queles que dirigem e controlam a imprensa escrita e audiovisual não se cansam de proclamar enfaticamente que a comunicação social é o garante das liberdades cívicas, desde que desfrute de uma liberdade de expressão absoluta. É verdade que a liberdade de nos informarmos e de informar, constitui um travão para os que ostentam o poder. Mas essa liberdade, por sua vez, constitui uma forma de poder que pode degenerar e tornar-se manipuladora.
Na realidade, a possibilidade de nos podermos expressar publicamente, é apenas de alguns, quase sempre profissionais da política e do jornalismo. A maioria dos cidadãos vêem-se reduzidos ao papel de leitores, radiouvintes e telespectadores. Apenas alguns têm a oportunidade de expor as suas opiniões por escrito. Ainda que os jornais reservem um espaço próprio para os leitores, na secção Cartas do Director. Mas até mesmo esta ínfima possibilidade de nos fazermos ouvir, depende da decisão do jornal e não do autor da carta. Valha-nos agora os blogs!
Sendo assim, em caso de polémica, este desequilíbrio entre o poder da imprensa e a multidão de cidadãos que carecem de meios de comunicação próprios, torna-se abismal e mesmo dramático. Os recursos de um jornal para fazer sentir a sua prepotência a quem se vê encurralado numa controvérsia são tão poderosos que, falar de liberdade de expressão é uma ironia. És atacado por um jornal e pedes direito de réplica. Concedem-no, fazendo alarde de liberalismo. Mas tardam em publicar a tua posição, mutilam-na e situam-na num espaço pouco destacado e, ao lado, até lhe colocam um artigo adverso… Entre o caçador e a presa há menos diferença quanto ao poder de atacar e defender-se, que entre um jornal e um cidadão que se enfrenta com alguém poderoso ou afecto ao mesmo.
A imprensa escrita e audiovisual exerce actualmente um verdadeiro “colonialismo da opinião pública”. Orienta o povo conforme as sentenças da sua forma de pensar. Para isso, selecciona os seus colaboradores, filtra as notícias, converte as informações em interpretações e comentários, destaca os dados que favorecem a sua própria posição ou prejudicam a imagem do adversário ideológico. Basta confrontar dois jornais de orientação diversa para verificar de que formas tão distintas se pode interpretar um mesmo acontecimento. A objectividade da notícia é parcial e está condicionada pela linha de um grupo ou do próprio jornalista. As notícias que nos chegam, independentemente de escritas, orais ou visuais, não apresentam o facto ocorrido mas sim a modificação/alteração necessária para cumprir com um determinado objectivo: o político. Hoje em dia a informação converteu-se num instrumento de poder e consegue atrair a opinião da sociedade, influenciando-a de uma forma voraz. É um elemento de manipulação através do qual se defendem diversas posturas e ideologias, um elemento que incide na nossa maneira de pensar, inconscientemente.
Depois do poder executivo, legislativo e judicial, temos o quarto poder: a informação (nas mãos de alguns privilegiados), que tem como finalidade informar e como objectivo, levar essa informação à sociedade.
Na minha opinião, considero que hoje em dia, todos os meios de comunicação têm demasiada influência na nossa maneira de pensar, atacam-nos, manipulam-nos, violam a intimidade dos mais mediáticos, etc… tudo para obter um pouco de glória, porque afinal são o quarto poder. Os meios de comunicação, actualmente, fazem o que lhes dá na gana, não têm regras… apenas um montão de informação, crê-la ou não, é da nossa conta.
"Os desabafos que se seguem têm seguramente todas as desvirtudes dos desabafos: para pouco servem e arriscam-se a não encontrar grandes concordâncias. Apesar de tudo, não devem ficar abafados..."
sexta-feira, junho 29, 2007
O quarto poder
quinta-feira, junho 14, 2007
Os invisíveis
A imagem da exclusão social mais evidente talvez seja a das pessoas que vivem na rua. Na “desenvolvida” União Europeia, calcula-se que cerca de 5 milhões de pessoas não têm lar e que mais de 15 milhões vivem em barracas. Ao mesmo tempo, os imigrantes sem papéis, os habitantes dos bairros marginais e os toxicodependentes sem tratamento, formam um grupo de excluídos cada vez maior. A verdade é que podemos afirmar que, se a sociedade não favorece os débeis, então ela os exclui. E começa a fazê-lo bem cedo.
A falta de interesse pela educação, que recebem as crianças dos bairros marginais, assegura-lhes à partida, “uma taxa de exclusão” para o futuro. A igualdade de oportunidades apregoada por aí, não passa de uma frase feita, porque os meios públicos não são colocados de igual forma ao alcance de todos.Fenómenos como o desemprego, a precariedade no trabalho ou a redução do Estado de Bem Estar, fazem aumentar a percentagem de excluídos. As novas estruturas sociais criam grupos de exclusão que antes eram impensáveis. O “avô” que até há pouco tempo era uma figura fundamental em qualquer família, enfrenta com uma das exclusões mais subtis: a solidão. Num país tradicionalmente familiar como Portugal, mais de um milhão de idosos vivem sós, e uma grande percentagem reconhece que o seu principal problema é a falta de companhia.
Os grupos de exclusão mudam com o tempo. Ao longo da história, foram vários os excluídos sociais: os judeus, os canhotos, os doentes mentais, os ciganos, os actores, os portadores do vírus da SIDA. A homossexualidade e o consumo de drogas foram rechaçadas ou dignificadas, consoante as diferentes culturas. São vários os grupos de exclusão que criamos ao nosso redor. Hoje em dia a principal causa de exclusão mundial é, simplesmente, a pobreza.
O excluído não é aquele que perdeu o emprego, mas sim aquele que não tem a mínima esperança de recuperá-lo. O problema dos excluídos não é que tenham problemas, é antes não ter a quem contá-los e a quem pedir ajuda. Excluído é o imigrante que chega sem uma garantia de futuro, a prostituta sem alternativa, o toxicodependente, a mulher maltratada, o sem abrigo. O idoso que não entende uma receita médica e não tem quem lha explique; o doente sem visitas há meses; o homossexual que tem de calar o que sente e o deficiente motor defronte de uma escada.
A verdade é que os excluídos não escolhem sê-lo. Somos nós que, entre todos, lhes escrevemos o rótulo.
Ninguém é um excluído por aquilo que é, mas sim pelo tratamento que recebe dos outros que o rodeiam. Talvez que o excluído não exista, e só existamos nós, os excludentes.
quarta-feira, junho 13, 2007
Conclusões do G8
Todas as televisões francesas se recusaram a passar estas imagens, mas algumas tv's europeias tiveram a coragem suficiente para nos mostrar os bastidores do G8. Este vídeo está o máximo!
quarta-feira, junho 06, 2007
G8, what for?!!
A reunião dos chefes de Estado e de Governo dos oito países mais industrializados do mundo (G8), que tem hoje início em Heiligendamm na Alemanha, mostra-nos um cenário político e socio-económico pouco animador para o futuro da humanidade. No evento que terá como lema essencial “Crescimento e Responsabilidade”, os líderes do G8 debaterão e decidirão uma vez mais sobre as questões de economia e política global que os afectam, sem ter em conta os mínimos interesses dos países subdesenvolvidos, a não ser uma pequena referência sobre a situação económica em África.
Este ano a agenda incluirá para além da inversão e crescimento económico, a propriedade intelectual e a crise energética, sem qualquer referência aos acutilantes problemas económicos que envolvem os países subdesenvolvidos.
Q ue distintas são as coisas quando se vêem de distintos pontos da Terra! Para os que vivem no coração de África, o significado da Paz é totalmente diferente do que pode significar para os cidadãos da Europa. Se para estes a paz representa a tranquilidade, para os outros a paz, significa acima de tudo, sobrevivência. A guerra, na sua total crueldade, apresenta-lhes duas perspectivas: a do protegido e a do desprotegido.
Para as grandes potências, a guerra representa um mero jogo de estratégias. Para os países subdesenvolvidos, o espectáculo dantesco da ruína, a fome e a morte.
As guerras esquecidas de África, as que não comovem a opinião dos europeus ou dos norte-americanos, porque aparentemente não lhes afecta a vida, poderiam servir para a "análise da natureza social da guerra". Existem três características comuns a todos os conflitos:
- Os homens da guerra;
- Ânsia de poder;
- Desequilíbrio económico.
Os homens da guerra são os sujeitos que concebem a guerra como um meio de impor os seus critérios num determinado conflito social. À frente de cada movimento belicista existe uma mente perturbada que interpreta a destruição do inimigo, como um objectivo para a sua afirmação pessoal. É comum aos homens da guerra dissimular um quadro psicológico de egocentrismo que os induz a considerar as discrepâncias sociais como uma ameaça à realização pessoal. Uma paranóia que inevitavelmente conduz à alternativa "vitória ou morte".
A ânsia de poder representa outra das características comuns de toda a iniciativa bélica. É esta que move os caciques das sociedades a colaborar com as iniciativas dos seus líderes. Subir na escada do poder é a perspectiva dos políticos, salvo para os poucos que assumem os seus objectivos como um serviço à sociedade. Os oficiais militares e os cabecilhas políticos oferecem-se para constituir os "estados-maiores" que realizarão as operações de extermínio do grupo social, elevado à categoria de inimigo. Personificar-se e identificar-se com o líder, constitui a garantia de uma quota de poder, alcançada a vitória.
Mas uma das características que mais induz à guerra é a irrealidade que se segue a todo o real desequilíbrio económico. Aqueles que todos os dias convivem com a miséria, são os mais frágeis para continuar e assumirem um Estado com esperança na prosperidade, após o alistamento na luta armada. Os que nada têm, têm aparentemente menos que perder e muito mais a ganhar. São estes dois objectivos que movem muitos a lutar, sem perceberem que, da destruição da guerra apenas se obtém duas coisas: mais pobreza, mais miséria e mais dor.
As sociedades mais débeis são por si só, as sociedades mais frágeis aos interesses das grandes potências, que utilizam os homens da guerra como os seus baluartes para a exploração do terceiro mundo, que não só confiscam as suas riquezas naturais, como ainda dizimam as suas populações e as lançam na maior das pobrezas.
O dia que os tambores calarem e os povos massacrados tomem consciência do poder da paz e do trabalho, todos unidos, estarão rumo ao desenvolvimento. Mas talvez que esse dia seja já tarde demais.

sexta-feira, junho 01, 2007
Dia Mundial da Criança
se me notan las costillas, debo vivir el día a día.
Y tú preocupao por cómo adelgazar,
pensando todo el día en esos kilitos de más.
Siéntate un ratito y ponte a pensar
en cómo viven y mueren los demás.
Pa' poder vivir debo arriesgarme a morir,
aún me queda la esperanza de poder seguir aquí.
Navegan mis ilusiones en un frío mar añil,
escapar de la pobreza, ¡Por fin, por fin, por fin!
Y si merece la pena hay cruzar en una patera
que va a naufragar antes de llegar a Gibraltar.
Me asusta la pobreza, vete de aquí.
Nos quitas el trabajo y nos traes de fumar,
educamos a tus hijos pa que roben el pan,
el día de mañana nos vas a gobernar.
Y apaga el televisor y todo vuelve a ser real,
las cosas que has visto se te van a olvidar:
guerras, hambre y precariedad...
¡Calla tu conciencia y déjate llevar!...
Entonces se apagan todas las luces del barrio
y la gente duerme y no piensa
en los que pierden su vida a diario.
Con la mirada perdía en esos ojos de cuencas vacías,
se me notan las costillas, debo vivir el día a día.
quinta-feira, maio 31, 2007
Olhando o dedo
Um dos grandes defeitos da nossa sociedade é a proliferação de um grande número de imbecis em colaboração estreita com outros tantos chicos-espertos. Uns estão encavalitados em altos cargos do poder, outros prestam-lhe vassalagem, mas todos estão dotados de um nível médio de escolaridade que lhes arroga o direito de opinar veemente daquilo que pouco ou nada sabem.
E, como sabem pouco, e no fundo não querem aprender mais porque crêem que nada mais têm para saber, costumam opinar sobre temas conjunturais. Ou seja, sobre o que geralmente a comunicação social já opinou o que, no entanto, não deixa de ser medíocre, escandaloso, pretensioso e de grande ignorância. Outro defeito mais que têm os “manda bocas” aficionados ou os “língua de trapo” profissionais, é a sua incapacidade para se manterem em silêncio quando as circunstâncias o exigem.
Hoje, a propósito de alguns comentários que li e ouvi sobre a greve geral de ontem, veio-me à memória esta frase que ouvi em tempos e que caricata de forma fidedigna este tipo de gente. Nada mais certo! Porque se não sabemos ou não queremos saber, se estamos simplesmente distraídos e não entendemos as coisas mais prementes que nos rodeiam, então é porque também fazemos parte desse grupo de imbecis que ficaram olhando o dedo.
quarta-feira, maio 30, 2007
sexta-feira, maio 25, 2007
A Greve Geral de 30 de Maio
Numa segunda operação tentaram colocar a rã em água temperada, Neste caso, embora não estivesse totalmente cómoda, nem sequer se moveu. Colocaram então o recipiente a aquecer lentamente no fogo, mas com um aumento constante da temperatura, ainda que suave. Pouco antes de alcançar a temperatura mortal para a rã, viu-se que ela tentou fazer um movimento, e logo de seguida flutuou inerte.

Ficou a dúvida se a rã morreu ainda antes de tentar saltar fora da sertã, ou se a permanência na água quente tinha anulado a sua capacidade de salto.
Os poderosos desta sociedade sabem muito bem que não poderiam governar a sociedade verdadeiramente como lhes gostaria e por isso, conduzem-nos gradualmente, sem pressa e sem parar, rumo aos seus objectivos.
Creio, contudo, que hoje em dia ainda conservamos essa capacidade de reacção quando nos agridem clara e fortemente.
MUDAR DE RUMO! Porque é preciso mostrar o cartão vermelho ao Governo! Porque chega de precariedade, de flexigurança, de desemprego, de desigualdades! Porque é justo o nosso protesto!
... e quando assim é, como será melhor? Todos juntos ou cada um por si?
- A precariedade agrava-se e gera insegurança e instabilidade;
- O desemprego é já o dobro de há 3 anos, aumentando a pobreza e a exclusão;
- A emigração é a saída para milhares de portugueses, principalmente jovens;
- O patronato bloqueia a contratação colectiva, recusa o aumento dos salários e ataca os direitos dos trabalhadores;
- Os salários valem menos, os preços sobem demais, os lucros dos grandes são imensos e as desigualdades aumentam escandalosamente;
- Na flexigurança, a prometida protecção social não protege, não compensa, nem é realizável em Portugal, ou seja, tudo é flexi e nada segurança;
- Diariamente o patronato e o governo-patrão desvalorizam o valor e a dignidade do trabalho;
- Enfraquece o SNS, fecham maternidades, hospitais, centros de saúde, os médicos saem do SNS, aumentam as taxas moderadoras, taxam-se os internamentos e cirurgias… tudo a favor das clínicas e hospitais privados;
- Escolas fecham-se, o Ensino Público degrada-se. É insuficiente o financiamento das Universidades;
- Degrada-se a justiça, são excessivas as custas judiciais, nega-se o apoio judiciário, fecham tribunais;
- Uma pior Segurança Social com redução das pensões no futuro e a diminuição das condições de atribuição do subsídio de desemprego;
- A imposição de baixos salários;
- A injusta distribuição da riqueza;
- A pobreza e a privação, mesmo de quem trabalha.
ESTAS SÃO MEDIDAS POLÍTICAS GOVERNAMENTAIS, NÃO ACEITÁVEIS!!!
E então eu pergunto àqueles que acham que não vale a pena fazer greve: quando a temperatura da água for demasiado alta e insuportável, não será que pode ser já demasiado tarde para saltar??
quarta-feira, maio 23, 2007
Mudando um pouco o tema
Universo Feminino
T irando as "Amélias", uma espécie aliás em franco processo de mutação, toda a mulher que se preza não vive sem a sua vaidade.
Para os homens, pode parecer felicidade barata mas, para as mulheres, que sabem o alto custo disso, um dia de sorriso garantido é aquele em que a pele amanhece perfeita, os cabelos dispostos a colaborarem e o guarda-roupa recheado de peças que parecem ter sido desenhadas sob medida. Mas quem pensa que a tradicional produção visual feminina visa encantar os olhares masculinos, engana-se. É claro que, nessa história, há uma boa dose de síndrome de pavão, que se enfeita para atrair o sexo oposto, e também um pouco de satisfação pessoal. Mas o que atormenta a maioria das mulheres naqueles dias de t-shirt, calça de algodão e rabinho de cavalo é a própria opinião feminina. Como boas representantes da espécie, elas sabem que o mundo é uma arena de leoas, todas de olho vivo para condenar sapatos mal escolhidos, maquilhagens borradas e outros deslizes da concorrência.
A maioria, é com a opinião das outras que se preocupa na hora de escolher a roupa. Vestimo-nos para as mulheres, sem dúvida. E somos muito cruéis, não deixamos passar nada. Nem os homens são tão exigentes, acreditem. O ginásio é o melhor lugar para comprovar isso. Aquele bando de mulheres reparando se nós usamos o mesmo fato de treino todos os dias ou se mudamos amiúde. É um julgamento constante. Da mesma maneira, no trabalho, quando somos mais de duas, reparamos em tudo e comentamos. Quando vem alguma mais bem arrumadinha, uma ou outra faz questão de elogiar. Mas é notótio que tal generosidade é, na verdade, uma espécie de inveja velada. É um horror. No fundo, roemo-nos de inveja por perceber que há alguém mais bonita do que nós. É uma autêntica competição. Os homens não reparam se o cinto combina com o sapato ou se repetimos a mesma saia a semana inteira.
E não reparam mesmo. Basta uma rápida pesquisa para comprovar que, quando passa uma mulher, há, para os homens, outros apetrechos mais interessantes a serem observados do que a produção fashion. Para eles, basta que a mulher apenas aposte nas peças que realcem, digamos, as suas bênçãos naturais. Quando coloca uma blusinha mais decotada, uma saia mais justa, não precisa mais nada. Não importa a cor, nem se combina com a calça, ou qualquer coisa assim. Desde que esteja valorizando coisas boas, se a roupa for curta e justinha, nada mais importa.
A todo o instante está patente essa antiga realidade: a competência feminina. Na maioria dos casos, é uma necessidade de compensação da auto-estima, como o carro o é para o homem, afinal de contas. Mas não deixa de ser difícil, essa vida de mulher: arrumar-se para elas, despir-se para eles.
sexta-feira, maio 11, 2007
Opinião
orquê o nome “terroristas”? Quem foi que os adjectivou assim? Que reacções provoca esta palavra a quem a escuta? O dicionário diz que terroristas são aqueles que comentem actos de terrorismo, definindo-o como o conjunto de actos de violência cometidos por uma organização, com o intuito de criar um clima de insegurança para derrubar o governo.
Terrorismo é um neologismo adjectivado do “terror” e dizer terror é dizer medo, atemorizar… É também, utilizando homónimos, falar em pavor, pânico. O terror está intimamente ligado à violência, que pode ser súbita ou persistente. O terror expressa uma situação extrema que fragiliza a condição humana, que a obriga a pensar em termos de sobrevivência, que subverte todos os padrões da normalidade e todos os valores éticos. O terror, evidentemente, é uma sensação individual, subjectiva, intimamente vinculada a mecanismos de instintivos de defesa e protecção, mas a sua acção é sempre desencadeada no âmbito social; é uma linguagem que nasce do desespero e que estabelece uma simbiose estranha com o contexto que a origina.
O terrorismo, evidentemente, é social. Está desenhado para nos atingir individualmente, mas concebido para actual globalmente. Funciona com a lógica do castigo, da advertência, da discriminação, da perversidade. O terrorismo impõe metas, marca fronteiras e estabelece uma classe de vítimas e sacrifícios. Escolhe as suas vítimas e as formas de comunicação para que o terror seja apreendido na sua forma mais pura.
O terrorismo existe para gerar medo e o medo só tem razão de ser quando é colectivo, quando se propaga pelas ranhuras da consciência e se instala em cada indivíduo. Esse medo paralisa, destrói os princípios da solidariedade, faz de cada ser humano uma partícula de violência. Esse medo corrói a memória, gera temores, provoca ressentimentos e altera as relações com os outros, rompendo qualquer possibilidade de solidariedade.
Quando a sociedade inteira é aterrorizada, dominá-la torna-se mais fácil. O terrorismo, contrariamente à sua acepção no dicionário, não é a acção de uma qualquer organização para provocar instabilidade e derrotar o governo. Na realidade, o terrorismo é uma estratégia para atemorizar o colectivo, é a perversidade do poder absoluto que pretende obter a submissão total, é uma táctica de amedrontamento feita para destruir o inimigo, é o apelo à violência social na sua forma historicamente mais pura, é a consequência da utilização e da administração preconcebida do medo, é o “grau zero”da solidariedade.
O verdadeiro terrorismo não está na bomba que explode num centro comercial, na rua ou noutro sítio qualquer. Essa bomba provoca surpresa, indignação, dor, ira, desejo de vingança, mas nunca um medo persistente, quotidiano, permanente. A planificação do medo requer uma actuação mais sistemática e elaborada, ou seja, mais técnica. Alguns regimes totalitários provocaram verdadeiros genocídios sem o mínimo protesto ou resistências de maior por parte das suas sociedades. Na sua planificação do medo, as razões do poder converteram-se em razões da história e foi impossível contrariá-las, resistir-lhes. Esta é a obsessão do terror, impossibilitar a resistência e torná-la também impensável.
As ditaduras do sul da América Latina, nos anos 60 e 70, fizeram do medo uma estratégia oficial para sustentar uma guerra suja contra os seus povos; Israel utiliza o terrorismo para dominar e controlar o Médio Oriente fazendo na realidade, do terrorismo, uma verdadeira política de Estado. Se o terrorismo é a planificação, administração e execução sistemática do medo, através do uso estratégico do terror, então afinal quem são os que podem ser considerados terroristas? Sabemos que aqueles que administram o medo e a violência não são chamados de terroristas. Aqueles que se justificam dizendo que recebem ordens, os soldados que participam em verdadeiras carnificinas com o pretexto de destruir o inimigo ou aqueles políticos que legitimam e defendem o uso do terror, jamais foram acusados de terroristas ou de favorecer o terrorismo. A ninguém lhes passa pela cabeça que o governo israelita, por exemplo, possa ser assumido como um governo terrorista, mas em contrapartida, em virtude de um processo de transferência de conotações, os terroristas serão aqueles que utilizam as formas mais artesanais da violência, quase sempre como resposta última e desesperada perante o outro terrorismo. É esta transferência de significantes que possibilita uma cómoda distribuição social de culpas e castigos. Em suma, os terroristas serão aqueles que caiam no jogo de responder à violência do poder com a violência da resistência. Durante o III Reich alemão, a resistência estava tipificada como terrorismo. O governo israelita também qualificou como terroristas os povos árabes palestinos. Os Estados Unidos encontraram no terrorismo a base de sustentação ideológico-política para o seu projecto de expansão imperial. A figura do “terrorista” serve de cobertura e de expiação. É uma figura necessária e imprescindível, que permite a construção de um discurso político e de uma actuação histórica, feita para manter o poder e a sua vigência continuada. O poder usa essa figura para construir discursos, consensos, unificar vontades, disfarçar intenções, articular estratégias e impor sanções e controle. A construção da figura do terrorista cria um rosto sem cara, que pode facilmente ser assumido como o inimigo “real” desse poder. É a construção de um ident-kit, no qual se podem adaptar, segundo as circunstâncias, perfeitamente os nossos próprios rostos.
Os verdadeiros terroristas querem que o mundo inteiro se adeqúe aos objectivos do seu próprio pensamento: pensar como eles, ser como eles, aparecer como eles, colaborar com eles.
Na verdade, o terror que nasce do poder necessita justificar-se, necessita uma vítima propiciatória que justifique os seus excessos e que perdoe as suas atrocidades. Então, aponta-nos os terroristas e diz-nos que são homens sem escrúpulos, instrumentos do mal que é necessários eliminar. Todos podem ser apontados como terroristas: os contestatários mais radicais, os sindicalistas, o movimentos rebeldes, os intelectuais comprometidos, os árabes muçulmanos… ninguém está seguro, e esse é mesmo o objectivo. A verdade é que são muitos os regimes que se dizem democráticos, e que fazem da administração sistemática do medo, a sua essência de poder.
A que chamo eu terrorismo afinal?
O verdadeiro terrorismo é aquele que é exercido pelos que simplesmente carregam nos botões, conduzem mísseis “inteligentes” assassinos, ordenam terríveis bombardeios e asfixiam economicamente os povos realmente inocentes. Este terrorismo de estado e de “colarinho branco”, que se exerce sem o mínimo pudor, comodamente sentado numa poltrona e sem arriscar minimamente a sua integridade pessoal, é muito mais baixo, mais indigno, mais cruel e mais cínico que a violência daqueles que usam a sua própria vida, o único que lhes resta, para defender as suas ideias e contra atacar os seus inimigos.
quinta-feira, maio 10, 2007
Ladrões de tempo
uando se rouba dinheiro, jóias, quadros ou outro qualquer objecto de valor, se o ladrão se arrepender, pode sempre devolver o produto do roubo. Quando se rouba o tempo, não existe forma alguma de o devolver. O tempo perdeu-se, irremediavelmente. Cada um de nós pode fazer com o seu tempo, tudo o que lhe der na gana. Ninguém deveria dispor do tempo dos outros contra a sua vontade.
Já Vítor Hugo dizia: "A vida é curta e ainda a encurtamos mais com o insensato desperdício de tempo". O problema está em que uma boa parte da perda é forçada por pessoas incapazes de respeitar os bens alheios. Há pessoas que roubam o tempo dos outros de forma impune. Diz-se que o tempo é ouro, mas não me parece que possua os mesmos quilates daquele que é usado para fabricar jóias. Porque se arrogam o direito de no-lo roubar? Ainda que o queiramos "gastar mal", esse tempo é nosso! E o problema ainda é mais grave, na medida em que esse roubo se faz em plena luz, descaradamente, impunemente.
Podia enumerar múltiplos exemplos. Mas vou apenas referir-me a dois: engarrafamentos e filas em algumas repartições públicas. Cada um de nós deve ter uma experiência abundante de situações idênticas de roubo.
Todas as manhãs, para chegar ao trabalho, muitos cidadãos têm de passar por entupimentos enormes de trânsito. E o mesmo acontece ao final do dia, de regresso a casa. Todos os dias. Felizmente, este é um problema que não me aflige porque estou a 8 minutos em transporte público do meu local de trabalho. Mas, quando tenho de ir a Lisboa fico com enxaqueca logo na véspera, só de pensar naquilo que vou ter de passar. Quem nos devolve o tempo perdido olhando a matrícula do carro da frente? E todos os dias o mesmo, ainda que seja uma matrícula diferente…
Quando vamos a um Banco, por exemplo, precisamos de fazer fila de uma forma quase sistemática. Reparamos num "guiché" com o aviso correspondente: FORA DE SERVIÇO. E pensamos porque diabo não nos atende a pessoa que está por detrás da janelinha. Simplesmente porque está a fazer o serviço que interessa ao Banco. Mas com mais pessoal poderiam certamente atender os clientes e gerir o nosso dinheiro, não? Será que os gerentes não vêem as filas? Não sabem que com mais pessoal, estaríamos menos tempo à espera? Quem nos devolve esse tempo perdido?
Quando precisamos de resolver algum tipo de processo numa repartição pública, é para esquecer. Demoras e mais demoras, constantes pedidos de mais este ou aquele documento, de novo demoras, pedidos de informação que não chegam, escusas dos serviços com outros organismos, de novo mais demoras e fazemos por esquecer que o nosso tempo precioso não tem para eles nenhum valor. Apenas tempo perdido… O mais que pode acontecer é recebermos uma explicação de credibilidade duvidosa.
A verdade é que não permitiríamos a um ladrão fugir impunemente depois de ter pedido perdão por nos roubar a carteira: "Perdoe a moléstia, senhor (ou senhora) mas acontece que eu preciso de aumentar as minhas disponibilidades monetárias". O que mais me indigna é que nos tomem por idiotas.
A verdade é que o tempo dos poderosos é ouro, e o dos cidadãos é lixo. Não há pois problema se o deitarmos fora. O tempo perdido é inversamente proporcional à categoria das pessoas. Quanto mais categoria, menos tempo perdido, quanto menos categoria, mais tempo roubado. Às vezes surpreende-me a paciência de alguns que conseguem aguentar sem refilar. Ficam nas filas do Banco e não mostram o mínimo sinal de impaciência. Os condutores, entretêm-se nos engarrafamentos, tamborilando com os dedos sobre o volante ao som da música do rádio. Será que alguma vez fizeram o cômputo do tempo perdido à semana, ao mês, ao ano, na vida? Se o fizessem, descobririam que lhes estão roubando uma parte importante. Que fazer então? Ir a tribunal a denunciar os ladrões? É impressionante a impunidade dos ladrões de tempo. Nunca lhes acontece nada. Ninguém entra com as algemas num Banco para prender o gerente, ninguém se lembra de colocar o ministro das obras públicas na prisão e ninguém grita "ladrão" quando o seu tempo é sistematicamente roubado numa repartição pública. Ao pobre desgraçado que rouba uma galinha (ou um creme de 3,99 euros) levam-no a tribunal.
O tempo é de cada um de nós. Ninguém tem o direito de delapidá-lo. Bernard Berensen, conhecido critico de arte, quando estava quase a cumpri 90 anos, disse: "Gostaria de colocar-me numa esquina com um chapéu na mão, pedindo aos transeuntes que depositassem nele todos os minutos da sua vida que não chegaram a usar".
Todos nós pacientes (e impacientes) cidadãos deveríamos processar a quem nos rouba um bem tão precioso, porque não há direito a cometer estes roubos a plena luz, de forma tão descarada e com impunidade total.
sábado, maio 05, 2007
E porque hoje é sábado...
sexta-feira, maio 04, 2007
Marionetas
D efendo que uma sociedade é mais rica quando a participação dos seus cidadãos é maior e a sua personalidade mais desenvolvida. A personalidade, como consciência íntima de projecção individual, de interpretação subjectiva do sentido da vida, assenta no amadurecimento do conhecimento intelectual. Pressupõe a determinação da singularidade do indivíduo em pessoa autónoma.
E ssa diversidade da personalidade, não obstante ser um dos factores decisivos para o progresso social, representa para aqueles que dirigem (governam) a comunidade, o maior obstáculo ao exercício do poder. As estruturas políticas cumprem melhor o exercício do poder que se propõem, quanto maior for a uniformidade da massa social que administram e menor a dispersão de critérios. Por exemplo, as estruturas económicas procuram a uniformidade no consumo, com o objectivo de facilitar a planificação da produção. A pressão que o poder exerce sobre a sociedade favorece a uniformidade e força a personalidade dos cidadãos a padrões preconcebidos.
Esta tendência torna-se real mediante a promoção de ideais que modelam a vontade dos cidadãos. E como? Através da manipulação das populações, utilizando a propaganda política ou a publicidade comercial. Percebe-se facilmente que existe uma finíssima margem entre a informação e a coacção psicológica, o que determina por si só um limite à própria liberdade. Concluir que um cidadão é livre na medida em que exerce mediante sufrágio, a sua opinião sobre algumas realidades sociais, não é mais do que uma "concepção pobre" da liberdade.
Uma sociedade é tanto mais livre, quanto mais participativa e organicamente mais dinâmica for a sua estrutura.
Os poderes, segundo o adágio romano de pão e circo costumam distrair os cidadãos das suas próprias responsabilidades, transmitindo-lhes a imagem de que a sua segurança e progresso estão garantidos. Assim, as pessoas satisfeitas nas suas necessidades primárias, adiam o hábito de pensar e convertem-se em indivíduos amorfos.
Contra essas condutas totalitárias, mais ou menos revestidas de democracia, a única contenção está no desenvolvimento da cultura humanística que desperte no indivíduo a sua capacidade protagonista e o leve a interrogar-se se a sociedade que se constrói ao seu redor corresponde à sua expectativa de progresso social.
São muitos os "poderes" que se podem utilizar para silenciar a iniciativa pessoal, obrigando-nos a vaguear no mundo como marionetas. Alguns tão antigos como pão e circo, transformaram-se hoje em televisão e consumo.

terça-feira, maio 01, 2007
1º de Maio

Memórias de
Um tempo não muito distante...
Recordações que deixam
mágoa, saudade e alegria, ao mesmo tempo...
"Ti" Adriano, o que nos contava os discursos e as conversas macias que no tempo de Salazar, o ditador, entremeavam com porrada, exploração e guerra, até fartar, para cima dos trabalhadores. A única abundância.
Quantas onças de tabaco dizias que fumavas, por dia, nessas occasiões, escondido em cima das azinheiras e dos sobreiros, com a guarda a cavalo à tua procura a mando do "lavrador" e da PIDE? Eu já não me lembro!
Belos serões aqueles! Tu a contares essas histórias na tua casa pobre, de chão de terra batida e telhado de telha-vã. O que te valia era o lume de chão e aquele bagaço que tinhas para os camaradas - que eu detestava e tu te rias - enquanto a conversa corria, encantadora, a dar conforto, a despertar vontades e sonhos. Noite fora.
Um poema é feito de muita coisa. Os homens e as mulheres têm o direito de sonhar. O dever de sonhar. E não faz mal ter presente Goethe: "A teoria, meu amigo, é parda, mas verde é a eterna árvore da vida". E. Hemingway: "Um homem pode ser destruído mas não derrotado". Catarina Eufémia. António Maria Casquinha. José Geraldo.
As formigas de asa chegam com a terra molhada. Lavrada. Penetrada pelo arado. Fecundada. O pássaros comem a bicheza que fica nas leivas levantadas pela charrua. O cheiro primitivo e quentte da terra remexida. As sementeiras. Pão. O pão que produzias e faltava na tua casa.
As ceifas. Doze horas curvado. De sol a sol. Calores tórridos.
A jornada de miséria. A fome. O insuportável suportado. Latifúndio. Coutadas. Ganhões.Restos de um tempo. Feudalismo. A praça de jorna. O dia de greve. Os que partem. As tuas lágrimas. No campo, o poço. Água fresca. Cantares de um povo que sofre. Rejeição do esquecimento. Resistência. Até à Revolução de Abril. Depois, o 1º de Maio. A tua festa! Évora. Milhares de trabalhadores!* Post recuperado do ano passado e editado.
sexta-feira, abril 27, 2007
Rescaldo
"Que Abril seja, ainda e sempre, mais do que memória e simbolismo. Antes de Cavaco. Depois de Cavaco. Sem Cavaco"F
Quem tem Abril inscrito nos genes já tinha percebido que as portas que o poema abriu não chegaram para arejar as ideias e abrir janelas ao ar do tempo.
Entre aqueles que cumprem rituais de caminhadas e vivas pelas avenidas abaixo – e eu sou um deles - a ironia afia-se todos os anos.
Contam quanto tempo falta para serem comparados aos velhinhos do 5 de Outubro, lamentam que os cravos sejam de estufa e sem cheiro, olham para o lado e esbarram nas caras da última vez, mais envelhecidas. «Sempre os mesmos», comentam.
Mas algo os impele, até num dia de temporal, a sair de casa, a ouvir as canções de outrora (ou de sempre?), ensopadas, e a usar o guarda-abril nos dias de tempestade. Nada a fazer. Quem anda às revoluções, molha-se.
Ora, o Presidente da República, ao ter razão na circunstância, perde-a por causa de um problema de memória. Já lá vamos... Mas diga-se, desde já, que não é só Cavaco a sofrer da doença: finalmente, uma ministra da Educação reconheceu que o 25 de Abril e o seu significado andam «ausentes» dos manuais escolares. Talvez seja por falta de tempo ou vontade para dar a matéria. Ou páginas a menos.
Nas minhas aulas de História do velhinho – e, já agora, concluído - 12º ano, lembro-me de uma professora que decidiu passar ao lado da matéria do dia e falar da revolução. Teve um pretexto: irritou-se quando uma aluna entradota, típica das aulas nocturnas, lhe disse: «O 25 de Abril foi um golpe reaccionário». A mulher passou-se.
Nesses tempos do meu 12º ano, Cavaco era primeiro-ministro. (Sim, ele já foi primeiro-ministro, daaaa! Dez anos). Tirando os primeiros tempos do pós-revolução, onde os sonhos ainda estavam al punto e a esperança não era entregue de bandeja aos partidos, a prática política das figuras que nos foram desgovernando desonrou o legado deixado por homens como Salgueiro Maia.
O cavaquismo foi a esse respeito um período de excelência. Lembro-me de festejar a Abril num País entalado em manchetes diárias de promiscuidades políticas, traficâncias, benesses, corrupções, fraudes, arranjismos e um farto catálogo de indignidades e decisões sem pingo de ética, vergonha ou pudor. Houve também cargas policiais, fundos europeus desbaratados, universidades privadas criadas como cogumelos e alimentadas por turbolicenciados com poder político e influências. Eles andam aí.
A isto se resume o reinado de Cavaco? Não, mil vezes não!, diria o Almada do Dantas. Mas talvez explique uma coisa simples: as comemorações de Abril precisam tanto de uma reciclagem como precisa a política, os seus protagonistas, e a democracia.
Se as comemorações falham na mensagem, quem nos governa e governou cometeu pecado maior: faltar ao prometido.
Se falta criatividade e marketing ao 25 de Abril, que os cravos sejam kravos, que se faça um rap da Grândola e se troque o fogo de artifício por poemas lançados do céu.
Mas que Abril seja, ainda e sempre, dever cumprido.
Mais do que memória e simbolismo.
Antes de Cavaco. Depois de Cavaco. Sem Cavaco.
Miguel Carvalho in Visãoquarta-feira, abril 25, 2007
terça-feira, abril 24, 2007
25 de Abril II
O
- A inexistência de um poder político com um programa definido e empenho em realizá-lo;

- A incapacidade para uma rápida estrutura global de um Estado democrático;
- As divisões, os conflitos e ulteriormente os confrontos no MFA permitindo a retomada progressiva de posições nas Forças Armadas por elementos e conservadores revanchistas;
- A colaboração do PS e de sectores democráticos do MFA com os sectores mais conservadores e golpistas no novo quadro do poder;
- O esquerdismo e fortes tendências e correntes de radicalismo no campo democrático e em algumas organizações do PCP;
- O apoio à reacção interna, ingerências e pressões financiara, económica, política e diplomática do imperialismo;
- O acesso ao poder de forças conservadoras nos países capitalistas mais desenvolvidos e o agravamento da situação internacional.
O conjunto destes e outros factores inseriu no processo revolucionário profundas contradições, conduziu a uma acentuada irregularidade, a uma instabilidade crescente e a variações constantes da correlação de forças, e abriu caminho ao avanço das forças reaccionárias e conservadoras do sistema de poder e à formação de alianças que viriam a culminar com o 25 de Novembro.
A s históricas conquistas da revolução de Abril criaram condições para um desenvolvimento económico, social, político e cultural.
O processo contra-revolucionário adiou a concretização de tal perspectiva, mas muitas das conquistas e valores da revolução de Abril criaram e mantêm fundas raízes na vida e na realidade nacionais.
A democracia política, embora intimamente relacionada com a democracia económica, social e cultural, possui um valor intrínseco pelo que é necessário salvaguardá-la e assegurá-la como elemento integrante e inalienável da sociedade portuguesa.
A liberdade é um elemento básico essencial na democracia. É pressuposto de um regime de liberdade a igualdade de direitos, deveres e oportunidades dos cidadãos, sem discriminações por motivo de sexo, de raça, de convicções políticas, de crenças religiosas, de situação económica e de condição social.
O melhoramento das condições de vida e o desenvolvimento económico são elementos indissociavelmente complementares na vida democrática. Assim, precisamos entender que o desenvolvimento económico deve ter como um dos principais objectivos a eliminação da pobreza, das gravíssimas carências, injustiças e desigualdades sociais dos portugueses, o aumento do seu bem-estar material e cultural, a garantia dos seus direitos sociais.
Assim, devem ser assegurados:
- O direito ao trabalho e à justa remuneração;
- O direito à segurança social;
- O direito à saúde;
- O direito à educação, à ao ensino e à cultura;
- O direito à habitação;
- O direito a um ambiente sadio e ecologicamente equilibrado;
- O direito das mulheres à igualdade, assegurado no plano jurídico e no plano material;
- O direito dos jovens ao ensino, à realização e formação profissional, ao trabalho;
- O direito dos idosos a uma vida digna;
- O direito dos deficientes a uma vida integrada na sociedade como cidadãos de pleno direito.
E não basta que fique na lei o reconhecimento dos direitos sociais dos cidadãos. É necessária uma política que, pelas suas orientações e pela sua realização, os assegure na prática.
segunda-feira, abril 23, 2007
25 de Abril
A
Iniciada com o heróico levantamento popular, pôs fim a quase meio século de ditadura fascista, pôs fim à guerra colonial reconhecendo aos povos das então colónias
portuguesas o direito à completa e imediata independência, alterou significativamente o enquadramento de Portugal no conceito internacional e realizou profundas transformações políticas, económicas e sociais que abriram na vida do país um novo período da sua história marcado pela liberdade e pelo progresso social. Revoluções tão profundas não se resumem a um acto revolucionário: constituem um processo que pode ser mais ou menos demorado e acidentado. A revolução de Abril é uma revolução inacabada.
A revolução de Abril correspondeu, não apenas a condições objectivas da sociedade portuguesa e às necessidades do desenvolvimento económico, do progresso social e do melhoramento das condições de vida da população, mas também à vontade do povo.
A revolução de Abril transformou profundamente a realidade nacional e o posicionamento de Portugal no mundo:
- Instaurou liberdades democráticas fundamentais e direitos básicos dos trabalhadores e dos cidadãos: a liberdade sindical, de reunião, de associação, de expressão, de imprensa, direito à greve;
- Institucionalizou a igualdade de direitos do homem da mulher e os direitos dos jovens;
- Pôs fim à guerra colonial e deu uma directa contribuição para a independência de povos secularmente submetidos ao colonialismo português;
- Institui uma democracia política entre cujos elementos básicos se contam os princípios da igualdade de direitos e da proporcionalidade no sistema eleitoral, o Poder Local democrático e a autonomia regional nas ilhas da Madeira e Açores;
- Liquidou o capitalismo monopolista do Estado e os grupos monopolistas e o seu domínio sobre a economia e a vida nacional, criando com as nacionalizações um sector básico da economia portuguesa em condições de dinamizar o desenvolvimento económico e garantir o interesse público;
- Promoveu o melhoramento das condições de vida do povo: salário Mínimo Nacional, melhoria geral dos salários, subsídio de férias e de natal, redução do horário de trabalho, subsídio de desemprego, pensões e reformas generalizadas a todos;
-Impulsionou importantes transformações e mudanças nas esferas dos ideais, valores, atitudes e comportamentos cívicos, sociais, culturais e políticos;
-Promoveu o direito à saúde, ao ensino e à educação, à segurança social.
(continua)

