação, mas também uma vitalidade de memória e raciocínio imediato. Para mim isto foi de uma riqueza imensa e ajudou-me bastante.
Por outro lado, encontrei uma equipa de camaradas jovens, que entraram recentemente. E isto para mim é uma grande felicidade. Sinto que estes jovens estão a dar grandes saltos e a progredir a grande velocidade…

Mas entretanto, renuncias…

Sim, passado dois anos renuncio. E renuncio com grande satisfação. Porque eu entendo que o Partido tem que pensar no futuro e pensar no futuro tem que ser com gente nova que possa entrar e assumir responsabilidades e, quando temos essa gente nova, não a podemos desperdiçar. E nós, na Assembleia da República, temos esses jovens! O camarada que me vai substituir, o João Oliveira, tem 27 anos. Eu tenho quase 70… Por isso, saio com muita satisfação

Que momentos destacas desta tua passagem pela Assembleia da República?

Destacar algum pela positiva é difícil, porque nós dificilmente conseguimos fazer aprovar as nossas propostas… Mas um momento importante da minha intervenção parlamentar deu-se aquando da discussão da lei das Finanças Locais, que é, pode dizer-se, a «minha área».
Outro grande momento que eu passei foi no Conselho da Europa, em que foi levantada a questão de considerar que a ideologia comunista está associada a crimes e barbaridades. Foi uma afronta que, como deputado do Partido Comunista Português, me coube denunciar. E disse que quem foi assassinado e espancado em Portugal foram os comunistas. Pela direita e pelo fascismo.
Foi também muito gratificante para mim levar à Assembleia da República as propostas para o distrito de Évora, pelo qual fui eleito, e também de Portalegre.

É sabido – tu próprio acabaste de o dizer – que as nossas propostas dificilmente são aprovadas. Na tua opinião, e neste quadro, qual é o papel do deputado comunista?

Em primeiro lugar, as intervenções dos deputados comunistas são de uma importância extrema. Digo isto em contraponto a todos os que pensam que, como as nossas propostas raramente são aprovadas, quase que estamos ali a perder tempo. É exactamente o contrário…
O Partido, com a sua coerência, tem vindo ao longo dos anos a fazer propostas sempre com o mesmo objectivo: a defesa dos interesses das populações e das camadas trabalhadoras. As intervenções dos comunistas fazem parte da história da Assembleia da República e farão parte de toda a análise que se vier a fazer no futuro sobre a participação dos partidos na vida democrática. E isso tem um peso muito grande.
O mundo vai dar muitas voltas e a política de direita vai continuar a não resolver os problemas das pessoas. E poderá haver perturbações, manifestações e protestos. E aí os cidadãos sérios e honestos vão encontrar nas intervenções dos deputados do PCP a tal coerência e a tal garantia e solidez para governar o País.

Momentos de uma entrevista a Abílio Fernandes, que pode ser lida na íntegra aqui.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Opinião


O sr. Apenas

Saberá Correia de Campos que o envio destes casos para o estrangeiro custa no mínimo 200 mil euros, quando os conhecimentos e equipamentos existem em Portugal?
Correia de Campos não fez mais do que voltar a aplicar o argumento que mais tem posto a uso desde que se encarregou de tratar da saúde aos portugueses. «Apenas» parece ser a palavra preferida do ministro: «apenas» nascem 800 crianças numa maternidade, feche-se; «apenas» usam o SAP em média duas pessoas por noite, feche-se; um milhão de portugueses estão a «apenas» 30 minutos da urgência mais próxima, fechem-se os serviços; os portugueses estão demasiado tempo internados, modere-se o luxo com uma taxa moderadora de «apenas» 5 euros por dia; «apenas» um miúdo por mês precisa de um transplante do fígado, que vá a Espanha.
Bem que o ministro avisou: 2007 será um ano de muita luta em defesa do direito à saúde!



Margarida Botelho in Avante

Estão suspensos há algumas semanas os transplantes do fígado a crianças em Portugal. O único sítio do país onde existe uma equipa de profissionais de saúde formada para fazer uma operação tão delicada é em Coimbra, nos Hospitais da Universidade. O médico que domina a técnica suspendeu a sua actividade e os transplantes pararam. Anos de uma política de recursos humanos obtusa levou a que não fossem criadas condições para ensinar jovens profissionais que assegurassem a continuidade do serviço. O que se passa agora em Coimbra não é diferente do que vai sucedendo por todo o país: a política do Governo PS está a empurrar para fora do Serviço Nacional de Saúde muitos profissionais e a deixar o serviço público empobrecido e fragilizado.
Face ao drama das crianças portuguesas a precisar de transplantes para sobreviver, o ministro da Saúde entendeu que o que era necessário era «relativizar».
Afinal, disse o ministro Correia de Campos para quem quis ouvir, estamos a falar de «não mais de 10 ou 12 casos por ano, apenas», que serão tratados no estrangeiro enquanto não se arranjar outra solução. Achará Correia de Campos que para as oito crianças que neste momento precisam de um transplante do fígado é indiferente serem operadas em Coimbra ou em Madrid, longe da sua família, da sua língua, do seu país? Saberá Correia de Campos quanto tempo demora a formar uma equipa de profissionais com a experiência desta?

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Uma macumba letal: democracia e terror!



Caças americanos

O título pode confundir-nos, mas democracia e terror são conceitos opostos, precisos, impossíveis de interligar. No entanto, o Império do Mal, melhor dizendo, os poderes da ultra direita mundial, guiados pelos Estados Unidos, achou a forma macabra de ligá-los e confundi-los. Assim, países ou governos que "desafinem" com a cartilha imperial são menosprezados. Vários exemplos: o executivo venezuelano, apesar de ter passado por vários processos de aprovação popular, é criticado e apelidado de antidemocrático e comparado a terrorismo político. O Hamas, outra pedra no sapato "yanqui", é acusado de terrorista, ao mesmo tempo que o povo palestiniano é massacrado pelo terrorismo do Estado de Israel. Cuba, Coreia Democrática, Irão, países de sistemas diferentes mas com o nacionalismo como traço comum, são postos num "mundo aparte do mundo", não pela ONU, mas pela Casa Branca (escura como breu), que não faz jus ao seu nome.
Em nome da democracia e da liberdade, os EU realizaram 73 invasões a países da América Latina, de 1824 a 1994. Cuba, Porto Rico, México, Nicarágua, Panamá, Haiti, Colômbia, Honduras, República Dominicana, El Salvador, Guatemala e Granada, ficam na memória.
Escudado pela ficção manipulada do mundo livre, um avião "yanqui" lançou uma bomba sobre Hiroshima, que deixou 250 mil vítimas. Em nome da liberdade e da democracia foram bombardeados o Vietname, a Jugoslávia, o Iraque, com centenas de milhares de mortos.
Tão pouco escaparam o Irão, Líbia, Angola, Somália, Congo, Nicarágua, Cambodja, Sudão… a lista é bastante larga. Em contrapartida, não houve bombardeios nem pactos do mundo livre contra a África do Sul do Apartheid, o Chile de Pinochet, o Paraguai de Stroessner, a Argentina da Junta Militar, como também não há contra Israel de Ehud Olmert.
Durante séculos, dezenas de povos sofreram o terrorismo de estado "yanqui" ou de governos apoiados pela maquinaria bélica, política e propagandística de Washington. Nenhum governante norte-americano foi julgado ou levado ao Tribunal de Haya.
Cabe agora a vez ao Iraque: finalmente questionam-se na ONU e Inglaterra, o milhão e meio de mortos iraquianos consequência das inexoráveis condições impostas a Bagdad, e dos bombardeios anglo-americanos, ilegais, contra essa nação. Mas como sempre, não passará disso mesmo: de meras questões sem consequências e sem culpados.
Quem deterá os Estados Unidos? Haverá lucidez suficiente no planeta para impedir as guerras desnecessárias, evitar o caos e salvar a Mundo?

Obs.: Espero que relevem o facto de faltar algum país no rol da lista de invasões dos "yanquis". Posso ter falhado alguns pelo caminho.

sábado, dezembro 16, 2006

Enfrentar a corrupção...

A corrupção diminui a riqueza e o desenvolvimento económico de um país
A corrupção – vómito infernal – não é um problema ético, um problema moral, mas sim um negócio, um grande negócio, talvez o melhor negócio para enriquecer. As principais causas da corrupção não são culturais ou biológicas, mas sim políticas. Que importa o país, que importa o povo, que importa a grande maioria, se a ganância está assegurada e se, na eventualidade de algo correr mal, existe o exílio, a fuga, e jamais a prisão? O exílio é para o rico e poderoso, a prisão é para o pobre e marginalizado social.

O povo não é corrupto, os corruptos são aqueles que satisfazem as "máfias do poder": os grandes negociadores que realizam as grandes negociatas, os grandes grupos e as multinacionais, mestres na arte do suborno e em corromper e deixar-se corromper. A maioria do nosso povo é honesto, bom e idóneo.

Combater a corrupção e a impunidade, essa grande aliada, tem que ser uma tarefa de todos e deve contar com o apoio das instituições públicas, privadas, meios de comunicação, e do próprio Estado, porque o "monstro" tem uma infinidade de máscaras e formas.

São os pobres quem mais sofre com a corrupção e os com os "estragos económicos" derivados, já que nunca estão em condições de subornar ninguém. A corrupção torna-se por isso uma forma de opressão.

É um fenómeno que se encontra enraizado em todas as esferas do poder e, a falta de leis apropriadas, a fala de vontade das pessoas, os compromissos políticos daqueles que manejam os destinos do país, parece que se confinaram para manter o mesmo sistema decadente e, os esforços que se fazem, tornam-se infrutuosos.

Para controlar a corrupção é necessário uma acção mais radical, eficaz e real.

A decisão do PGR em nomear Maria José Morgado para liderar o processo do "apito dourado", abre de novo um caminho no combate à corrupção, que espero sinceramente não venha a ser obstruído, como ocorreu há 4 anos atrás, quando se começarem a destapar os véus daqueles que ela denominou em tempos de "inimigos sem rosto".

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Fichados para a vida

........Big Brother é o olho dos EUA no regime totalitário previsto na ficção do livro "1984" de Orwell........

Segundo a agência noticiosa AFP, que cita fontes do Departamento Americano de Segurança Nacional (US Department of Homeland Security), entrou esta segunda-feira em funcionamento nos EUA um verdadeiro sistema planetário de Big Brother. Não em uma qualquer cadeia televisiva, com prémios e final feliz, mas na vida real e de consequências imprevisíveis: toda a pessoa que entre ou saia dos Estados Unidos é considerada uma potencial ameaça terrorista, pelo que os seus dados são recolhidos e guardados numa base de dados por um período de 40 anos. Como é timbre da democracia norte-americana, os interessados não só não são informados como nem sequer têm possibilidade de aceder algum dia à informação recolhida.
Em nome da segurança, que já permite à administração Bush mandar violar a correspondência, revistar habitações ou elaborar listas dos livros requisitados em bibliotecas – só para citar alguns exemplos – sem que os visados tenham conhecimento disso, o país da liberdade e dos direitos humanos arroga-se o direito de fichar para a vida todo e qualquer cidadão que atravesse as suas fronteiras, fazendo tábua rasa de direitos cívicos elementares, de todas as convenções, do direito internacional.
O novo Big Brother, de acordo com Jarrod Agen, porta-voz da Homeland Security citado pela AFP, está a cargo de um sistema computorizado designado Automated Targeting System, que para além dos elementos de identificação de cada indivíduo registará toda uma panóplia de dados recolhidos por diversas fontes, como o serviço de registo de passageiros, o Tesouro americano ou o Departamento do Comércio, bem como números de cartões crédito e até o que cada passageiro comeu durante os voos, o jornal que leu ou o perfume que comprou.
Os registos, segundo a mesma fonte, serão partilhados «de forma rotineira» com «autoridades federais, estatais, locais, tribais ou governos estrangeiros» sempre que seja considerado necessário e conveniente.
Múltiplas são igualmente as pessoas que numa base «rotineira» podem aceder à informação: magistrados ou tribunais administrativos; terceiros que participem numa investigação; agentes, organizações ou indivíduos que levem a cabo operações; um departamento do Congresso; e empregadores, especialistas, consultores, estudantes e outros. Numa palavra, a quem a vida de cada um possa interessar, excepto ao próprio interessado.
Orwell não teve imaginação para tanto. O drama é que a sociedade concentracionária para que alertou o mundo está a ser construída… nos EUA.

Anabela Fino in Avante
Os links e sublinhados são minha responsabilidade

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Olhando à nossa volta

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Alguma vez se deram conta que os estímulos à auto indulgência são sempre seguidos de sugestões? As arreigadas em doutrinas procuram vestígios para reclamar dentro de nós, os vendedores procuram subterfúgios para enganar-nos… desde os profetas da new-age até aos publicitários, desde os desonestos aos radicais, todos nos incentivam a perseguir "os nossos ideais". Mas a questão é: quais ideais? Os reais? E quem decide quais são?
O que está perfeitamente claro é que existe uma guerra pelo nosso alento, em todas as frentes. Estes desejos são, na realidade, construídos: mudam, são dependentes de factores externos, da cultura, do contexto histórico da nossa sociedade. "Apreciamos" a comida rápida porque temos que regressar ao trabalho rapidamente, porque a família nuclear (para os poucos que ainda podem dizer que a possuem) é demasiado pequena e está demasiado ocupada para se permitir a alegria de cozinhar e comer em conjunto. "Temos" que ver o e-mail porque a dissolução da comunidade nos levou familiares e amigos para longe, porque os nossos chefes preferem não falar directamente connosco, porque a tecnologia da "poupança de tempo" apropriou-se do tempo, usado antes para escrever cartas (e pelo caminho matou todos os pombos correio). "Queremos" trabalhar, porque esta sociedade não se preocupa em absoluto com aqueles que não o façam, porque é difícil imaginar formas mais aprazíveis de preencher o nosso tempo, quando tudo o que nos rodeia, está projectado para o comércio e o consumo. Cada um dos nossos desejos, cada conceito que formamos, está enquadrado na "linguagem" da sociedade que nos criou.
Quem nunca desejou ser de forma diferente, num mundo diferente?
Se os nossos desejos são construídos, ou melhor dizendo, somos o produto daquilo que nos rodeia, então podemos dizer que a nossa liberdade se mede pelo maior ou menor controlo que possamos ter sobre o que está ao nosso redor. É estupidez dizer a uma mulher que é livre de sentir o que quiser acerca do seu próprio corpo, quando cresce rodeada de anúncios de dietas e "posters" de modelos anorécticas. Como é estúpido dizer-se a um homem que é livre, quando tudo o que precisa para conseguir comida já está previamente estabelecido pela sociedade, e que a sua única alternativa é escolher entre as várias opções estabelecidas.
Precisamos de aprender a fabricar a nossa própria Liberdade, criando brechas na "fábrica" da nossa existência, forjando novas realidades. Precisamos de assegurar-nos que tomamos as nossas próprias decisões, sem o peso da inércia pelo hábito, costume, lei ou obsessão. Está nas nossas mãos criar estas situações. Estes momentos não são tão raros como possam parecer. A mudança é constante e em toda a parte, e cada um de nós tem nela um papel importante, de forma consciente ou não. Podemos dar-nos ao luxo de ser “radicais” (não será antes peremptórios?)... porque ser-se radical, é simplesmente manter-se atento na nossa sociedade.

quinta-feira, dezembro 07, 2006

terça-feira, dezembro 05, 2006

Contrato (anti)social

Aideia foi apresentada

pelo primeiro-ministro britânico, Blair, e apresentada esta segunda-feira pelo Diário Económico com o objectivo, segundo o director do periódico, de «deixar Portugal a pensar».
Trata-se, nem mais nem menos, de implementar um pretenso «contrato social» que estabeleça uma «relação completamente nova entre o Estado e os cidadãos», de forma a definir o mais exaustivamente possível as responsabilidades do cidadão para além de «pagar impostos e cumprir a lei». Contrato (anti) social
Do cumprimento da sua parte do «contrato» dependerá o acesso de cada indivíduo aos serviços básicos de qualidade, como a assistência médica, a educação e a protecção policial.
Blair ilustra esta ideia peregrina com um exemplo: um hospital público poderá exigir, antes de colocar uma banda gástrica a um doente sofrendo de obesidade, que o paciente se comprometa por escrito a não voltar a ganhar peso, sob pena de perder no futuro o direito a cuidados de saúde.
A menos que se trate de uma brincadeira de mau gosto de Blair, o que não é crível, o referido «contrato social» – que o DE considera como sendo «uma evolução, muito interessante, da lógica inicial do ‘welfare to work’ (assistência social)» – representa mais um brutal atentado a elementares princípios de uma sociedade civilizada.
A ser implementado, este «contrato social» consagraria não só o primado do governo policial como liquidaria o próprio conceito de Estado enquanto entidade colectiva e solidária. Na prática, trata-se de defender a criação de um corpo de vigilantes, dotado de plenos poderes, que para além de fazer as leis e cobrar os impostos decide o que cada cidadão tem de fazer para usufruir do «direito» de pertencer à comunidade.
O que está em causa não é a exequibilidade de um tal «contrato», como referem alguns comentadores ao DE, mas o facto de ter sido enunciado na Grã-Bretanha e de haver entre nós quem considere a ideia digna de reflexão.
Com semelhante «contrato», o Estado deixaria de ser o resultado da organização da sociedade como um todo para se assumir como um corpo estranho, uma entidade prepotente formada pelas elites dominantes cuja função seria – numa escala infinitamente superior à que já existe – a de dominar e explorar a população, reduzida à condição de mão-de-obra acéfala. A diferença em relação a uma sociedade esclavagista seria um mero acaso.
Certamente não por acaso, o mesmo DE lançou anteontem novo tema de «reflexão»: a flexisegurança, que é como quem diz o novo embrulho do governo PS para a liberalização do desemprego. E ainda há quem não acredite em coincidências!


Anabela Fino in Avante

sábado, novembro 25, 2006

Um Mundo... mundos diferentes

---------- O Desejo ----------
D

esde que nos disseram que estávamos de “tanga” que os portugueses se colocaram uns contra os outros, enquanto sectores sociais – público ou privado – e, dentro do primeiro, encontramos, inclusive, diferentes grupos profissionais. Um aspecto que tem sido utilizado frequentemente quer pelo governo, quer pela direita, quer ainda pelos media para denegrir a imagem dos trabalhadores da Administração Pública, e virar os trabalhadores privados contra os funcionários públicos, é a questão das remunerações e da “regalias” na segurança social, diferentes do sector privado. Abismo entre público e privadoHá dias, na sala de espera da dentista, ouvi os maiores disparates que se possam imaginar numa conversa de mulheres (mera casualidade) que, sem o mínimo conhecimento de causa ou de adequada justificação, atacavam os trabalhadores da função pública, considerando-os o “cancro” da crise que vivemos actualmente, fazendo jus aos verdadeiros objectivos do governo: interiorizar nos portugueses a ideia de que a Administração Pública (inevitável bode expiatório) é a génese da culpabilidade de todas as medidas que têm sido implementadas e que não agradam a ninguém. Enquanto ouvia a referida conversa, ocorreu-me à ideia uma história antiga que ilustra bem o estado de espírito de alguns.
A história, acontecia em África, num tempo não determinável de um local muito pobre. Um homem revela-se desesperado. Fora agricultor e tinha perdido tudo, numa terra seca por muitos anos sem chuva. Estava só, pois a sua mulher e filhos tinham partido. E vivia numa cabana quase a cair, nada tendo sequer para comer. Certa manhã, o homem saiu da cabana e sentou-se no chão, encostando-se ao tronco de uma árvore. Quase de imediato, surgiu do nada um duende, mesmo ali à sua frente. O espanto do homem foi enorme e mais ainda quando essa figura mágica lhe disse: “Concedo-te um desejo. O que desejares será concretizado. Seja o que for, apenas um desejo. Mas com uma condição: aquilo que desejares, ser-te-á concedido a ti e em dobro ao teu vizinho do lado. Volto amanhã, exactamente por esta hora, para saber da tua decisão e o desejo será imediatamente concedido”. E o duende desapareceu. Depois do espanto, o homem sentiu medo. Duvidava do que lhe tinha sido proposto, porque duvidava de si mesmo. Pensava que o desespero lhe tivesse toldado o espírito e a razão. Mas nada tendo, nem nada para perder, rapidamente abandonou o medo e começou a entusiasmar-se. As coisas pequenas que começou por desejar foram tomando volume. Uma bela seara, pensou. Que lhe desse grande rendimento. Teria trabalho e alimento. E teria então condições para reorganizar a sua vida. Mas enquanto imaginava semelhante seara, lembrou-se do vizinho… com quem estava muito zangado e há muito tempo. O vizinho teria una seara duas vezes maior! E sem qualquer esforço. Nem pensar, concluiu.
Mas não querendo perder a oportunidade, o homem pensou: iria para a cidade e deixaria de viver naquele lugarejo. Desejaria um grande comércio, instalado numa bela loja. Venderia de tudo um pouco e ficaria finalmente rico. Só que, nesse caso, o vizinho teria uma loja duas vezes melhor e venderia duas vezes mais coisas. Não o podia permitir! O vizinho seria duas vezes mais rico! Nem pensar, concluiu novamente. Desejou então uma companheira. Bonita, muito bonita. E o vizinho… teria duas mulheres tão bonitas como a sua ou então uma mulher duas vezes mais bonita que a sua. E mais uma vez concluiu: nem pensar!!
O dia e a noite correram sem que o homem conseguisse dormir. Foi formulando desejos de que imediatamente desistia porque nem queria sequer imaginar que o seu vizinho iria ter o dobro do que lhe seria concedido a si. Que injustiça! O duende era seu e a sorte era sua. E o vizinho ia aproveitar-se de tudo isso. Não, não o permitiria nunca.
A manhã chegou e o homem estava esgotado com a briga solitária que travara. E chegou também a hora do duende, que apareceu conforme havia prometido ao homem, solicitando que expressasse então o seu desejo. O homem não hesitou. Pediu ao duende que lhe arrancasse um olho.