domingo, agosto 27, 2006

A Esquina

Em […], numa data social em que a vida por si só se tornou difícil e azeda, um homem de meia-idade inventou uma profissão para si mesmo. No sorriso da sua descoberta, pintou de verde-escuro um banco pequenino, passou a manhã esperando que o sol ausente o secasse com a temperatura possível. Engomou o fato castanho e escolheu aleatoriamente uma das muitas esquinas da cidade. Num cartão pequeno escreveu à máquina: "tiram-se dúvidas".
Resistiu pacientemente aos primeiros vinte e três dias em que ninguém caiu na tentação de lhe fazer uma pergunta que fosse. É sabido que s pessoas paravam para ler o cartão, e que sorriam ou acenavam, cumprimentando-o. Está escrito que ele ripostava com a agradabilidade do seu sorriso curto, cordial, calmo. No vigésimo quarto dia uma criança sentou-se no chão ao pé dele. Ao fim de algum tempo, sorriu. O homem também sorriu. A criança, miopemente, soletrou com a boca e os olhos: ti-ram-se dú-vi-das… Fechou o seu sorrisinho e olhou-o intrigada. Quando se preparava para murmurar algo, ou quando o homem se preparava para murmurar algo de volta, um senhor prostrou-se em frente ao banquinho, à mesinha, ao homem, à criança, aos seus sorrisos parecidos.
Não havia preços. O certo é que a criança todos os dias se sentava ali, o homem todos os dias lá ia, as pessoas apreciam com mais frequência.
A esquina ficou conhecida como a esquina da dúvida, onde ainda hoje todos os cafés têm pinturas ou esculturas do homem, o banco, a mesa, o cartaz e a criança ao lado__no chão.
Se chovia retiravam-se para um parapeito. Se fazia vento aconchegavam as pernas um ao outro. De longe, o que se via era o sorriso calmo, cordial, curto, do homem intercalado com palavras poucas, mansas. As pessoas sorrindo se afastavam.
Numa tarde fria, bela, chegaram a acumular-se três pessoas para tirarem dúvidas. Quando o homem disso se apercebeu, enternecido, olhou a criança. A criança, surpreendida com aquele olhar extenso, olhou o cartaz. Soletrou mais alto do que da primeira vez, para que todos na fila o ouvissem: ti-ram-se dú-vi-das…
O tirador de dúvidas afagou o menino. Disse-lhe um segredo: dúvida é quando não sabemos bem alguma coisa. O menino enxugou o ranho transparente do seu lábio, sorriu, procurou a orelha peluda do homem: dúvida é amanhã?
Mãos dadas, dúvida virou nome de esquina.



Ondjaki in E Se Amanhã o Medo

*Post recuperado

quinta-feira, agosto 24, 2006

Etiquetas

Rotular pessoas segundo padrões comportamentais e biológicos é uma tarefa um pouco ingrata porque corremos o risco de cometer injustiças. Porque existe quem facilmente rotule os outros, crescem os estereotipos, crescem os preconceitos, cresce uma preguiçosa maneira de pensar, e as pessoas já não se preocupam em conhecer. Olha-se e faz-se o perfil, sem pensar que, cada ser humano tem a sua própria individualidade, mesmo quando se esforça por se enquadrar num grupo social. Mas como aquilo que o Hammer me pede aqui é que me etiquete a mim mesma aqui, se bem que o "auto-rótulo" nunca é algo imparcial.
A sinceridade é um dos meus lemas de vida. Por vezes confunde-se com impetuosidade e nem sempre é bem recebida. Entendo no entanto que é melhor ser brutalmente sincera do que covardemente fingida.
A confiança cega que deposito no ser humano acarreta-me por vezes dissabores e desilusões, e a experiência não me deu ainda aprendizagem suficiente para não voltar a cometer os mesmos erros.
Por acreditar que é possível um mundo melhor, estou sempre disponível para enveredar as lutas necessárias que creio poderem contribuir para esse fim. Não desisto facilmente dos objectivos que me proponho.
Não tenho clube de futebol ou religião, não tenho música, livros ou filmes favoritos. Não fumo, não bebo e como penso que as pessoas não mudam, apenas evoluem,o meu único vício é tentar evoluir e alcançar a paz comigo mesma.

Não querendo ser acusada de quebrar esta corrente blogosférica, já que luto diariamente por quebrar todas as outras, passo o desafio ao VermelhoFaial, ao Leandro, ao António Caeiro e ao MGomes, com um pedido de desculpas antecipado pela ousadia da minha decisão.

quarta-feira, agosto 23, 2006

Soma e segue...

Mais um acto de prepotência deste governo! Ao mesmo tempo que o Ministro da Saúde exige contenção aos médicos na prescrição de medicamentos, são decididos os aumentos das tabelas de taxas da ADSE, de forma leviana e à margem daqueles que têm uma palavra a dizer sobre o assunto. A uns mandam apertar o cinto, a outros enforcam-nos de imediato. Haja pachorra!

segunda-feira, agosto 21, 2006

Vale tudo...

A fabricação do MEDO

A fabricação do medo, para criar estados de espírito colectivos que justifiquem medidas repressivas, parece ter-se tornado um sistema. Agora é o Reino Unido do sr. Blair que anuncia nebulosas "ameaças terroristas" contra aviões, tentando gerar pânico. O que estarão eles a preparar? Nos EUA, o 11 de Setembro de 2001 serviu para fazer aprovar a toque de caixa a "Patriot Law" que estava redigida há muito e implicou uma profunda alteração no regime estadunidense. Direitos, liberdades e garantias desfrutadas pelos cidadãos americanos foram pura e simplesmente eliminadas. Não embarcar nas histerias colectivas promovidas na primeira página do Público e nos medias ditos "de referência" é um dever de lucidez. Não se deve esquecer que o governo do sr. Blair não merece credibilidade; que a sua polícia assassinou a sangue frio um emigrante brasileiro no ano passado; que eles pretendem deliberadamente criar um clima anti-árabe no momento em que cometem barbaridades atrozes contra os povos libanês e palestino; que a Al Qaeda é uma criação da CIA americana e é activada quando muito bem lhes apetece.

Link

terça-feira, agosto 15, 2006

De regresso...


Realmente, o tempo passa muito rápido quando estamos de férias! E considero que, de igual forma, sentimos isso mesmo à medida que nos tornamos cada vez mais, digamos, maduros. Esta é uma constatação que somente agora consigo vivenciar e apreciar na íntegra, mas que, ouvido da boca da minha mãe há anos atrás, era entendida apenas como um queixume de gente mais velha. Hoje entendo bem melhor o significado dessa expressão. Hoje, o tempo realmente passa muito rápido. Antigamente, nos meus tempos de sonhos de criança, o tempo passava devagar. Depois, na minha adolescência, o tempo passava no tempo certo. A vida era simples, os sonhos complexos. Eu achava que sabia tudo e tinha a certeza que tudo ia dar certo.
Hoje sei que vencer é difícil, mas não impossível. Sei também que para vencer é necessário tempo, muito estudo e persistência. Sei que os momentos felizes são raros e por isso devem ser bem aproveitados. Sei também que não vale a pena gastarmos o nosso precioso tempo pensando no que poderíamos mudar para melhorar. Se está ruim é porque ainda não chegou ao fim. É apenas uma fase de transição. Vai passar.
Nunca soube avaliar correctamente o que Einstein quis dizer com E=mc2, mas depreendo que a energia (especialmente a nossa) tem algo a ver com o tempo, cuja velocidade é, também, indirecta e geometricamente proporcional à exiguidade de prazos que temos para concluir os projectos que nos propomos.
Na sábia voz do povo: "O tempo voa e não sobra tempo pra nada!"A este propósito, e depois desta espécie de desabafo, ocorreu-me, depois de ler este post do a.castro, que não entendo como é possível que o tempo estaque em relação a determinadas coisas. Continuam-se a cometer os mesmos erros ano após ano, e nós vamos ficando à mercê da incompetência e incúria daqueles que detém o poder e a responsabilidade para alterar as coisas e fazê-las de forma correcta. Aparentemente "inocente", trata-se de mais uma "desancada" nos senhores que nos (des)governam, e com toda a razão!

sábado, agosto 05, 2006

Curto descanso...


El Descanso - by Balbino Jimenez.

Por motivos particulares, este blog não publicará durante os próximos 8 dias. Sugiro, entretanto, que apreciem este post publicado no Malaposta. Aparentemente o post parece "uma brancadeira", mas na realidade é um texto crítico e bem conseguido que vale a pena ler. Um post que, duma forma irónica e original, aponta o dedo a alguns dos maiores flagelos que os "senhores do mundo" nos impõem. Leiam e meditem!

sexta-feira, agosto 04, 2006

Nas pontas do dedos


O amor que sinto
é um labirinto.

Nele me perdi
com o coração
cheio de ter fome
do mundo e de ti
(sabes o teu nome),
sombra necessária
de um Sol que não vejo
onde cabe o pária,
a Revolução
e a Reforma Agrária
sonho do Alentejo.
Só assim me pinto
neste Amor que sinto.
Amor que me fere,
chame-se mulher,
onda de veludo,
pátria mal-amada,
chame-se "amar nada"
chame-se "amar tudo".

E porque não minto
sou um labirinto
José Gomes Ferreira

quinta-feira, agosto 03, 2006

portugal corrupto?



Portugal é um dos Estados-membros da UE mais afectados pela epidemia da corrupção. A corrupção, um crime que não deixa rasto e é de difícil prova, corrói a democracia. A verdade é que faltam estudos e estatísticas que ponham a nu os tentáculos deste braço invisível que, segundo consta, se estende a todo o aparelho de Estado. Os números mais recentes são da Direcção Central de Investigação da Corrupção e Criminalidade Económica e Financeira, da Polícia Judiciária (PJ). Um relatório inédito que aclarou um pouco a escuridão em que se encobre o negócio dos favores e subornos, em Portugal.
Entre 2002 e 2005, a PJ iniciou 6976 investigações por crimes económico-financeiros, dos quais 1251 relacionados com casos de corrupção. Sem surpresas verificou-se que na maioria dos dossiês constam autarquias. Forças de segurança, entidades relacionadas com o sector rodoviário e administração central também concentram preocupantes focos de corrupção. Uma das medidas recomendadas pelo Conselho da Europa de combate a este fenómeno - que ainda não é tida em conta - é a obrigatoriedade de um período de luto entre o exercício de cargos públicos e a passagem a cargos no privado, com interesses incompatíveis - como, por exemplo, o antigo funcionário do Estado que vai exercer consultoria em empresas que ele próprio tenha beneficiado.

link

Meu comentário:
Penso que a ignorância é a “fonte de abastecimento” para os corruptos e os tiranos. Um povo ignorante não pode de forma alguma disfrutar de um nível de vida digno, uma vez que não possui a capacidade necessária para escolher o governo que o represente adequada e dignamente. Acredito que um segmento muito significativo da nossa sociedade sofre de um nível de ignorância extremamente alto e, o mais vergonhoso, é que nada se faz para educar essa franja social.
Existe todo o interesse em manter o povo num verdadeiro estado de incultura. Parece-me que existe uma espécie de “compra e venda de vontades”, intrínseca na lógica de una economia de mercado. Enquanto a posse da riqueza em forma de dinheiro actuar como um excedente de poder, honra, status e privilégio, a possibilidade de corrupção é inerente a uma ordem social, cujo grau de êxito está directamente relacionado com a quantidade de milhões de euros, dólares ou libras esterlinas que se consigam alcançar. A riqueza é a medida de todas as coisas. A pobreza, por outro lado, é carência de virtudes. Crescer e acumular. A visão de um mundo onde se nasce para ter dinheiro, altera a natureza da condição humana. A degradação das convicções e dos valores éticos projecta-se na vida quotidiana até que chega a converter-se em “prática corrente”. O sonho de alguns (se calhar não poucos) é que, um dia qualquer, alguém com dinheiro lhes ofereça uma boa quantia por realizar alguma loucura: "ofereço-te X para escavacares o teu carro", "outro tanto para te deixares violar" e "um pouco mais para venderes um rim". Tudo isto dentro de uma base de relações contratuais e acordos com lógica de mercado.
E, bem… é verdade que não é necessário esperar o consentimento do capitalismo, para que este tipo de corrupção de carácter se manifeste.




*Post recuperado.

sexta-feira, julho 28, 2006

Apenas" um jogo de vídeo?



World in Flames

Mercenários 2 – O Mundo em Chamas" é um jogo de video que vai sair para o ano, certamente entre dezenas de milhares de outros que alimentam - ou criam, vá-se lá saber - a necessidade de jogar no computador ou na consola. O que o torna especial é tratar-se de um simulador da invasão da Venezuela por forças mercenárias dos EUA em 2007, para derrotar um «tirano sedento de poder» que se apropria das reservas de petróleo e «transforma o país numa zona de guerra». Inclui cenários reais das ruas e edifícios de Caracas, da companhia petrolífera nacional e imagens de satélite verdadeiras. O Governo venezuelano denunciou o lançamento do jogo como um elemento da «campanha de terror psicológico» dos EUA contra o país. A produtora diz que «é só um jogo de vídeo».A polémica tem sido grande em todo o mundo. Tão grande, que a produtora do jogo se viu obrigada a publicar no seu sítio na internet um esclarecimento: «nunca foi contactada por qualquer agência do Governo dos Estados Unidos acerca do desenvolvimento do jogo.» Mas é preciso que as histórias dos jogos sejam plausíveis, acrescenta. Lá está: para esta gente, é plausível que a Venezuela seja atacada militarmente pelos EUA. Tal como o título deixa claro, este jogo uma sequela. Na primeira edição, os mercenários tinham como missão matar um general do exército da Coreia do Norte (sic), portador do código que daria início a uma guerra nuclear. O objectivo n.º 1 era, claro, garantir a segurança do mundo. A produtora tem tradição neste tipo de jogos. Recebeu 5 milhões de dólares para fazer um jogo de treino para os soldados do Exército dos EUA, em que estes se confrontam com cenários de combate urbano. Uma das missões do jogo chama-se «Dia das Eleições» e os soldados devem garantir a segurança de um acto eleitoral num país onde as pessoas lhes chamam «porcos capitalistas». Porque será?O jogo é produzido por uma das empresas de George Lucas – a Pandemic Bioware Studios, financiada em 300 milhões de dólares por uma outra, a Elevation Partners, que tem como sócio Bono Vox, o caridoso vocalista dos U2. Bono é conhecido nos últimos anos pelas suas encenações de contra-poder, participando em concertos pela abolição da dívida aos países africanos e reunindo depois com os senhores do G8. E assim cai mais uma máscara de falso pacifista e humanizador do capitalismo.Quem disse que não havia ofensiva ideológica?
Nota: A Venezuela não é a única a sofrer com uma guerra em games. No Kuma War, o Irã é invadido pelo exército. Enquanto George W. Bush pensa em invadir o país, o jogo permite brincar com diversas sabotagens nas centrais nucleares iranianas.


terça-feira, julho 25, 2006

A talhe de foice

Tão perto e tão longe...

Israel está a bombardear o Líbano desde o passado dia 12, no que diz ser uma resposta ao sequestro de dois soldados seus pelo Hezbollah. A operação, segundo o chefe de Estado Maior adjunto do exército israelita, general Moshé Kaplinski, deverá prolongar-se pelo menos por mais uma semana.( duas semanas já lá vão e possivelmente muitas mais se seguirão) No encerramento desta edição, (a 20 de Julho) o número de mortos ascendia já a duas centenas e meia, enquanto a destruição de edifícios e infra-estruturas (pontes, estradas, aeroporto, centrais de electricidade e abastecimento de água, entre outras) prosseguia a um ritmo devastador.Longe do cenário de guerra – onde não chega o cheiro a sangue, nem os gritos de dor, nem os estilhaços das bombas, nem o som das derrocadas, nem o aguilhoar do medo sem medida –, lá longe, dizia, a União Europeia condena os ataques do Hezbollah e o rapto dos dois soldados israelitas, exigindo a sua libertação imediata, e pede «contenção» a Israel, cujo direito à autodefesa não contesta.Igualmente longe do cenário de guerra – onde as imagens das crianças mortas, se é que chegam, causam tanta emoção como as das chacinadas alegremente por heróis de jogos de vídeo; onde a dor sem remédio de perder um filho é medida por bitolas que distinguem aliados de adversários; onde os direitos de uns não fazem sequer sentido fora do âmbito dos interesses de outros –, lá longe, dizia, o Conselho de Segurança da ONU não conseguiu sequer produzir um comunicado sobre a situação no Líbano, já que os EUA rejeitam a exigência de um cessar-fogo até que Israel dê por concluída a «operação» que está a levar a cabo.Mais longe ainda do cenário de guerra – e todavia tão próximo dos que usam e abusam do poder de exterminar povos, invadir países e semear a destruição –, lá longe, dizia, na cimeira do G8, Bush e Blair mostraram involuntariamente ao mundo como de facto encaram a carnificina que está a ser cometida no Líbano, ao falarem sem dar conta que os microfones (e as câmaras) da reunião estavam ainda ligados. «O que é preciso é envolver a Síria, de forma a que o Hezbollah pare de fazer merda e pronto», disse Bush, mais preocupado em regressar a casa do que com os mortos no Líbano ou em qualquer outro lugar do planeta.Amanhã, como ontem, a Casa Branca e as centrais de desinformação farão saber que o «eixo do mal» – para o caso Síria e Irão – são os verdadeiros responsáveis pelas vítimas das bombas israelitas e que não há vida que valha os interesses do império.Enquanto isso, Israel vai continuar a sacrificar os seus próprios filhos, distinguindo-os apenas com a duvidosa honra de considerar que o seu sangue derramado vale infinitamente mais do que o sangue dos filhos alheios, pelo que por cada um que tombar há que matar centenas de outros. Esta contabilidade macabra não resgatará nenhum da morte, não aliviará a dor do luto, não encherá o vazio da perda, mas contribuirá sem dúvida, como até aqui, para estimular o ódio e alimentar a intolerância mútua. Longe, muito longe das bombas e das vidas ceifadas, os senhores da guerra e seus acólitos congratulam-se. As armas vendem-se como tremoço, o petróleo sobe, os lucros aumentam, o negócio vai bem e recomenda-se.

Anabela Fino in Avante

sábado, julho 08, 2006

Férias

Este blog
vai de férias e,
durante 15 dias
não haverá desabafos!

sexta-feira, julho 07, 2006

Democracia

Sobre o conceito de democracia...


Nos próprios países capitalistas desenvolvidos há várias manifestações que mostram como a democracia não é um dado adquirido e consolidado...

trabalho, por exemplo, mas dizer que a sociedade capitalista reconheceu abstractamente e juridicamente, direitos e liberdades, também eles concebidos de uma forma abstracta, isto é, abstraída do modo de funcionamento concreto da sociedade. Esta distinção é importante, se for vista como um “catálogo” de direitos e liberdades, como princípio teórico de fundamentação na crítica que faço à sociedade capitalista e ao modo como a democracia é exercida nas sociedades capitalistas. Qual é o modo de compatibilização entre o direito ao trabalho e o direito a explorar? O direito a um estatuto social e poder social, a um determinado poder político e um determinado poder cultural, com base na exploração do trabalho de outros?
Há ainda outras perguntas que têm a ver com o princípio da igualdade, do direito de voto e da universalidade do direito de voto, nos seus estritos termos formais. Não posso calar esta pergunta: o voto do Belmiro de Azevedo ou do Champalimaud é igual ao voto de um desempregado têxtil do Vale do Ave? Esta Pergunta é demagógica ou capciosa? Ou realmente aponta para qualquer coisa que se passa e que tem a ver com a vida real? Tenho de facto que argumentar que não é igual. Não é concretamente igual, nem na formação da vontade e da escolha, portanto no que precede o voto, nem depois do voto.
E isto tem a ver com o problema de tornar reais e efectivamente exercidos, direitos e liberdades que eu própria defendo. Tenho pois, e em meu entender, de concluir que a questão de tornar esse exercício efectivo e real, pressupõe desde sempre, a realização de condições materiais.
E onde está efectivamente a democracia quando, num acto eleitoral existe uma elevada taxa de abstenção? Como é possível afirmar que os governos eleitos são realmente o reflexo da vontade democrática dos povos, quando é o povo que se abstém de fazer a sua escolha? Acresce ainda o facto de que, quando a democracia é apenas para 20 ou 30 por cento, o poder não pode ser considerado de forma alguma um poder democrático...

Sendo o sistema capitalista hoje, um sistema mundial, isto é, que existe em todos os continentes e que é dominante à escala mundial, é completamente inaceitável a associação entre capitalismo e democracia quando conhecemos o que se passa no Terceiro Mundo, no chamado Quarto Mundo, etc… ou seja, o modo como o capitalismo concilia, apoia, aguenta, sustenta, promove e provoca situações não democráticas, um pouco por todo o lado no mundo.
Nos próprios países capitalistas desenvolvidos o que é que se tem vindo a passar com o estado da democracia? Há vários sintomas e várias manifestações que mostram como a democracia não é um dado adquirido e consolidado e sofre crescentes restrições. É evidente que nesses países a conexão entre as várias esferas da democracia está profundamente quebrada, distorcida ou não existe mesmo.
Fenómenos como a abstenção nas votações em países como EUA, Alemanha ou Inglaterra, são significativos do alheamento de grandes partes da população na escolha dos seus dirigentes políticos. Por outro lado, o modo como os meios de comunicação social, designadamente a TV, funcionam no mundo capitalista contemporâneo são uma ameaça efectiva ao exercício real das escolhas políticas. E isto é reconhecido por muitos intelectuais não marxistas…
Marx, e designadamente Lenine em “O Estado e a Revolução”, salientam uma distinção entre o reconhecimento formal das liberdades e a democracia real ou material. Mas não se trata de fazer essa distinção (direitos e liberdades formais e direitos ou liberdades reais ou materiais) enquanto coisas distintas. Mas sim um outro tipo de distinção: a crítica ao modo como o reconhecimento formal da democracia, dos direitos e das liberdades não correspondia (e não corresponde todavia) ao exercício real desses direitos e dessas liberdades nas sociedades capitalistas. O problema não está, portanto, em distinguir direitos que são formais, como a liberdade de expressão ou de voto, e direitos que são materiais ou reais, como o direito ao

quinta-feira, julho 06, 2006

Proteger a Floresta

Uma Ideia Luminosa
Que PodeAjudar
A Proteger a Floresta

Com as facturas da electricidade e do telefone, recebes PUBLICIDADE. Não a deites fora!
GUARDA-A, junta-a e reenvia-a aos respectivos serviços. Deixa que sejam eles a deitá-la no lixo!
Recebes correio para empréstimos, cartões de crédito… ou “ negócios “, muitas vezes acompanhados de ENVELOPES DE RESPOSTA PAGA…. Em vez de os deitares no lixo, mete essas inutilidades nos tais envelopezinhos e põe-nos no correio!
Envia: a publicidade do mecânico automóvel… ao teu operador telefónico; os cupões de desconto de pizzas ao… teu banco; as promoções do supermercado a… quem tu quiseres! E sem remetente. Verifica sempre se algum dos teus dados pessoais não figura num destes documentos devolvidos. Podes também… enviar o envelope de resposta paga, VAZIO ! ! !
Que tal?! Se todos fizermos isto… Os bancos, as instituições de crédito e outros, receberão de volta todas as porcarias que nos enviaram. Eles que as apreciem! Pagarão eles próprios as franquias, e 2 vezes: o envio e a devolução!
Uma maneira simples de ter menos resíduos… de preservar o planeta e as nossas florestas! Não custa tentar e até pode ser divertido!


Recebido por mail.

segunda-feira, julho 03, 2006

Petição Um Milhão de Rostos

Existem 639 milhões de armas no mundo - uma arma para cada dez pessoas. Todos os anos morrem em média 500.000 pessoas vítimas de violência armada - uma pessoa por minuto! Assinei esta petição e sei agora que a mesma já foi entregue. Esperemos que não caia em "saco roto"! A confirmação da entrega, na minha caixa de correio

Secretário Geral das Nações Unidas recebe a maior petição visual alguma vez realizada, pedindo um maior controlo no comércio de armas A Petição Um Milhão de Rostos, que contem mais de um milhão de fotografias de pessoas de 160 países foi entregue, no dia 26 de Junho, a Kofi Annan por Julius Arile, um sobrevivente de violência armada do Quénia. Os activistas da campanha "Controlar as Armas" ergueram uma AK-47, construida com próteses, homenageando as vítimas de violência armada que vêm a sua vida afectada para sempre. Foi ainda construido um painel com as fotografias recolhidas em todo o mundo. Julius Arile disse a propósito desta campanha: "Fui a milionésima pessoa a aderir á Petição. Fi-lo porque o meu país, o Quénia, tem sofrido demasiado por causa das armas de pequeno porte. Gostaria que esta conferência chegasse a um acordo sobre os princípios globais para a venda de armas. Temos o dever de dar este passo, por causa das pessoas em todo o mundo que, como eu, sofreram por causa das armas". Ao receber a Petição Kofi Annan afirmou: "Transmitirei este apelo por um tratado sobre o comércio de armas ao Presidente da Conferência de Revisão para que informe todos os Estados Membros. Estará nas suas mãos decidirem o futuro desta iniciativa. Espero que esta petição simbolize a forma como os governos e cidadãos podem trabalhar juntos para alcançar o objectivo fundamental desta conferência – ou seja – salvar vidas." Veja as imagens da entrega e acompanhe o desenvolvimento desta Conferência em www.controlarms.org/events/unreview.htm Mais uma vez, Obrigada por ter participado! Luisa MarquesCoordenadora de Campanhas e EstruturasAmnistia Internacional PortugalTelf: 21 386 16 52Fax: 21 386 17 82e-mail: l.marques@amnistia-internacional.pt----------------------------------------Apoie a implementação de um Tratado Internacional que regule o Comércio de Armas. Seja um num Milhão: www.controlarms.org


domingo, julho 02, 2006

Lei das Finanças Locais

O burro, de novo...
om a pompa do costume, o ministro António Costa anunciou no início desta semana o projecto governamental da nova Lei das Finanças Locais (LFL). No dia seguinte, três jornais ditos de referência titulavam a coisa, sempre ao alto da primeira página:
Autarquias vão poder aliviar contribuintes de 3% do IRS, proclamava o Diário de Notícias (DN);
Municípios vão ter autonomia para baixar IRS até 3 por cento, gritava oPúblico;
Câmaras ganham poder para baixar IRS, troava o Diário Económico (DE), fazendo mesmo questão de repartir o espaço com uma foto do ministro a mexer em papéis com toda a competência.
O País que se fica por uma mirada às primeiras páginas dos escaparates terá concluído que o Governo havia decidido conceder às autarquias a «autonomia» (segundo o Público) ou o «poder» (na exuberância do DN e do DE) para «baixar o IRS», novidade ainda mais extraordinária se o País se lembrar do constante incumprimento governamental da LFL, reduzindo sempre e ainda mais os já parcos recursos financeiros descentralizados para o Poder Local.
Provavelmente, o País nem terá reparado na curiosa coincidência de os três jornais «de referência», com tiragens e coberturas nacionais, todos militando no famoso «pluralismo informativo», haverem titulado a notícia tão da mesma maneira, que praticamente o que as distingue é a distância semântica que separa os vocábulos «autonomia» e «poder».
Seja como for, todos os títulos conduziram os leitores à conclusão de que a revisão da LFL anunciada pelo ministro Costa assenta essencialmente no objectivo de dar poder às autarquias para reduzir o IRS .
Quem se dê ao trabalho de ler o interior, verificará que o próprio ministro garante isso mesmo, dizendo textualmente que a «ideia» da nova LFL «não é o Estado reduzir as transferências, mas sim introduzir maior justiça na distribuição». Sabem como? O mesmo António Costa explica no DN: «Com a anterior Lei os municípios recebiam 30,5% do total cobrado de IRS, IRC e IVA. No novo enquadramento recebem cumulativamente 25% destes três impostos» e «a isto acresce a participação, só sobre o IRS, de 5%» - sendo aqui que reside o famoso «poder» das autarquias em «diminuir o IRS» pois, segundo esta proposta, passarão a ficar com «5% sobre a colecta líquida do IRS» mas onde apenas 2% «serão fixos», dando-se às câmaras a «possibilidade» de «oferecerem aos munícipes» os 3% restantes, embora o Governo não diga onde vão depois os municípios recuperar essa verba «doada»....
Em resumo: o que o ministro Costa veio, realmente, anunciar é que a nova LFL vai cortar as transferências financeiras para as autarquias, passando-as dos actuais 30,5% do total cobrado nos impostos do IRS, IRC e IVA para uns futuros 25%, «compensando» essa perda brutal de 5,5% das receitas de três impostos com uns meros 2% de um único (o IRS), acompanhados pela quase obrigação de as câmaras prescindirem de mais 3% do mesmo IRS «a favor» dos munícipes (e eleitores, pois claro...).
De tudo isto, o que os jornais «de referência» destacaram foi o «novo poder das câmaras para baixar o IRS». Não há dúvida que a multidão de assessores de imprensa, pagos a peso de ouro como foi há dias noticiado e que enxameia o Governo de Sócrates, sempre serve para alguma coisa...
Quanto ao engenho do ministro António Costa em transformar um corte orçamental numa «justiça de distribuição», palavras para quê? Trata-se do mesmo criativo que há uns bons anos, para provar o óbvio nos engarrafamentos da Calçada de Carriche, pôs um burro a competir com um Ferrari.
Glosando um texto da época, parece que o «burro do Costa» atacou de novo...

Henrique Custódio in "Avante"

terça-feira, junho 27, 2006

Goodbye dear Michelle

My Teacher is gone...

Michelle of Mandarin Design passed away this weekend. For those of you who do not know Michelle, she was a generous and gracious person. And like others around the internet, I already feel the loss. I knew Meg only since a few months, but I’m blessed to new such a kind helpful person. Meg was always so kind and generous in sharing her tips on blogging and she made us to feel especial some times, when she eulogies ours trips, because she was a sweet teacher too. Rest in peace, dear Meg.

Our Friend Who's Gone Away We really didn't have her long - Our friend whose gone away. And if things could be different I confess I'd have her stay With us and bless us with her friendship and her smile, She grew so very dear to us in such a little while.
Now we all are lonesome - Each heart has an empty space- That wants to feel her hand again and see her smiling face - And hear her speak so gently, and just be with us each day. We miss her and we're grieving for - Our Friend whose gone away.



More about Meg here anda here.
Funeral notice

segunda-feira, junho 26, 2006

A Revolta das galinhas

..............Nos aviários está o nicho
de reprodução do vírus que aterroriza a Humanidade...

A galinha talvez seja a primeira ave a ter sido domesticada há cerca de 12 mil anos quando o ser humano começou a ficar sedentário. Desde então as galinhas têm um destino sinistro: raramente morrem de morte natural. São mortas para o consumo humano. Da sua perspectiva, a vida é simplesmente uma tragédia! Normalmente, são criadas ao ar livre, deambulando ao redor das casas. As chamadas “galinhas do campo” são preferidas por serem muito mais saudáveis. Mau grado seu, a sociedade da produção industrial transformou-as em máquinas para produzir carne e ovos. Fechadas, aos milhares, em aviários nos quais em cada metro quadrado são criadas de dez a doze, enganadas pela iluminação que lhes tira a percepção da noite, alimentadas por promotores de crescimento e de antibióticos para crescerem até um ponto comercialmente ideal, durante pelo menos quarenta dias, são submetidas a enorme padecimento. Quem visita um desses “currais aviários”, facilmente se indigna e se compadece com o seu “karma”. A espécie humana especializou-se em submeter impiedosamente todas as outras espécies, para tirar proveito delas mesmo que isso implique grande sofrimento. Agora, depois de séculos de violência, as galinhas estão-nos a dar o troco. É a vingança das galinhas... E vem sob a forma de gripe: a gripe aviária, que além de atingir outros seres vivos, atinge também os humanos. É o famoso vírus H5N1. Vírus aviários sempre existiram em formas não letais. Agora este H5N1 revela-se uma cepa patogénica. E se havia dúvidas quanto ao facto de poder sofrer mutações que o tornassem capaz de se transmitir aos seres humanos, parece que as galinhas alcançaram o seu propósito, porque se pode multiplicar loucamente entre a espécie humana e matar entre 150 milhões a um bilião de pessoas, consoante previsões científicas. Não existe um antídoto que o elimine, apenas possui efeito limitante. É o famoso Tamiflu que, segundo dados conhecidos de todos nós, não age profilaticamente, apenas 18 horas após a infecção. O que eu desconhecia, é que já hoje é sabido, que a origem da gripe não provém de galinhas criadas ao ar livre, mas das práticas avícolas industriais e pela utilização de "subprodutos" da criação avícola como ração industrial. E mais: a Fundação BirdLife demonstrou que o padrão de focos da gripe segue as rotas das estradas e das vias férreas e não as rotas dos voos de aves migratórias. A gripe é pois a consequência do manejo cruel que nós, seres humanos temos feito com as galinhas confinadas. Ai está o nicho de reprodução do vírus. É uma doença sistémica.
Traz-nos à nossa consciência um alerta, que tem de passar inevitavelmente por uma outra forma de relação com os seres vivos que não implique crueldade mas racionalidade e compaixão. Já imaginaram se todos os outros animais copiassem a atitude das galinhas e se revoltassem numa acção conjunta contra a Humanidade?

quinta-feira, junho 22, 2006

Justiça Cega

Vivemos rodeados de injustiças. Os mais fortes empurram e atropelam os mais fracos e privam-nos dos seus direitos. O pobre na terra é como o peixe miúdo no mar: acaba comido pelo de maior porte. É como diz um velho ditado árabe: "Uns pescam e os outros comem o peixe". Quanta injustiça emana desta trivial frase! Quando será que encontraremos a fórmula eficaz que permita àqueles que pescam, comer o seu próprio peixe?
A injustiça está em todo o lado. Existe injustiça no mais pequeno lar, nos campos, nas cidades, nas escolas, nos serviços, na igreja e até nos próprios tribunais. Por todas a parte predomina a lei do mais forte, como na selva. A justiça praticada no sistema é como a teia de aranha, em que só as moscas pequenas ficam prisioneiras. É terrível a sina de um povo cujo sistema judicial é imoral e corrompido, julgando com parcialidade. Por todo o lado encontramos, em lugar de justiça, astúcia e vivacidade, e em vez dos juízos imparciais, é posta em evidência uma vontade arbitrária. É lamentável! A Justiça tirou a “venda” imparcial que lhe tapava os olhos e colocou-a na sua própria ferida.
A injustiça nasceu por geração espontânea; a justiça essa, teve que ser criada. A injustiça, camuflada nos vários apelidos sociais, racismo, discriminação, abusos, exploração, é já uma característica da nossa cultura e da nossa sociedade. A justiça anda tão devagar que envelhece pelo caminho e quando chega, ninguém a conhece porque chega convertida em injustiça. A justiça não é outra coisa senão a conveniência do mais forte. Os nossos governantes deleitam-se estabelecendo umas e outras leis, no entanto, o prazer é maior quando as quebram, como as crianças que, brincando junto ao mar, constroem com grande entusiasmo castelos de areia, para logo de seguida os destruírem entre risadas.
Esta falta de justiça levou alguns a inventarem uma duplicidade de normas a seu belo prazer, mais ou menos qualquer coisa como privatizar os ganhos e socializar os prejuízos… como um estratagema: “Eu ganho e tu perdes. O meu dinheiro é meu e o teu é dos dois”. Nesta “lei”, ao rico que rouba chamam homem de negócios; ao pobre… ladrão. Quando um estranho quebra as regras da decência, é mal educado, quando sou “eu” quem viola essas normas, é porque sou muito original. Se o honesto é fiel aos princípios e à moral, é antiquado. Em contrapartida os “meus” vícios provam que sou bem moderna. Quando aquele outro defende com unhas e dentes o seu ponto de vista, é teimoso e obstinado. Quando sou “eu” que o faço, é porque sou de convicções fortes. Quando um outro se perfuma com exagero, empesta. Mas quando sou “eu” é diferente: emano uma essência oriental que tem algo de fragrância subtil e misteriosa. Tal qual como no cartaz pendurado na porta do armazém de sucata da minha terra: “Compram-se velharias e vendem-se antiguidades”. Pois é... e é assim que se vão safando!

segunda-feira, junho 12, 2006

Álvaro Cunhal

Memórias de uma vida...

A sua resistência ao regime de Salazar e de Caetano, sob o qual foi preso, torturado e perseguido, tornou-se mítica pela ousadia, pela constância e pela coragem. A 20 de Julho de 1937, com 23 anos, Álvaro Cunhal é preso pela primeira vez pela polícia política de Salazar. É então acusado de distribuir propaganda na rua. Encarcerado no Aljube, será transferido passados dois meses para Peniche.

O ruído e cadenciado abrir (umas atrás das outras) das fechaduras e ferrolhos das celas. O bater de tairocas dos faxinas circulando com os baldes dos despejos. O baque metálico dos baldes ao serem atirados para o chão de cimento. O fedor espalhando-se nas alas logo misturado e coberto pelo da creolina. Novos apitos, formatura, conto. A distribuição do café e do casqueiro. O deslocar em cortejo para as oficinas. De novo ferrolhos e fechaduras, agora com o novo bater das portas e o isolar dos reclusos nas celas. Depois o amortecer dos ruídos e o alastrar do vazio da imensidão das alas, cortado apenas pelo bater descontrolado das tairocas e tamancos dos faxinas e o barulho de marteladas, de serras e de máquinas vindo das oficinas. Ao meio dia o espalhar do cheiro enjoativo a mofo das couves da sopa e do peixe frito em óleo rançoso impregnado a humidade viscosa do ar, do solo, das paredes, de tudo. A meio do dia para o almoço nova reanimação e repetição de ruídos e movimentos. E de novo o recolher e de novo o relativo silêncio. E de novo o barulhento abrir das celas, nova formatura, desfile para o passeio. Nova formatura, novo recolher, até à tarde a nova repetição de movimentos, deslocações e ruídos, e dos cheiros para o jantar… E os ruídos que pouco a pouco se apagam. E o silêncio da noite que avança… Precisamente nesse dia lá fora na rua passou pelo passeio fronteiro uma mulher levando o filho pela mão. Era a primeira vez que ali passavam. O moço olhou curioso o majestoso edifício, os torreões de pedra branca, o elegante recorte das ameias. _ Mãe, o que é? _ Não sei, filho - respondeu a mulher – Deve ser o palácio de algum ricaço. _ Mãe, porque é que as janelas têm grades? _ Não sei, filho – responde a mulher – Talvez porque lá dentro há muita riqueza e têm medo que os ladrões assaltem o palácio para roubar. _Ah! – admirou-se o moço. Ia ainda perguntar alguma coisa mais, mas um eléctrico de passagem provocou tal ruído que o moço se conteve e já não fez a pergunta. Foi talvez melhor assim. Porque talvez a mãe não soubesse responder-lhe.

Invernia - Nesse dia, como em muitos outros dias, como por vezes semanas a fio, não houve passeio. A chuva fustigava as imensas fachadas desbotadas das seis alas dispostas em estrela. Debaixo de chuva envolto numa nuvem cinzenta, o imenso edifício parecia uma coisa morta. Parecia. Pois lá dentro arrastavam-se centenas de vidas. Lá dentro repetiam-se as obrigatórias operações do ritual de todos os dias. Apitos, barulho, ruídos, movimentos, cheiros, formas, contos. Uma diferença. Tirando os cerca de cem que trabalhavam nas oficinas e nos afazeres internos da cadeia, os outros quatrocentos ficavam todo o tempo fechados nas celas. Fechados. Sós.
As reacções eram naturalmente diversas. Alguns tinham como passatempos autorizados fazer nó a nó cintos ou bolsas de cordel. Outros passavam os dias em interminável passeio de um lado para o outro tal como bichos enjaulados. Outros recordavam os feitos que os trouxeram para ali. Outros faziam projectos para o futuro nem que esse futuro ficasse para lá de dez, quinze ou vinte anos de prisão que lhes faltava cumprir. Outros deixavam-se embalar pelas imaginações eróticas. Outros ditavam-se e dormiam ou faziam por dormir. Outros como que hibernavam, incapazes de pensar fosse o que fosse. E outros ainda, perdida a noção do tempo que parecia interminável, estavam atentos a todos os ruídos, sempre à espera do momento em que, para receberem o rancho ou para o conto, lhes abrissem a porta quebrando o isolamento e a solidão. Então espreitavam cá para fora, para a imensidão da ala tão solene como uma nave de catedral e sentiam assim um ilusório bafo de espaço, amplitude, atmosfera e liberdade.

Um dia mais, um dia menos - Nesse dia, como todos os dias, semana após semana, mês após mês, ano após ano, a vida decorreu no ritual de sempre. O silêncio da noite cortado pelos apitos da alvorada e o súbito expandir do barulho da movimentação da cadeia

quarta-feira, junho 07, 2006

Um conto


Um belo dia de Julho

Mimosa com curiosidade.
Nano e Negri não sabiam que responder. Dizer a verdade podia significar um desgosto, mas ao mesmo tempo, ela tinha que saber que não era igual, que a menina com quem brincava desde que nasceu, Alicia, de seu nome, carinhosa com todos, inclusivé com os animais, e que tinha protegido a Mimosa desde pequena, dando-lhe de comer e brincando com ela entre as oliveiras e azinheiras da quinta. Sempre viu na sua protegida algo especial que não via nos outros, era como se, no fundo, fosse igual a ela.
Nano decidiu contar a verdade à filha. “Olha Mimosa, nós somos a subsistência dos amos da quinta, eles cuidam de nós, alimentam-nos e deixam-nos viver felizes, mas em troca devemos oferecer-lhes alimentos, e aí reside o nosso problema: é que nós somos o seu alimento”.
”Como é que somos o seu alimento? Que queres dizer?” Preguntou Mimosa, mal-humorada.
”Todos temos o nosso destino nesta vida, e é impossível alterá-lo”, disse Negri.
”Eu posso alterá-lo,” respondeu a filha, já li contos nos quais aparecia um príncipe e com um beijo solucionava tudo!”
Passou o Inverno, com as suas neves brancas, e voltaram a brotar as flores…
Julho regressou, e com ele voltaram a nascer novos cordeirinhos, e talvez Mimosa tenha alterado o seu destino…

Num belo dia de Julho, em que as flores brotam com os seus delicados perfumes, nascia Mimosa, preciosa e graciosa como sua mãe, e forte e robusta como seu pai.
Era um ser encantador e simpático, gostava de brincar com todos os animais e saltitar no pasto debaixo das azinheiras, apanhando pauzinhos e bolotas.
Um dia, os seus pais falaram com ela sobre questões da vida, dando-lhe a entender que tinha tido sorte em ter nascido fêmea. “Sorte de nascer fêmea?” perguntou curiosa Mimosa, “Porquê?”
Vocês, respondeu o pai, têm a sorte de trazer ao mundo novos rebentos, e criá-los durante toda a sua infância até ocorrer um novo nascimento em que voltarão a criar outros recém nascidos, por isso vos espera uma vida tranquila e proveitosa.
”Toda a vida fazendo o mesmo?”, pensou Mimosa, não podes ser, eu quero ver mundo, visitar outras regiões, conhecer outros países e gentes de outras culturas e depois, ter uma família e trabalhar em algo que me satisfaça.
A sua mãe, Negrin não acreditava no que estava a ouvir... “mas Mimosa, meu
amor, isso não pode ser, nós não podemos viajar, nem estudar e não nos deixam trabalhar para não lastimar o nosso corpo que, afinal de contas é o que lhes importa!”
”Mas, a quem lhe importa?” perguntou.

domingo, junho 04, 2006

Opinião

O sucesso e o insucesso...

Está-se tornando um "slogan" ou mais do que isso, uma ideologia - a ideologia do sucesso!
Este sucessotem a ver, principalmente, com a competição, com a vitória sobre os outros, com a aproximação aos que mandam - ao poder -, aos que têm.
Não é a competência nem a isenção, nem o rigor que contam. Muito menos a solidariedade. De modo que só uns poucos podem ter sucesso e muitos não podem ter nenhum.
A pobreza atinge em Portugal uma grande parte do nosso povo. Estima-se que, mais de um milhão e quinhentas mil famílias se situam nessa área. Os mais recentes dados do Eurostat confirmam que, no conjunto dos 25 países da União Europeia, o nosso país ocupa o 22º lugar quanto à taxa de pobreza, tendo como referência o ano de 2003. Isto corresponde a mais de metade da população portuguesa. Estes são os pobres. Depois destes ainda há milhões de pessoas que podem ser remediadas. De modo que os do sucesso são em número muito reduzido.
Numa obra publicada há alguns anos pela UNICEF, intitulada "Pobreza Infantil em Portugal" a Drº Manuela Silva dizia, naturalmente que "as relações entre as condições económicas e o bem estar da criança não merecem a suficiente atenção dos economistas e dos políticos". Na realidade, a pobreza e os factores de empobrecimento têm íntima e directamente a ver com as políticas económica e social adoptadas pelos governos. Tudo isto é certo. E isto significa que o sucesso de alguns não é só o resultado da política levada a cabo pelo governo, ele assenta na pobreza da grande massa dos portugueses, na sua exploração, na sua marginalização, no seu completo insucesso.

quinta-feira, junho 01, 2006

Opinião


...o governo e o PS prosseguem para a Administração Pública a sua política prepotente, arrogante e anti- democrárica, denegando a responsabilidade do Estado...

O governo, o PS e os partidos de direita, prosseguem para a Administraçao Pública a sua política prepotente, arrogante e antidemocrática, denegando a responsabilidade do Estado. Se é certo podermos afirmar que uma política referente à Administração Pública conterá em si o reflexo da concepção que se tiver da política global e das suas directrizes, não menos certo será o podermos deduzir daquilo que se pretende impor à Administração Pública, quais são os objectivos finais de uma política global. Isto tem cabimento para as forças políticas, individualmente consideradas, e tê-lo-á, por maioria de razão, para um governo, pois é ele quem as aplica ou pretende aplicar.
Assim, o insistente e continuado ataque que o governo PS/Sócrates tem vindo a desenvolver contra os trabalhadores da Administração Pública, (A.P.) alvos directos de tão repudiável e repudiada ofensiva, visa mais além, visa “reestruturar” a A.P. na via antidemocrática, centralizadora e privatizadora que caracteriza a sua política geral, contrária aos interesses e direitos dos cidadãos, desrespeitadora e subversedora das normas e imposições constitucionais. Pretende o governo legitimar a sua política neste domínio, tentando fazer crer que o peso obsoleto da A.P. se deve ao número exagerado, excedentário de trabalhadores no sector. Mas o governo esconde aos portugueses que esses trabalhadores apenas representam, ”num conjunto de 19 países, o terceiro nível mais baixo de emprego público no total do emprego, com 17,9%, apenas acima da Espanha (17,2%) e do Luxemburgo, com uma percentagem de 16%. A Suécia bate o recorde com 33% e mesmo a Irlanda apresenta valores acima dos 20%. Já o peso das despesas com pessoal em percentagem do PIB é de 14,7%, a maior da zona Euro, onde a média anda pelos 10,3%." O governo escamoteia que o alegado peso da A.P. resulta, de modo determinante, da não satisfação, por parte do Estado, das necessidades mínimas a que este está obrigado perante os cidadão; desta realidade os portugueses vêm sentindo as consequências, dia a dia mais graves, no plano da Saúde, do Ensino, da Segurança Social. Remetendo-se, cada vez mais amplamente, à privatização de serviços ou sectores da A.P., o governo pretende isentar o Estado das suas responsabilidades sociais, e para isso procura a aceitação pública através da degradação dos serviços e do fomento de uma sua imagem negativa. Impondo aos trabalhadores da A.P. aumentos salariais irrisórios, a criação de condições favoráveis à política privatizadora. Procura, afanosamente já sem rebuço, implantar uma A.P. que lhe sirva de alavanca para o prosseguimento da sua política de restauro do capitalismo monopolista.
Em contrapartida, as posições dos partidos de esquerda, nomeadamente do PCP, são ignoradas deliberadamente, porque defendem uma A.P. que assegure o cumprimento legal das atribuições do Estado, no plano social, educacional e cultural, com total respeito pelos direitos dos trabalhadores. Entende que “a A.P. deverá ser orientada para o desenvolvimento, descentralizadora, desconcentrada, moderna, eficiente, aberta, próxima das populações e servindo os seus interesses, actuando com honestidade, isenção, justiça e imparcialidade, respeitando e fazendo respeitar a legalidade democrática… deverá garantir o respeito pelos direitos, motivação e estímulo à participação dos trabalhadores da função pública, utilizando critérios de mérito e competência no acesso a cargos da Administração, nas promoções e nomeações para cargos de chefia e a todos os níveis, rejeitando o compadrio e a partidarização.” Por isso, a luta contra a política de perseguição do governo aos trabalhadores da A.P. tem de prosseguir e engrossar a movimentação social, com todos os sectores da Administração, desde o médico, o professor, o arquitecto ou engenheiro, até ao administrativo, pedreiro ou auxiliar de limpeza. Aos trabalhadores da A.P. deve ser devolvida a dignidade que este governo antidemocrático lhes retirou!


Magnolia

segunda-feira, maio 29, 2006

Exploração infantil em Portugal


Os miúdos do fio de nylon...

Os miúdos ajudam-nos quando vêm da escola É o dever deles
não é?

N

ão podemos tolerar que crianças, para garantir a sobrevivência, sejam obrigadas a trocar a infância e o seu pleno desenvolvimento pelo trabalho.
Infelizmente, entre as leis e a realidade, continuam a existir crianças e adolescentes que não estudam porque são submetidos ao trabalho em condições indignas, privados dos direitos elementares de cidadania. Mais uma vez Portugal é um mau exemplo, como poderão verificar na notícia que "linko" de seguida:


Agachados em cima de um caixote cambaleante, os dois irmãos magricelas vão unindo, com uma agulha e muita paciência, as palmilhas dos sapatos de camurça. Aprenderam mais depressa a coser do que a decorar a tabuada. Eles trabalham há várias horas, com a família, num alpendre escuro, de granito frio e madeira carcomida e onde se misturam os cheiros fétidos do estrume e do bafio.

As grossas dedeiras nem sempre os protegem do cortante fio de nylon, que lhes vai abrindo gretas e deixando cicatrizes na palma das mãos. Não é preciso ser vidente para lhes ler um futuro enegrecido... Pormenor: a cena não se passa num bairro da lata em Calcutá, ou numa província da China, mas a norte de Portugal, numa freguesia rural em Felgueiras!
E mais uma vez acredito que esta notícia passará pelos pingos da chuva, e que, embora denunciada publicamente, ninguém irá "mexer uma palha" para alterar a situação. Ou então, como em muitos outros casos do passado, apenas ouviremos lamentos, quando já for tarde demais.

sábado, maio 27, 2006

.

O Vírus

A competição ainda não começou, mas as bandeiras já despontam nas janelas, dezoito mil mulheres foram ao estádio do Jamor fazer a «mais bela» e a maior bandeira humana – com entrada directa para o Guiness, segundo consta –, e a Selecção nacional conta desde domingo com a benção de um bispo Nobel da Paz, no caso o timorense D. Ximenes Belo, que se deslocou expressamente a Évora para manifestar o seu apoio aos jogadores.Seria injusto não reconhecer o esforço (e os meios) que para a concretização de tão nobres desígnios despenderam diversas entidades, públicas e privadas.«A mais bela bandeira do Mundo», como teve a bondade de lembrar o secretário de Estado do Desporto, Laurentino Dias, presente no Jamor, foi uma iniciativa da Federação Portuguesa de Futebol, do BES (o grupo de Ricardo Salgado) e do Instituto Português da Juventude. Este último organismo disponibilizou os autocarros que levaram ao Jamor as mulheres vindas um pouco de todo o País, com o beneplácito de Laurentino Dias, que ao contrário de outros membros do Governo não considera bacoco o nacionalismo, pelo menos no caso do futebol, pelo que aproveitou a oportunidade para saudar, ao melhor estilo do Movimento Nacional Feminino, «o bom espírito português para se juntar, solidarizar e emocionar» no apoio à Selecção...... O governo de Sócrates, tal como os seus congéneres por esse mundo fora, não só estimula como cavalga a onda do vírus «desportivo», fazendo de conta que é sinónimo de confiança, sinal de retoma, demonstração de sucesso. Com os espíritos entretidos com o futebol (e com as touradas e os fados e os casinos e as galas e os festivais… que infestam o dia a dia televisivos a lembrar cada vez mais as programações do fascismo), é de esperar que não sobre muito tempo para o «resto». O encerramento de empresas e o desemprego ficarão ao recato de manchetes, tal como as 100 000 crianças em risco existentes em Portugal, o assalto à Segurança Social, o aumento da idade de reforma, a liquidação do Serviço Nacional de Saúde, do direito à educação, à habitação condigna, etc., etc., etc.. Cá como no resto do mundo, a hora é de futebol e de exploração de gente mais ou menos bem intencionada. Enquanto isso, como há tempos revelou a Unicef, no Brasil – paradigmático exemplo do binómio samba/fado e futebol – uma criança morre a cada cinco minutos, na maioria dos casos de fome. O que representa cerca de 290 por dia. O correspondente a dois ‘Boeings 737’ de crianças mortas por dia. Sem direito a estádios, nem cobertura televisiva, nem bispos, nem registo no Guiness



Ana Fino in Avante


Para completar a essência do ridículo a que o nosso país chegou, mostrando a vertente de um Portugal muito, mas mesmo muito profundo, nada melhor do que ler esta crónica que acaba por dar a conhecer o lado do avesso da "mais bela bandeira do mundo"!

sexta-feira, maio 19, 2006

Por detrás do pano

N
o passado dia 12 Maio, em Viena, Áustria, o Secretário Geral das Nações Unidas (ONU), Kofí Annan, criticou a decisão tomada pelo Presidente boliviano, Evo Morales, de nacionalizar os hidrocarbonetos. Justificou a sua opinião dizendo que, esta decisão deve pensar-se e deve ter em conta o carácter globalizante do mundo, uma vez que esta medida pode colocar em registo as relações comerciais internacionais. Estas palavras, provenientes da pessoa que ocupa o mais alto cargo da ONU, pode parecer à primeira leitura, uma incoerência, mas se atendermos aos aspectos que descortino a seguir, ficaremos completamente esclarecidos do porquê desta tomada de posição.
O artigo 97.º da Carta da ONU estabelece que “o Secretario Geral será nomeado pela Assembleia Geral, por recomendação do Conselho de Segurança”, candidato que deve contar com a aprovação dos seus membros permanentes que exerçam o direito de voto. É bem verdade que nenhuma proposta alguma vez tenha sido formalmente vetada, mas também é bem verdade que, sempre todos os candidatos tiveram de passar pelo “filtro” da aceitação dos Estados Unidos e dos outros membros permanentes. Por exemplo, a reeleição de Butros Ghali, foi bloqueada pelos Estados Unidos, que impuseram Kofi Annan, inclusivamente indo contra o costume de nomear rotativamente um Secretário Geral originário de diferentes regiões.Kofi Annan sabe que deve o cargo aos Estados Unidos e empenha-se em mostrar o seu reconhecimento, com reiterados gestos de submissão e obediência, para o que até tem um certo jeitinho particular, entre outras coisas, como consequente defensor do poder económico transnacional. Em 25 de Julho de 2000, na sede da ONU, em Nova Iorque, Kofi Annan presidiu à inauguração do Pacto Mundial (Global Compact) onde participaram 44 grandes sociedades transnacionais e mais alguns “representantes da sociedade civil”. O Global Compact tornou-se uma instituição permanente que funciona junto à Secretaria da ONU, criando uma perigosa confusão entre uma instituição política pública internacional como a ONU, que segundo a Carta representa a “os povos das Nações Unidas...” e um grupo de entidades representativas dos interesses privados de uma elite económica internacional. São várias as sociedades participantes no Clobal Compact, algumas delas com densos “currículos” em matéria de violação dos direitos humanos, dos trabalhadores, do meio ambiente e de corrupção de funcionários públicos. Esta “sociedade” foi anunciada por Kofi Annan num documento apresentado à Assembleia Geral, intitulado: “A capacidade empresarial e a privatização como meios de promover o crescimento económico e o desenvolvimento sustentável”. Este documento proposta, continha um objectivo claro: todas as grandes empresas rentáveis devem estar monopolizadas pelo grande capital transnacional, ou seja, pretende legitimar a política praticada à escala mundial de desfazer as empresas públicas rentáveis (por vezes mediante procedimentos francamente corruptos) e, certamente, contrária a qualquer nacionalização.Kofi Annan empenha-se bem em potenciar esta cruzada neoliberal promovendo em diversos países a formação de sucursais da Global Compact, formadas por empresários e representantes governamentais. Fiel a esta linha, ao serviço das grandes potências e do poder económico transnacional, agora Kofi Annan declara-se contrário à nacionalização do petróleo na Bolívia.É caso para dizer: afinal de que lado está a ONU?
Precisamos escamotear e levantar a cortina, porque por detrás do pano, podem estar os mais recôndidos segredos que comandam as grandes "tomadas de posição"!

segunda-feira, maio 15, 2006

El Nerón del Siglo XXI

E

xistem biografías de George W. Bush escritas pelos responsáveis de informação e comunicadores propagandistas da Casa Branca. Existem as escritas por jornalistas «amigos» do presidente e existe: «El Nerón del Siglo XXI» de James Hatfield, publicada em Espanha (e em França “Bush, L’Imposteur”) a biografia não autorizada, a melhor biografia do inquilino da Casa Branca, a investigação que explora com todo o detalhe a sua vida, o despejo do presidente dos Estados Unidos, os seus negócios, as suas mudanças da casaca, o financiamento das suas campanhas eleitorais, a sua afeição à cocaína, ao álcool...A edição castelhana do livro «El Nerón del Siglo XXI» foi apresentada ao público espanhol no día 3 de Novembro de 2004 em Madrid. Por mera curiosidade, efectuei uma breve pesquisa no google e verifico que em Portugal não se fala em tal livro, que não existe a sua versão em português e que do que foi editado em Espanha ou França, nenhum comentário surge…James Hatfield, escritor norteamericano, foi o primeiro a investigar a fundo e minuciosamente a vida de George W. Bush filho -e da sua família-, quando este era ainda governador no estado de Texas. A relação dos seus avós com o nazismo, a ambiçao e a luta dos seus pais pelo petróleo, as relações de conveniência com os Binladen, como evitou a Guerra do Vietnam na juventude e muito mais. Tudo isto faz com que hoje em dia seja o livro mais completo e o trabalho de investigação mais interessante sobre o presidente americano…A primeira editora que pretendeu publicar o livro, ameaçada pelo poderoso lobby da máquina Bush, assusta-se e queima os 80.000 livros que tinha prontos a sair. Uma o outra editora, mais pequena, ofereceu os seus serviços a Hatfield, que começou, junto com a sua família, a ser ameaçado de morte. James Hatfield será encontrado morto num quarto do motel «Days Inn» en Springdale (Arkansas), em 18 de Julho 2001. Segundo a polícia, tratou-se de um suicídio, mas um amigo do escitor, o jornalista David Cogswell que conhecia todas as ameaças de que James Hatfield foi alvo, revela em duas notas no final do livro, a explicação do estranho mistério da sua morte.Esta obra foi ganhando pouco a pouco a fama e o reconhecimento da crítica, até que foi seleccionada pelo New York Times como best-seller, instalou-se entre as melhores vendas de livros nos EUA, levantando uma intensa polémica. Em Portugal, parece que Bush ainda está a “ganhar”!José Saramago, escreveu o prólogo da biografia não autorizada de Bush, na sua versão espanhola, considerada a melhor obra biográfica de George W. Bush.«Bush, o la edad de la mentira»El intelectual frente al político."Me pregunto cómo y porqué Estados Unidos, un país en todo tan grande, ha tenido, tantas veces, tan pequeños presidentes... George W. es quizá el más pequeño de todos. Inteligencia mediocre, ignorancia abisal, expresión verbal confusa y permanentemente atraída por la irresistible tentación del disparate, este hombre se presenta ante la humanidad con la pose grotesca de un cowboy que hubiera heredado el mundo y lo confundiera con una manada de ganado..."


domingo, maio 14, 2006

Os versos que te fiz


Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludo caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não te digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz.

quarta-feira, maio 10, 2006

Bombas nucleares


Clique na imagem para assistir à simulação das consequências de um ataque ao Irão com bombas nucleares anti-bunker.

segunda-feira, maio 08, 2006

Populismos

Andei dias a ler o que se escreveu sobre o discurso proferido por Cavaco Silva na sessão solene do 25 de Abril na Assembleia da República... Escreveu-se por aí, se bem percebi, que terá sido dos mais luminosos discursos de um inquilino de Belém perante o Parlamento. E eu, que gosto de associar ideias, pensei logo que a grandeza do momento talvez estivesse ao nível da Aparição da Virgem aos pastorinhos... É verdade que o homem já havia cantado a Grândola em campanha eleitoral, coisa de desconfiar. Mas – caramba! - se aparecia assim ao País, sem que nada o anunciasse nestes preparos de homem com ditos de esquerda, mais se justificaria falar de milagre do que naquele dia de 1917 em que se diz que o sol bailou na Cova da Iria... Eu poderia escrever aquilo. Você, caro leitor, também. Mas dito por um chefe de Estado tem outro peso, claro. E se esse chefe de Estado for Cavaco, ainda mais. Ouvi-lo falar de desertificação, pobreza, exclusão, cravos, revolução, não é todos os dias. Melhor do que isso: é como entregar um argumento de Manuel de Oliveira a Oliver Stone... Depois lembrei-me que, em 30 anos, Cavaco foi Primeiro-Ministro durante dez. Ininterruptamente. E que o País esquecido, abandonado e atropelado pelo «p´ogresso» também é do tempo dele. Recordo-me também que foi no tempo dele que as auto-estradas e as obras faraónicas deixaram um certo Portugal para trás. E que ganhou fôlego a caridadezinha e o assistencialismo, coisas que, como se sabe, dão cama, pão e roupa lavada a muita gente, mas não a torna senhora do seu próprio destino... Daí que, se não me levarem a mal e dadas as circunstâncias, também me apeteça parafrasear Ruy Belo e fazer da poesia, prosa. É que também eu gostaria de falar do país do professor Aníbal, mas isso era o passado e podia ser duro, edificar sobre ele o Portugal futuro.

Miguel Carvalho in Visão.

quarta-feira, maio 03, 2006

Quando o Povo exige...

por cento da população. A exploração de hidrocarbonetos representa 15 por cento do Produto Interno Bruto (PIB) daquele país andino.
O primeiro índio eleito para a liderança da Bolívia, concretizou assim uma exigência de nacionalização, expressa muitas vezes pela população indígena.
A atitude do presidente da Bolívia, Evo Morales, acabando com o monopólio exercido sobre o gás e o petróleo daquele país, serve de exemplo e mostra que o mundo está vivendo um novo momento, de total rompimento com a política neoliberal, que marcou o comportamento de vários governos na América Latina nos últimos anos..
Ao Povo o que é do Povo!

A Bolívia é uma festa só. O anúncio da nacionalização do petróleo boliviano no dia 1.º de Maio, foi bem recebido pela população e o presidente Evo Morales prepara novos decretos de nacionalizações de empresas estrangeiras que operam em território boliviano.
Evo avisara, desde a sua posse, há 100 dias, que iria nacionalizar os recursos naturais da Bolívia, que vinham "sendo saqueados pelas empresas estrangeiras", como afirmou. A medida faz parte da estratégia de Evo Morales para devolver ao Estado o controlo dos recursos naturais da Bolívia. O Presidente já anunciou que em breve deve também avançar a nacionalização dos sectores mineiro, florestal e agrícola.
A Bolívia tem a segunda maior reserva de gás natural da América do Sul. Produz 40 mil barris de petróleo por dia e é actualmente a nação mais pobre do sub continente com a miséria a afectar 70

segunda-feira, maio 01, 2006

Dia do Trabalhador


Memórias de
Um tempo não muito distante...

Recordações que deixam
mágoa, saudade e alegria, ao mesmo tempo...
"Ti" Adriano, o que nos contava os discursos e as conversas macias que no tempo de Salazar, o ditador, entremeavam com porrada, exploração e guerra, até fartar, para cima dos trabalhadores. A única abundância.

Quantas onças de tabaco dizias que fumavas, por dia, nessas occasiões, escondido em cima das azinheiras e dos sobreiros, com a guarda a cavalo à tua procura a mando do "lavrador" e da PIDE? Eu já não me lembro!

Belos serões aqueles! Tu a contares essas histórias na tua casa pobre, de chão de terra batida e telhado de telha-vã. O que te valia era o lume de chão e aquele bagaço que tinhas para os camaradas - que eu detestava e tu te rias - enquanto a conversa corria, encantadora, a dar conforto, a despertar vontades e sonhos. Noite fora.

Um poema é feito de muita coisa. Os homens e as mulheres têm o direito de sonhar. O dever de sonhar. E não faz mal ter presente Goethe: "A teoria, meu amigo, é parda, mas verde é a eterna árvore da vida". E. Hemingway: "Um homem pode ser destruído mas não derrotado". Catarina Eufémia. António Maria Casquinha. José Geraldo.

As formigas de asa chegam com a terra molhada. Lavrada. Penetrada pelo arado. Fecundada. O pássaros comem a bicheza que fica nas leivas levantadas pela charrua. O cheiro primitivo e quentte da terra remexida. As sementeiras. Pão. O pão que produzias e faltava na tua casa.

As ceifas. Doze horas curvado. De sol a sol. Calores tórridos. A jornada de miséria. A fome. O insuportável suportado. Latifúndio. Coutadas. Ganhões. Restos de um tempo. Feudalismo. A praça de jorna. O dia de greve. Os que partem. As tuas lágrimas. No campo, o poço. Água fresca. Cantares de um povo que sofre. Rejeição do esquecimento. Resistência. Até à Revolução de Abril. Depois, o 1º de Maio. A tua festa! Évora. Milhares de trabalhadores!

sexta-feira, abril 28, 2006

Reflexão


Uma em cada quatro pessoas, no Planeta, vive em situação de extrema pobreza. Uma em cada três pessoas vive com menos de um dólar por dia. Conflitos armados. Desordem mundial. Fase imperial do capitalismo globalizado.
A liberdade é condição de existência do indivíduo e da espécie. A espécie e a sociedade são compostas de indivíduos. O indivíduo só existe enquanto espécie e em sociedade. É assim, desde o princípio dos tempos humanos.
Todas as algemas, todos os muros, todas as formas de discriminação e de exploração são alheias à condição humana. O liberalismo económico, a delapidação dos recursos dos países e dos povos pelas multinacionais e elites dominantes, as guerras, são radicalismos anti-sociais, que impossibilitam a liberdade e o desenvolvimento das civilizações.


Dans un monde idéal, l'Humanité n'existerait pas!

terça-feira, abril 25, 2006

As Portas que Abril Abriu...


Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais feliz
dos povos à beira-terra

Onde entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo se debruçava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza

Era uma vez um país
onde o pão era contado
onde quem tinha a raíz
tinha o fruto arrecadado
onde quem tinha o dinheiro
tinha o operário algemado
onde suava o ceifeiro
que dormia com o gado
onde tossia o mineiro
em Aljustrel ajustado
onde morria primeiro
quem nascia desgraçado
.............
Ora passou-se porém
que dentro de um povo escravo
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo
.............
Ouvi banqueiros fascistas
agiotas do lazer
latifundiários machistas
balofos verbos de encher
e outras coisa em istas
que não cabe dizer aqui
que aos capitães progressistas
o povo deu o poder!
E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe!
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu!

terça-feira, abril 18, 2006

Provérbio Chinês

"Quando o problema tem solução não vale a pena preocupares-te... se o problema não tem solução, preocupares-te não servirá de nada."

Um sinal de fraqueza

No capitalismo «tudo se compra, tudo se vende». E para tudo se busca uma cobertura ideológica, política e jurídica. Por isso se trabalha afanosamente para que a actual subversão do direito internacional se transforme em lei. Foi o que fez, passados escassos dois dias da divulgação das torturas do pós guerra, o Ministro da Defesa da Grã-Bretanha, exigindo a revisão das Convenções de Genebra, que considerou desajustadas, devendo as leis «adaptarem-se para melhor servir os tempos». E é o que já está em curso com a «reforma» da ONU, nomeadamente com significativas alterações na Comissão dos Direitos Humanos para que aqueles que os violam possam continuar a fazê-lo e, simultaneamente, puderem ser implacáveis com forças políticas e países que seguem percursos independentes e resistem à «Nova Ordem» imperialista

sábado, abril 15, 2006

Caça numa selva sem leis

L
onge vão os tempos em que as empresas eram os únicos clientes dos bancos comerciais e os de investimentos não "prestavam" os seus serviços se não às grandes sociedades. Depois, a corrida desenfreada aos lucros levou-os cada vez mais a "oferecer" os seus serviços a vastos sectores das camadas médias, a largos sectores de assalariados, etc...
Já nos primeiros anos do século XX, Lénine, nos seus estudos sobre o imperialismo, analisava este fenómeno e escrevia: Os bancos recolhem, ainda que temporariamente, os rendimentos em dinheiro de todo o género, tanto dos pequenos patrões como dos empregados... Os bancos... reunem toda a espécie de rendimentos em dinheiro colocando-o à disposição da classe capitalista. (1)
Nas últimas dezenas de anos, contudo, esta actividade proliferou. No nosso país, por exemplo, e muito particularmente nestes últimos anos de política de reprivatizações dos recentes governos de direita, os bancos (nacionais e estrangeiros) multiplicaram as suas agências por todo o lado, em cada rua, em cada esquina, por vezes lado a lado, frente a frente. É uma autêntica corrida para recolher o máximo de depósitos de empresários, quadros técnicos, empregados, trabalhadores, estudantes, reformados e pensionistas, donas de casa. Esta actividade de "retalhista" é das mais lucrativas. Os lucros realizados pelos bancos neste campo, permitem-lhes aumentar os seus recursos e acelerar o processo de concentração do capital nas suas mãos. Longe vão os tempos em que a própria selva do capital tinha as suas leis. Longe vão os tempos em que cada banco tinha a sua "coutada" reservada e onde os seus concorrentes não ousavam sequer caçar às escondidas.
Mas não vá o leitor pensar que digo isto com saudosismo. Não! Trata-se apenas de uma simples constatação, porque hoje, vale tudo, como se pode ver apenas por alguns anúncios, dos muitos que diariamente nos entram casa dentro através da televisão, vezes sem conta, ou enchem as páginas dos jornais e das revistas, usando em alguns casos "artistas" mais ou menos conhecidos da nossa praça: "Deixe de adiar o seu sonho"; "Eu estou aqui!"; "Ou tem pais ricos ou foi ao..." ; "Podemos dar-lhe o primeiro carro, o modelo da sua marca de carro, aquela mota espectacular, a câmara de vídeo, aquela escultura, o tal quadro..."; "Habilite-se aos sorteios mensais. Há dinheiro a ganhar e não há tempo a perder"; "Abra já uma conta desportista, habilite o seu filho. Além de ganhar, ele pode escolher os artigos desportivos que quiser", etc...
Excedem-se em zelos surpreendentes! Preocupam-se com tudo e com todos. Com os negócios, a habitação, as viagens de lazer, as reformas, os tempos livres, o carro, a moto, o vídeo, as esculturas, os quadros, as bolas de ping-pong e as raquetas de ténis. Preocupam-se com os velhos, os menos velhos, os novos, os jovens, as criancinhas.
E o portuguesinho vai aderindo, vai contrbuindo para o aumento do "bolo", vai-se endividando, vai perdendo o controle e é ele que entra na banca rôta...
Será que ninguém vê que são tantas as benesses que prometem que é caso para lembrar o velho ditado popular: "quando a esmola é grande até o pobre desconfia"?
(1) - Obras Escolhidas de Lénne, Edições Avante, I vol., pg. 597.

quinta-feira, abril 13, 2006

Premiado pela dor...

O

blog anónimo de uma jovem iraquiana foi indicado para concorrer a um prémio literário conferido pela BBC, e ganhou o Best Middle East and Africa Blog, no passado mês de Março, aliás, com todo o mérito.
Baghdad Burning, é um relato em primeira mão, escrito sob o pseudónimo Riverbend, e está também entre 19 finalistas ao prémio Samuel Johnson para não ficção, a anunciar no próximo dia 14 de Junho. Antes da invasão do Iraque, "Riverbend" trabalhava como programadora de computadores. Mas perdeu o emprego, porque a caminhada para o trabalho e a volta para casa ficaram muito perigosas para as mulheres desacompanhadas. O jornal britânico The Times publicou o seguinte trecho do blog da escritora, iniciado em Agosto de 2003: "Sou mulher, iraquiana, e tenho 24 anos. Eu sobrevivi à guerra. Isso é tudo o que você precisa saber. E é tudo o que importa hoje em dia."
Riverbend fala do sofrimento do povo iraquiano em "três anos de ocupação e derramamento de sangue" e pede aos Estados Unidos que se retirem do Iraque.
Um prémio merecido e um desabafo a não perder.