sexta-feira, abril 27, 2007

Rescaldo

AC/DC

"Que Abril seja, ainda e sempre, mais do que memória e simbolismo. Antes de Cavaco. Depois de Cavaco. Sem Cavaco"F

oi preciso vir um homem que nunca festejou o 25 de Abril na rua dizer-nos a verdade: as comemorações da revolução dos cravos estão a precisar de se libertar do mofo.
Quem tem Abril inscrito nos genes já tinha percebido que as portas que o poema abriu não chegaram para arejar as ideias e abrir janelas ao ar do tempo.
Entre aqueles que cumprem rituais de caminhadas e vivas pelas avenidas abaixo – e eu sou um deles - a ironia afia-se todos os anos.
Contam quanto tempo falta para serem comparados aos velhinhos do 5 de Outubro, lamentam que os cravos sejam de estufa e sem cheiro, olham para o lado e esbarram nas caras da última vez, mais envelhecidas. «Sempre os mesmos», comentam.
Mas algo os impele, até num dia de temporal, a sair de casa, a ouvir as canções de outrora (ou de sempre?), ensopadas, e a usar o guarda-abril nos dias de tempestade. Nada a fazer. Quem anda às revoluções, molha-se.
Ora, o Presidente da República, ao ter razão na circunstância, perde-a por causa de um problema de memória. Já lá vamos... Mas diga-se, desde já, que não é só Cavaco a sofrer da doença: finalmente, uma ministra da Educação reconheceu que o 25 de Abril e o seu significado andam «ausentes» dos manuais escolares. Talvez seja por falta de tempo ou vontade para dar a matéria. Ou páginas a menos.
Nas minhas aulas de História do velhinho – e, já agora, concluído - 12º ano, lembro-me de uma professora que decidiu passar ao lado da matéria do dia e falar da revolução. Teve um pretexto: irritou-se quando uma aluna entradota, típica das aulas nocturnas, lhe disse: «O 25 de Abril foi um golpe reaccionário». A mulher passou-se.
Nesses tempos do meu 12º ano, Cavaco era primeiro-ministro. (Sim, ele já foi primeiro-ministro, daaaa! Dez anos). Tirando os primeiros tempos do pós-revolução, onde os sonhos ainda estavam al punto e a esperança não era entregue de bandeja aos partidos, a prática política das figuras que nos foram desgovernando desonrou o legado deixado por homens como Salgueiro Maia.
O cavaquismo foi a esse respeito um período de excelência. Lembro-me de festejar a Abril num País entalado em manchetes diárias de promiscuidades políticas, traficâncias, benesses, corrupções, fraudes, arranjismos e um farto catálogo de indignidades e decisões sem pingo de ética, vergonha ou pudor. Houve também cargas policiais, fundos europeus desbaratados, universidades privadas criadas como cogumelos e alimentadas por turbolicenciados com poder político e influências. Eles andam aí.
A isto se resume o reinado de Cavaco? Não, mil vezes não!, diria o Almada do Dantas. Mas talvez explique uma coisa simples: as comemorações de Abril precisam tanto de uma reciclagem como precisa a política, os seus protagonistas, e a democracia.
Se as comemorações falham na mensagem, quem nos governa e governou cometeu pecado maior: faltar ao prometido.
Se falta criatividade e marketing ao 25 de Abril, que os cravos sejam kravos, que se faça um rap da Grândola e se troque o fogo de artifício por poemas lançados do céu.

Mas que Abril seja, ainda e sempre, dever cumprido.

Mais do que memória e simbolismo.

Antes de Cavaco. Depois de Cavaco. Sem Cavaco.

Miguel Carvalho in Visão

terça-feira, abril 24, 2007

25 de Abril II

O processo contra-revolucionário

O

avanço e a continuação do processo democrático da revolução de Abril foram entretanto comprometidos, paralisados e interrompidos por virtude de numerosos factores:
- A inexistência de um poder político com um programa definido e empenho em realizá-lo;
- A incapacidade para uma rápida estrutura global de um Estado democrático;
- As divisões, os conflitos e ulteriormente os confrontos no MFA permitindo a retomada progressiva de posições nas Forças Armadas por elementos e conservadores revanchistas;
- A colaboração do PS e de sectores democráticos do MFA com os sectores mais conservadores e golpistas no novo quadro do poder;
- O esquerdismo e fortes tendências e correntes de radicalismo no campo democrático e em algumas organizações do PCP;
- O apoio à reacção interna, ingerências e pressões financiara, económica, política e diplomática do imperialismo;
- O acesso ao poder de forças conservadoras nos países capitalistas mais desenvolvidos e o agravamento da situação internacional.
O conjunto destes e outros factores inseriu no processo revolucionário profundas contradições, conduziu a uma acentuada irregularidade, a uma instabilidade crescente e a variações constantes da correlação de forças, e abriu caminho ao avanço das forças reaccionárias e conservadoras do sistema de poder e à formação de alianças que viriam a culminar com o 25 de Novembro.

Abril no futuro


A s históricas conquistas da revolução de Abril criaram condições para um desenvolvimento económico, social, político e cultural.
O processo contra-revolucionário adiou a concretização de tal perspectiva, mas muitas das conquistas e valores da revolução de Abril criaram e mantêm fundas raízes na vida e na realidade nacionais.
A democracia política, embora intimamente relacionada com a democracia económica, social e cultural, possui um valor intrínseco pelo que é necessário salvaguardá-la e assegurá-la como elemento integrante e inalienável da sociedade portuguesa.
A liberdade é um elemento básico essencial na democracia. É pressuposto de um regime de liberdade a igualdade de direitos, deveres e oportunidades dos cidadãos, sem discriminações por motivo de sexo, de raça, de convicções políticas, de crenças religiosas, de situação económica e de condição social.
O melhoramento das condições de vida e o desenvolvimento económico são elementos indissociavelmente complementares na vida democrática. Assim, precisamos entender que o desenvolvimento económico deve ter como um dos principais objectivos a eliminação da pobreza, das gravíssimas carências, injustiças e desigualdades sociais dos portugueses, o aumento do seu bem-estar material e cultural, a garantia dos seus direitos sociais.
Assim, devem ser assegurados:
- O direito ao trabalho e à justa remuneração;
- O direito à segurança social;
- O direito à saúde;
- O direito à educação, à ao ensino e à cultura;
- O direito à habitação;
- O direito a um ambiente sadio e ecologicamente equilibrado;
- O direito das mulheres à igualdade, assegurado no plano jurídico e no plano material;
- O direito dos jovens ao ensino, à realização e formação profissional, ao trabalho;
- O direito dos idosos a uma vida digna;
- O direito dos deficientes a uma vida integrada na sociedade como cidadãos de pleno direito.
E não basta que fique na lei o reconhecimento dos direitos sociais dos cidadãos. É necessária uma política que, pelas suas orientações e pela sua realização, os assegure na prática.

segunda-feira, abril 23, 2007

25 de Abril

A Revolução Inacabada

A

revolução de Abril constitui um dos mais importantes acontecimentos nos oito séculos da história de Portugal, uma realização da vontade do povo, uma afirmação de liberdade, de emancipação social e de independência nacional.
Iniciada com o heróico levantamento popular, pôs fim a quase meio século de ditadura fascista, pôs fim à guerra colonial reconhecendo aos povos das então colónias portuguesas o direito à completa e imediata independência, alterou significativamente o enquadramento de Portugal no conceito internacional e realizou profundas transformações políticas, económicas e sociais que abriram na vida do país um novo período da sua história marcado pela liberdade e pelo progresso social.
Revoluções tão profundas não se resumem a um acto revolucionário: constituem um processo que pode ser mais ou menos demorado e acidentado. A revolução de Abril é uma revolução inacabada.

As conquistas de Abril


A revolução de Abril correspondeu, não apenas a condições objectivas da sociedade portuguesa e às necessidades do desenvolvimento económico, do progresso social e do melhoramento das condições de vida da população, mas também à vontade do povo.
A revolução de Abril transformou profundamente a realidade nacional e o posicionamento de Portugal no mundo:
- Instaurou liberdades democráticas fundamentais e direitos básicos dos trabalhadores e dos cidadãos: a liberdade sindical, de reunião, de associação, de expressão, de imprensa, direito à greve;
- Institucionalizou a igualdade de direitos do homem da mulher e os direitos dos jovens;
- Pôs fim à guerra colonial e deu uma directa contribuição para a independência de povos secularmente submetidos ao colonialismo português;
- Institui uma democracia política entre cujos elementos básicos se contam os princípios da igualdade de direitos e da proporcionalidade no sistema eleitoral, o Poder Local democrático e a autonomia regional nas ilhas da Madeira e Açores;
- Liquidou o capitalismo monopolista do Estado e os grupos monopolistas e o seu domínio sobre a economia e a vida nacional, criando com as nacionalizações um sector básico da economia portuguesa em condições de dinamizar o desenvolvimento económico e garantir o interesse público;
- Promoveu o melhoramento das condições de vida do povo: salário Mínimo Nacional, melhoria geral dos salários, subsídio de férias e de natal, redução do horário de trabalho, subsídio de desemprego, pensões e reformas generalizadas a todos;
-Impulsionou importantes transformações e mudanças nas esferas dos ideais, valores, atitudes e comportamentos cívicos, sociais, culturais e políticos;
-Promoveu o direito à saúde, ao ensino e à educação, à segurança social.

(continua)

quarta-feira, abril 18, 2007

A propósito de espertezas...

Sociedade e Estupidez


H á quem pense que o número de estúpidos é mais elevado numa sociedade em decadência do que numa sociedade em ascensão, e penso que é um erro grave. A verdade é que ambas vivem recheadas com a mesma percentagem de estupidez. E a diferença reside no facto de que, numa sociedade em declínio, os estúpidos são mais activos em virtude de uma maior permissividade por parte dos outros membros.

Um país em ascensão possui também uma percentagem insolitamente alta de indivíduos inteligentes, que procuram controlar a fracção dos estúpidos e, ao mesmo tempo, produzem para eles e para os outros membros da comunidade, os benefícios suficientes para que o progresso seja um êxito.

Num país em decadência, a percentagem de indivíduos estúpidos é igual. No entanto, observa-se no resto da população, sobretudo entre os indivíduos que estão no poder, uma proliferação alarmante de corruptos, "chicos espertos" com uma elevada percentagem de estupidez e, entre os outros que não estão no poder, um crescimento, igualmente alarmante do número de incautos.

quarta-feira, abril 11, 2007

Opinião

A responsabilidade do poder

Todos os dias os portugueses se sentem mais defraudados com os políticos que elegem ano após ano, e nos quais depositam todas as esperanças. O problema até nem chegaria a ser espectacular, se não fosse o facto de que o mal se tornou crónico. E se as doenças crónicas não matam mas impedem viver saudavelmente, as maleitas sociais crónicas impedem a convivência, o desenvolvimento, e são a origem de todas as delinquências. Tiremos-lhe nós o cinto, para NOSSA própria segurança!

Do ponto de vista da democracia formal, Portugal deveria ser um “modelo”, mas a realidade mostra uma falha técnica na aplicação do sistema. Se o sistema é válido mas não funciona, devemos então presumir que a lacuna se encontra no “status” dos políticos que se mostram incapazes de fazer com que a máquina do poder funcione.

Deveremos então concluir que se trata de um problema cultural endémico dos nossos políticos? Talvez que hoje, mais do que nunca, seja necessário meditar sobre os fundamentos em que cimentamos a nossa administração do poder e da nossa democracia.

Os 48 anos de ditadura parecem ter deixado na estrutura política portuguesa, a sua “marca”, no que se refere concretamente à chamada denominação do cacique. A principal característica do caciquismo é a impunidade, uma “carta sem letras” que lhes permite fazer e desfazer a seu belo prazer todo o tecido social em que se estende o seu poder. A corrupção dos políticos não é só em Portugal, todos sabemos, mas o que nos difere dos outros é a generalidade da mesma, que nos incapacita cada dia mais e mais para vislumbrar uma referência a seguir e alcançar uma solução eficaz.

A irresponsabilidade do poder assenta no facto dos políticos chegarem ao extremo de estabelecerem um “status” de impunidade para os seus actos, sejam eles de que natureza forem.

O poder, que a teoria constitucional legitima no povo, está cada vez mais nas mãos dos grupos fraccionários que controlam a comunicação social e a economia (para não falar noutros sectores sociais). Esta impunidade mencionada é, em último lugar, a causa das sucessivas fraudes com que os portugueses se deparam, ano após ano.

Se caísse sobre os políticos, como acontece com todos os outros profissionais, a supremacia da lei, pelas irresponsabilidades do seu mandato, provavelmente que a aurora de um novo futuro se deixasse antever…

quinta-feira, abril 05, 2007

Alentejanos...

Num dia de calor intenso,

em que apenas se ouve o cantar das cigarras e o silêncio do campo, debaixo de uma azinheira, aproveitando a sombra, a Ti’ Maria lavava a roupa junto ao poço.
Passou na estrada de terra um antigo conhecido, de visita à aldeia, que morava agora lá para as bandas de Lisboa, e grita-lhe: _ Ó Ti’ Maria, então você ainda não tem máquina de lavar? Ai mãe!!!!_ Eu não, homem!
_ Mas isso assim não pode ser! Prá feira, tem de ir com o Ti' Manel comprar uma máquina de lavar roupa e vai ver que é uma grande coisa!
A Tia Maria chega a casa e logo conta ao marido o que lhe disse o visitante. Combinaram então ir comprar a máquina à feira, no fim-de-semana.
Na volta, chegam a casa, instalam a máquina e a mulher atafulha-a de roupa, toda satisfeita com a compra que fez. De repente, a máquina começa aos pulos, salta do lugar e sem parar, continua aos pulos em direcção da porta.
A Ti’ Maria, em pânico, começa aos gritos ao marido. _ Manel!! Manel!! Ai… Manel! A máquina tá quase a sair à porta!
Responde o homem:
_ Ó Maria, não te apoquentes, mulher, deixa a máquina, q’ela vai estender a roupa!

sexta-feira, março 30, 2007

Não acredito em coincidências...

Incidente Royal


O Irão é acusado de, a 23 de Março, ter preso sem nenhum motivo 15 militares britânicos da Royal Navy. O caso poderá ter como consequência algo muito mais grave do que a escalada do preço do petróleo.
Com a mesma veemência com que garantiu aos britânicos dispor de provas irrefutáveis da existência de armas de destruição maciça no Iraque, Tony Blair afirmou no domingo, em Berlim, que «simplesmente não é verdade que eles [os militares da Royal Navy] entraram em águas territoriais iranianas» e esperar que o governo iraniano «entenda quão fundamental» é para os britânicos uma «questão como esta».
Diferente é a versão iraniana que, segundo a imprensa local, diz dispor de registos de «dados geográficos» dos navios apresados, os quais confirmariam que os militares britânicos «entraram conscientemente nas águas territoriais iranianas e ali permaneceram», o que motivou a sua prisão.
A questão óbvia que se coloca é a de saber quem «ganha» com este incidente. O Irão não será certamente, pressionado como está a ser pelos EUA via Conselho de Segurança, já que é pouco plausível que possa retirar outros dividendos deste imbróglio que não um aumento da tensão, da pressão e das crescentes ameaças que lhe são feitas.
Já no respeitante à Grã-Bretanha, conhecida como aliada incondicional dos EUA, o caso muda de figura, pois não é absurdo admitir que se tenha prestado a levar a cabo uma provocação que sirva de pretexto ao objectivo de «legitimar» um ataque ao Irão.
A hipótese está há muito em aberto e é reconhecida por destacadas figuras da política norte-americana, como Zbigniew Brzezinski, antigo conselheiro de Segurança Nacional, que a 1 de Fevereiro último, numa audição no Comité de Relações Externas do Senado, admitiu como «cenário plausível para um ataque ao Irão» uma «provocação no Iraque ou um acto terrorista nos EUA» de que o Irão seria acusado. A generalidade dos média, curiosamente, não se interessou pelo depoimento, apesar da sua gravidade.
Blair ameaça que o processo para a libertação dos militares entrará numa «nova fase» caso fracassem os esforços diplomáticos. É muita coincidência junta para ser só coincidência.


Anabela Fino in Avante

quarta-feira, março 28, 2007

É preciso estarmos atentos

O fascismo do século XXI
Q

uando se fala de fascismo, somos frequentemente levados a pensar nos regimes políticos que influenciaram as décadas centrais do século XX. Do ponto de vista sociológico, a actuação e o poder desses regimes são as características mais relevantes do fascismo, mas numa análise filosófica do mesmo, vimos que a essência do seu "sucesso" reside na sua natureza social, nas suas características, na sua raiz, garantias da sua própria existência.
A constituição de uma estrutura de poder, num sistema de dependência verticais, é uma das características essenciais do fascismo. Estruturar as dependências entre os membros do poder, subentende a concessão de uma relação social a cada um dos seus elementos, em função de um programa previamente estabelecido. Esta "dependência operativa" pressupõe, ao fim e ao cabo, uma estrutura de domínio, mais ou menos evidenciada, correspondendo a uma concepção de sociedade autoritária, uma hierarquia de poder.
O apoio que a sociedade proporciona à estrutura do poder fascista, é justificado pela verdade que envolve a sua doutrina. O fascista justifica a necessidade do exercício do poder com o facto de conhecer a "verdade", e toda a sua estrutura é organizada no sentido do desenvolvimento da comunidade numa doutrina "sócio-redentora" dessa "verdade". Existe um verdadeiro empenho em conformar a sociedade com os princípios fundamentais que se propõem como "verdade" essencial da sociedade.
A formalização de uma doutrina fascista é quase sempre o resultado da conveniência de uma aristocracia intelectual ou económica que interpreta como única solução, a unificação do pensamento para atingir os seus objectivos. Generalizando os interesses sociais em função do interesse da sua própria classe, este grupo assume a direcção e estrutura do país, constituindo-se como promotor e defensor do novo poder estabelecido.
Uma vez estabelecida a doutrina e controlado o poder, o processo concentra-se em identificar os cidadãos com essa doutrina, usando a "ideologização"da educação, a repressão da informação e a reinterpretação da cultura. Inevitavelmente, o povo perde a percepção de liberdade, salvo para aqueles que se identificam com o movimento social em que navegam.
Por tudo isto, considerarmos o fascismo como um movimento social historicamente superado, supõe o perigo de não notarmos como alguns dos seus fundamentos se desenvolvem e enraízam nas mais variadas condições sociais, mimetizando-se com aparências mais ou menos democráticas e progressistas.
O exercício do poder que, por detrás de uma “verdade”, move um grupo social, pode encontrar a sua justificação numa ideologia política, num grupo económico, num sectarismo religioso, numa aristocracia social, etc. Construir desde aí a sua influência até consolidar um verdadeiro poder, é uma possibilidade mais real e próxima do que julgam aqueles que consideram o fascismo uma coisa do passado.
Se analisarmos determinadas estruturas de poder, no mundo actual, poderemos constatar como os elementos essenciais ao fascismo estão mais presentes do que à primeira vista nos parece.
Para ilustrar este texto, nada melhor do que este vídeo, a que alguns denominaram “O fascismo do século XXI”.
É preciso abrir os olhos e estar alerta!

segunda-feira, março 26, 2007

A cumplicidade do silêncio

"...A passividade dos portugueses perante os ataques sucessivos deste governo às suas liberdades e garantias tem de terminar..."A

s injustiças com que diariamente somos confrontados na nossa sociedade, todos sabemos que são da responsabilidade do governo. Mas, no terreno político, poucas seriam aquelas que avançariam sem o apoio dos que, directa ou indirectamente as consentem. Deste ponto de vista, podemos dizer que as injustiças sociais são mais da responsabilidade dos cidadãos do que possa parecer. Tendo em conta que a democracia é o governo do povo, a sua quota de responsabilidade é um facto, salvo para os que voluntariamente se afastaram do sistema.
Existem muitas formas de nos opormos às injustiças sociais, quer seja reprovando-as pessoalmente nos meios de comunicação, quer exteriorizando colectivamente a nossa repulsa mediante concentrações, manifestações, greves, etc.
No entanto, a opção mais comum perante o abuso de poder ou a injustiça, é o silêncio, pelo menos o "silêncio passivo", aquele que não passa de mero lamento interior, sem a mínima acção de manifesta repulsa. Esse silêncio, em democracia, é com frequência o melhor cúmplice da injustiça.
Quem cala perante uma decisão injusta, converte-se em cúmplice desse acto. E em democracia, o silêncio pode ler-se como um referendo à actuação do poder e em nada beneficia os cidadãos.
A experiência da falta de liberdade de expressão suportada pelos que sofrem um regime político autoritário, ou daqueles que não têm possibilidade nem meios para contestarem as injustiças de que são alvo, contrasta radicalmente com a oportunidade ao exercício do direito à manifestação inerente a uma sociedade livre como a nossa, direito a que unicamente se dá valor, quando o poder o infringe e limita.
Ainda que fosse apenas, por solidariedade com milhões de homens e mulheres que se vêem privados de denunciar a injustiça social, aqueles que nos consideramos protagonistas de um mundo livre, deveríamos sentir a obrigação de exercer com actos e palavras a nossa crítica às políticas anti-sociais, como um símbolo da verdadeira liberdade. Porque, se os povos democráticos silenciam a injustiça, como poderão alguma vez ser referência de liberdade para aqueles que se encontram subjugados?
Há momentos na vida em que calar se torna uma culpa... e gritar alto, uma obrigação. Não teremos calado já o suficiente?


Edição: Na sequência deste post e depois do resultado de ontem do Programa "Grandes Portugueses", penso ser oportuno ler este artigo, porque apesar de tudo, é reconfortante saber que temos jovens corajosos e conscientes neste país.

terça-feira, março 20, 2007

Uma história


A solução inteligente

Há anos atrás, um mercador londrino ficou a dever uma grande soma de dinheiro a uma pessoa que lhe fez um empréstimo. Este, quando quis recuperar o dinheiro, foi a casa do mercador e quando viu a sua bonita filha, fez-lhe uma proposta.
Propôs-lhe casar com a filha, cancelando desse modo a dívida do mercador. Quer o mercador, quer a filha, ficaram apavorados.

Sem alternativa, o mercador pediu que a solução fosse deixada à sorte. Sugeriu então, que se colocasse dentro de uma bolsa vazia, uma pedra branca e uma pedra preta, devendo a rapariga tirar, de dentro da bolsa uma delas, ao acaso.

Assim:

1- Se ela retirasse a pedra preta, casaria com ele e a dívida do seu pai ficava cancelada.

2- Se retirasse a pedra branca, não casaria com ele, mas a dívida seria, do mesmo modo, cancelada.

3- Se ela se recusasse tirar a pedra, o pai iria para a prisão e ela ficaria sozinha.

O mercador concordou com a proposta. Encontravam-se num caminho de cascalho solto junto do jardim, onde havia muitas pedras brancas e pretas.

O credor baixou-se para apanhar duas mas, ao fazê-lo, não apanhou uma pedra branca e outra preta mas sim duas pedras pretas. A rapariga percebeu o que ele fez e pensou que nunca poderia tirar da bolsa a pedra branca porque não tinha sido lá colocada.

O credor, com um sorriso malicioso de vitória, pediu à moça que retirasse a pedra que iria decidir sobre o seu futuro.

Porém, a rapariga encontrou uma solução que lhe permitia não casar com o credor e cancelar a dívida do pai.

Como conseguiu?
Que solução encontrou?

Nota: Deixem a vossa opinião na caixa de comentários. Prometo que mais tarde divulgo a solução.


sábado, março 17, 2007

Considerações

A propósito da nota negativa na avaliação do desempenho

Estas e outras atitudes são mais frequentes do que se possa imaginar e são muitos os trabalhadores que as sofrem diariamente no seu local de trabalho. O Homem não é perfeito e actua pressionado pelo medo. Medo a perder o seu "status", medo a perder o "reconhecimento" alcançado, medo da sua própria debilidade…
Além de todas estas tácticas na corrida pelo poder, deparamo-nos com outro tipo de abusos que não têm outra finalidade senão o aproveitamento, no plano pessoal ou profissional, da condição de subordinação dos outros, aproveitando a maior parte das vezes a falta de transparência que impede que os abusos possam ser denunciados e julgados.
Numa organização hierarquizada, existem diferentes níveis de poder que se manifestam na tomada de decisões e supervisão e controle sobre as pessoas. Pessoas de todas as condições, sexo, raça, idade e status.
O poder muda, está em movimento constante, roda de uns para outros, num jogo constante em que cada um deve encontrar uma parcela, não só no terreno laboral, mas em todo o tipo de relações. Mas, a cultura, as ideias preconcebidas, o inconsciente colectivo da sociedade, são a razão principal para que surjam determinadas manifestações de poder que são injustas do ponto de vista lógico e até mesmo humano, mas que são aceites socialmente de forma fácil e continuam sendo aplicadas sem nenhum escrúpulo.
Por tudo isto, penso que a questão dos dois anos consecutivos com nota negativa, é um pau com muitos bicos!

Em todos os serviços, sejam públicos ou privados, existe competição, luta pela ascensão do poder. Cada um tem as suas ambições, e pode-se dizer que é legítimo o facto de se pretender alcançar um determinado poder para conquistar a sua própria "parcela". Mas, em cada serviço, a luta pelo poder apresenta-se de forma diferente e possui objectivos distintos. Existem centros vitais de poder para os quais está encaminhada a luta pela ambição. No entanto, nesta batalha, neste percurso pela conquista do poder ambicionado, no esforço em manter a pequena ou grande parcela de poder, que se ostenta, alguns homens e mulheres esquecem a dignidade de outros e extrapolam as suas funções, afectando inclusivamente alguns subordinados em aspectos pessoais e privados.
Nesta grande competição, alguns actuam com malícia e premeditação. Utilizam uma posição privilegiada de poder para bloquear ou marginalizar uma pessoa, sem lhe dar ocupação, por exemplo, até conseguirem que a mudem de lugar, por ser considerada um obstáculo. A "técnica do desgaste" por vezes vem mesmo a calhar, quando se pretende "acabar" com um competidor que se considera perigoso, e bombardeiam-no com trabalhos urgentes, sobrecarregando-o até que se revolte. Ao mesmo tempo, e quando deveriam dar boa informação dos seus subordinados, ocultam o seu verdadeiro valor e fazem ainda pior: fornecem confidencialmente, a pessoas "chave" do serviço, declarações contrárias à realidade, dando informação desfavorável e distorcida sobre eles.

quinta-feira, março 08, 2007

Uma lição de psicologia

O Poder da inteligência


A

s relações entre as pessoas são, por vezes, especialmente complexas. Estão carregadas de influências mútuas, umas são construtivas, mas outras podem chegar a ser profundamente devastadoras.
O Poder é a capacidade para influenciar os outros, para o bem e para o mal, admitindo portanto, poder ser uma bênção ou uma agressão. Existem diferentes formas de exercer o poder: Poder coercivo - o instrumento utilizado é o temor e tem como objectivo controlar os outros através da intimidação. Não é uma fórmula para influenciar mas sim para “obrigar”. Poder utilitário - trata-se de um intercâmbio e alguém que possui poder, está na disposição de proporcionar algo que outros necessitam, com a finalidade de obter alguma contrapartida.
Se determinadas pessoas usassem o poder com honestidade e inteligência, dariam um maior contributo à sociedade e justificariam a existência dos seus neurónios Mas existe um outro tipo de Poder. O Poder baseado em princípios, em que a pessoa que o representa é poderosa porque é credível, respeitada e honrada pelos outros. Estes, cumprem os seus desejos porque estão na mesma luta, têm os mesmos interesses e seguem, livremente e com agrado, a pessoa que consideram competente e digna de confiança.


“O Poder pode ser utilizado para a competência e cooperação, em vez de para o domínio e o controle.”
(Anne L. Barstow)


Cada um de nós, pode escolher ser poderoso ou impotente perante qualquer circunstância da vida. Sem importar o quanto nos sintamos frustrados, sem subestimar as dificuldades da vida, teremos sempre a oportunidade de empreender um objectivo, de pensar e acreditar que existe uma opção. No momento em que registarmos esta consideração na nossa mente, estamos sendo poderosos.
O poder baseado em princípios é sólido, baseia-se no respeito pelas pessoas, nas quais desejamos influir, e deve conduzir a uma interdependência. Ambas as partes tomam decisões e escolhem alternativas. Este tipo de poder alimenta uma conduta ética porque os implicados se sentem livres e expressam as suas razões e opiniões em função dos seus conhecimentos, necessidades e expectativas.
É evidente que o exercício do poder requer, para além do respeito pelos outros, capacidade de persuasão. Devemos ser persuasivos e determinantes, mas não ofensivos.
A amabilidade e o respeito pela vulnerabilidade alheia são condição essencial. Simplesmente, tratar os outros como gostaríamos de ser tratados. É importante ser-se coerente. Isto não significa que temos de portar-nos de modo semelhante com todas as pessoas, em qualquer momento ou lugar. Significa antes que devemos orientar-nos sempre pelos mesmos princípios básicos, de cada vez que actuamos.
Todos, definitivamente, desejamos o poder. Não se trata necessariamente de chegar a ser ministro ou presidente, ou responsável de uma multinacional, trata-se sim de influir nas pessoas que nos rodeiam, filhos, amigos, colegas, etc., com o propósito de obter o respeito, a colaboração, o entusiasmo e a conquista dos nossos objectivos.
Se trabalharmos todos estes princípios, de forma serena, honrada e consciencializada, estamos na direcção exacta para o conseguir.
É só uma questão de tempo.

terça-feira, fevereiro 20, 2007

Como formigas...

Que raio de vida sem sentido! Trabalhar... trabalhar... e o resto?

Sento-me ao sol por uns minutos, cansada. Olho à volta e os meus olhos recaem na azáfama de umas formigas que me esburacaram a calçada do jardim e dou comigo a pensar: num formigueiro bem organizado, as formigas rainhas são poucas e as formigas operárias são imensas. As rainhas nascem com asas e podem fazer amor. As operárias, que não podem voar nem tão pouco amar, trabalham para as rainhas. As formigas polícias vigiam umas e outras…
Nesta época em que vivemos, caracterizada pela confusão dos meios e dos fins, não se trabalha para viver. Vive-se para trabalhar. Uns trabalham cada vez mais porque necessitam mais do que consomem, e outros consomem mais do que necessitam. E o que nos diz o sistema?
Pois bem, o sistema ensina-nos que SER é TER. E onde está o logro? Bem, o logro está no facto de que, quem mais tem, mais quer e, ao fim de contas, as pessoas acabam por pertencer às coisas e trabalhando às suas ordens. O modo de vida desta sociedade de consumo, que hoje em dia se impõe como um modelo único à escala universal, converteu o tempo num recurso económico, cada vez mais escasso e mais caro. O tempo, hoje, vende-se, aluga-se, transforma-se… E quem é afinal o dono do tempo? O automóvel, o telemóvel, o DVD, o computador, o televisor e outros tantos indicadores da felicidade, máquinas criadas para “ganhar tempo” ou para “passar o tempo” que, ao fim e ao cabo se apoderam do nosso precioso tempo.
Um automóvel, por exemplo, não só se apropria do espaço urbano, como também se apodera do tempo humano. Em teoria, o automóvel serve para economizar tempo, mas na prática devora-o. Porque afinal boa parte do tempo do nosso trabalho (como as formigas operárias que dedicam o tempo da sua vida à rainha) destina-se ao pagamento do transporte ao trabalho, e transforma-se a cada dia que passa num “comilão” de tempo, em consequência das enormes filas de trânsito (como formigas encarreiradas) nas BABILÓNIAS modernas.
O revoltante é que vivemos para as coisas, em prol das coisas e em função das “formigas rainhas”.
Continuamos relutantes em trocar as coisas pelas asas que nos fariam voar e conformamo-nos em TER, mesmo sabendo de antemão que o supérfluo nos rouba todos os dias a faculdade de poder amar.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Today

Agarrado como uma lapa!
Always and forever
Each moment with you
It's just like a dream to me
That somehow came true

And I hope tomorrow
Will still be the same
Cause we got a life of love
That won't ever change


sexta-feira, fevereiro 09, 2007

SIM, para mudar a lei

SIM

Abílio Fernandes em entrevista


Com que impressão ficaste da Assembleia da República?

Não fazia ideia nenhuma do que era aquilo. Digo isto agora, depois de ter lá estado estes dois anos. A Assembleia da República é de facto um mundo onde se consegue compreender o funcionamento do Estado. E onde se consegue perceber os jogos de bastidores e os compromissos de poder que ali se formam. Isto faz-nos compreender, a quem lá está, por que é que os dois partidos maiores, o PS e o PSD, num momento em que o País atravessa grandes dificuldades, não apresentam propostas válidas. Porque ambos têm fortíssimas culpas de tudo quanto se passou no País desde que começaram os governos constitucionais.

Foi difícil, a adaptação?

Sabes, tive uma grande sorte e felicidade de encontrar um conjunto de camaradas que já lá estão há muitos anos, e que demonstram não só uma grande capacidade de trabalho e de dedicação, mas também uma vitalidade de memória e raciocínio imediato. Para mim isto foi de uma riqueza imensa e ajudou-me bastante.
Por outro lado, encontrei uma equipa de camaradas jovens, que entraram recentemente. E isto para mim é uma grande felicidade. Sinto que estes jovens estão a dar grandes saltos e a progredir a grande velocidade…

Mas entretanto, renuncias…

Sim, passado dois anos renuncio. E renuncio com grande satisfação. Porque eu entendo que o Partido tem que pensar no futuro e pensar no futuro tem que ser com gente nova que possa entrar e assumir responsabilidades e, quando temos essa gente nova, não a podemos desperdiçar. E nós, na Assembleia da República, temos esses jovens! O camarada que me vai substituir, o João Oliveira, tem 27 anos. Eu tenho quase 70… Por isso, saio com muita satisfação

Que momentos destacas desta tua passagem pela Assembleia da República?

Destacar algum pela positiva é difícil, porque nós dificilmente conseguimos fazer aprovar as nossas propostas… Mas um momento importante da minha intervenção parlamentar deu-se aquando da discussão da lei das Finanças Locais, que é, pode dizer-se, a «minha área».
Outro grande momento que eu passei foi no Conselho da Europa, em que foi levantada a questão de considerar que a ideologia comunista está associada a crimes e barbaridades. Foi uma afronta que, como deputado do Partido Comunista Português, me coube denunciar. E disse que quem foi assassinado e espancado em Portugal foram os comunistas. Pela direita e pelo fascismo.
Foi também muito gratificante para mim levar à Assembleia da República as propostas para o distrito de Évora, pelo qual fui eleito, e também de Portalegre.

É sabido – tu próprio acabaste de o dizer – que as nossas propostas dificilmente são aprovadas. Na tua opinião, e neste quadro, qual é o papel do deputado comunista?

Em primeiro lugar, as intervenções dos deputados comunistas são de uma importância extrema. Digo isto em contraponto a todos os que pensam que, como as nossas propostas raramente são aprovadas, quase que estamos ali a perder tempo. É exactamente o contrário…
O Partido, com a sua coerência, tem vindo ao longo dos anos a fazer propostas sempre com o mesmo objectivo: a defesa dos interesses das populações e das camadas trabalhadoras. As intervenções dos comunistas fazem parte da história da Assembleia da República e farão parte de toda a análise que se vier a fazer no futuro sobre a participação dos partidos na vida democrática. E isso tem um peso muito grande.
O mundo vai dar muitas voltas e a política de direita vai continuar a não resolver os problemas das pessoas. E poderá haver perturbações, manifestações e protestos. E aí os cidadãos sérios e honestos vão encontrar nas intervenções dos deputados do PCP a tal coerência e a tal garantia e solidez para governar o País.

Momentos de uma entrevista a Abílio Fernandes, que pode ser lida na íntegra aqui.