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segunda-feira, outubro 09, 2006

Tributo

A rica história de revoluções e lutas populares ao longo do planeta no século XX deixou um bom número de exemplos de heroísmo e entrega à causa da revolução socialista e à libertação dos povos, face ao imperialismo. Muitos deles, de facto, nunca ultrapassaram o anonimato do militante, da militante que assume um compromisso vital com a luta revolucionária, morrendo pelo ideal da emancipação do seu povo e pelo fim da exploração e das injustiças no mundo.
De entre os mais conhecidos exemplos, destacam os contornos firmes e indeléveis do Comandante Ernesto Guevara: o Ché. Verdadeiro exemplo de militância integral pelo socialismo, desde a tomada de consciência, na juventude, dos graves problemas causados pelo capitalismo imperialista no continente americano.
Exemplo paradigmático de internacionalismo, participando em primeira linha na luta revolucionária cubana desde a primeira hora, no desembarco do Granma em 1956 para encetar a luta guerrilheira na Serra Maestra, e até a vitória com a entrada em Havana a 1 de Janeiro de 1959. África e a própria América Latina, até a morte na Bolívia, a 9 de Outubro de 1967, foram posteriormente testemunhas da entrega honesta e sem concessões do Comandante Ernesto Guevara à causa da Revolução Mundial.

Fonte

sábado, setembro 16, 2006

Vitor Jara

Victor Jara: El canto no se apagará jamás

Joan Turner buscó por Santiago a su marido durante cientos de angustiosas horas. El dieciocho de septiembre, un amigo le comunicó que su cuerpo mutilado se encontraba desde hacía tres días en el depósito central de cadáveres. Las salas allí estaban colmadas hasta el techo. Le costó encontrarlo. Su cara aparecía cubierta de sangre y la cruzaba una herida de arma blanca. El pecho acribillado por la metralleta. Las piernas amarradas. Las muñecas de sus manos, según se dijo, golpeadas con martillo o culata de fusil. Así trataron al artista de siete dimensiones, al poeta, al actor, al director de teatro, al compositor, al padre de Amanda, al cantor del pueblo. El oficial lo conminó a que gritara "¡Viva la junta!". No lo hizo. ¿Lo mataron en el Estadio, que escuchó su canción muchas veces y que un día llevará su nombre?Uno de los generales explicó su muerte: "Había que poner fin a sus canciones y para eso hubo que matar a algunos de ellos".¡Poner fin a las canciones! Los pueblos ven en su muerte, como en el asesinato de García Lorca o de Miguel Hernández, el signo negro de la negación del canto, de la poesía y la vida. Aborrecen las expresiones más hermosas del ser humano, que son capaces de sobrevivir a pesar de todo. El himno de las juventudes del Mundo proclama en alta voz: "Ese canto no se apagará jamás". No se apagará jamás el canto de la juventud, el canto de los pueblos. Quisieron matar el canto del pueblo de Chile matando a Víctor jara. Pero Víctor Jara sigue cantando.



(*) Extracto do livro "Noches de Radio (Escucha Chile)" de Volodia Teitelboim, LOM Edições Chile, 2001.

O último poema escrito durante a sua detenção, nos dias que antecederam a sua morte.

segunda-feira, junho 12, 2006

Álvaro Cunhal

Memórias de uma vida...

A sua resistência ao regime de Salazar e de Caetano, sob o qual foi preso, torturado e perseguido, tornou-se mítica pela ousadia, pela constância e pela coragem. A 20 de Julho de 1937, com 23 anos, Álvaro Cunhal é preso pela primeira vez pela polícia política de Salazar. É então acusado de distribuir propaganda na rua. Encarcerado no Aljube, será transferido passados dois meses para Peniche.

O ruído e cadenciado abrir (umas atrás das outras) das fechaduras e ferrolhos das celas. O bater de tairocas dos faxinas circulando com os baldes dos despejos. O baque metálico dos baldes ao serem atirados para o chão de cimento. O fedor espalhando-se nas alas logo misturado e coberto pelo da creolina. Novos apitos, formatura, conto. A distribuição do café e do casqueiro. O deslocar em cortejo para as oficinas. De novo ferrolhos e fechaduras, agora com o novo bater das portas e o isolar dos reclusos nas celas. Depois o amortecer dos ruídos e o alastrar do vazio da imensidão das alas, cortado apenas pelo bater descontrolado das tairocas e tamancos dos faxinas e o barulho de marteladas, de serras e de máquinas vindo das oficinas. Ao meio dia o espalhar do cheiro enjoativo a mofo das couves da sopa e do peixe frito em óleo rançoso impregnado a humidade viscosa do ar, do solo, das paredes, de tudo. A meio do dia para o almoço nova reanimação e repetição de ruídos e movimentos. E de novo o recolher e de novo o relativo silêncio. E de novo o barulhento abrir das celas, nova formatura, desfile para o passeio. Nova formatura, novo recolher, até à tarde a nova repetição de movimentos, deslocações e ruídos, e dos cheiros para o jantar… E os ruídos que pouco a pouco se apagam. E o silêncio da noite que avança… Precisamente nesse dia lá fora na rua passou pelo passeio fronteiro uma mulher levando o filho pela mão. Era a primeira vez que ali passavam. O moço olhou curioso o majestoso edifício, os torreões de pedra branca, o elegante recorte das ameias. _ Mãe, o que é? _ Não sei, filho - respondeu a mulher – Deve ser o palácio de algum ricaço. _ Mãe, porque é que as janelas têm grades? _ Não sei, filho – responde a mulher – Talvez porque lá dentro há muita riqueza e têm medo que os ladrões assaltem o palácio para roubar. _Ah! – admirou-se o moço. Ia ainda perguntar alguma coisa mais, mas um eléctrico de passagem provocou tal ruído que o moço se conteve e já não fez a pergunta. Foi talvez melhor assim. Porque talvez a mãe não soubesse responder-lhe.

Invernia - Nesse dia, como em muitos outros dias, como por vezes semanas a fio, não houve passeio. A chuva fustigava as imensas fachadas desbotadas das seis alas dispostas em estrela. Debaixo de chuva envolto numa nuvem cinzenta, o imenso edifício parecia uma coisa morta. Parecia. Pois lá dentro arrastavam-se centenas de vidas. Lá dentro repetiam-se as obrigatórias operações do ritual de todos os dias. Apitos, barulho, ruídos, movimentos, cheiros, formas, contos. Uma diferença. Tirando os cerca de cem que trabalhavam nas oficinas e nos afazeres internos da cadeia, os outros quatrocentos ficavam todo o tempo fechados nas celas. Fechados. Sós.
As reacções eram naturalmente diversas. Alguns tinham como passatempos autorizados fazer nó a nó cintos ou bolsas de cordel. Outros passavam os dias em interminável passeio de um lado para o outro tal como bichos enjaulados. Outros recordavam os feitos que os trouxeram para ali. Outros faziam projectos para o futuro nem que esse futuro ficasse para lá de dez, quinze ou vinte anos de prisão que lhes faltava cumprir. Outros deixavam-se embalar pelas imaginações eróticas. Outros ditavam-se e dormiam ou faziam por dormir. Outros como que hibernavam, incapazes de pensar fosse o que fosse. E outros ainda, perdida a noção do tempo que parecia interminável, estavam atentos a todos os ruídos, sempre à espera do momento em que, para receberem o rancho ou para o conto, lhes abrissem a porta quebrando o isolamento e a solidão. Então espreitavam cá para fora, para a imensidão da ala tão solene como uma nave de catedral e sentiam assim um ilusório bafo de espaço, amplitude, atmosfera e liberdade.

Um dia mais, um dia menos - Nesse dia, como todos os dias, semana após semana, mês após mês, ano após ano, a vida decorreu no ritual de sempre. O silêncio da noite cortado pelos apitos da alvorada e o súbito expandir do barulho da movimentação da cadeia

segunda-feira, maio 01, 2006

Dia do Trabalhador


Memórias de
Um tempo não muito distante...

Recordações que deixam
mágoa, saudade e alegria, ao mesmo tempo...
"Ti" Adriano, o que nos contava os discursos e as conversas macias que no tempo de Salazar, o ditador, entremeavam com porrada, exploração e guerra, até fartar, para cima dos trabalhadores. A única abundância.

Quantas onças de tabaco dizias que fumavas, por dia, nessas occasiões, escondido em cima das azinheiras e dos sobreiros, com a guarda a cavalo à tua procura a mando do "lavrador" e da PIDE? Eu já não me lembro!

Belos serões aqueles! Tu a contares essas histórias na tua casa pobre, de chão de terra batida e telhado de telha-vã. O que te valia era o lume de chão e aquele bagaço que tinhas para os camaradas - que eu detestava e tu te rias - enquanto a conversa corria, encantadora, a dar conforto, a despertar vontades e sonhos. Noite fora.

Um poema é feito de muita coisa. Os homens e as mulheres têm o direito de sonhar. O dever de sonhar. E não faz mal ter presente Goethe: "A teoria, meu amigo, é parda, mas verde é a eterna árvore da vida". E. Hemingway: "Um homem pode ser destruído mas não derrotado". Catarina Eufémia. António Maria Casquinha. José Geraldo.

As formigas de asa chegam com a terra molhada. Lavrada. Penetrada pelo arado. Fecundada. O pássaros comem a bicheza que fica nas leivas levantadas pela charrua. O cheiro primitivo e quentte da terra remexida. As sementeiras. Pão. O pão que produzias e faltava na tua casa.

As ceifas. Doze horas curvado. De sol a sol. Calores tórridos. A jornada de miséria. A fome. O insuportável suportado. Latifúndio. Coutadas. Ganhões. Restos de um tempo. Feudalismo. A praça de jorna. O dia de greve. Os que partem. As tuas lágrimas. No campo, o poço. Água fresca. Cantares de um povo que sofre. Rejeição do esquecimento. Resistência. Até à Revolução de Abril. Depois, o 1º de Maio. A tua festa! Évora. Milhares de trabalhadores!

terça-feira, abril 25, 2006

As Portas que Abril Abriu...


Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais feliz
dos povos à beira-terra

Onde entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo se debruçava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza

Era uma vez um país
onde o pão era contado
onde quem tinha a raíz
tinha o fruto arrecadado
onde quem tinha o dinheiro
tinha o operário algemado
onde suava o ceifeiro
que dormia com o gado
onde tossia o mineiro
em Aljustrel ajustado
onde morria primeiro
quem nascia desgraçado
.............
Ora passou-se porém
que dentro de um povo escravo
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo
.............
Ouvi banqueiros fascistas
agiotas do lazer
latifundiários machistas
balofos verbos de encher
e outras coisa em istas
que não cabe dizer aqui
que aos capitães progressistas
o povo deu o poder!
E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe!
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu!

quinta-feira, abril 13, 2006

Premiado pela dor...

O

blog anónimo de uma jovem iraquiana foi indicado para concorrer a um prémio literário conferido pela BBC, e ganhou o Best Middle East and Africa Blog, no passado mês de Março, aliás, com todo o mérito.
Baghdad Burning, é um relato em primeira mão, escrito sob o pseudónimo Riverbend, e está também entre 19 finalistas ao prémio Samuel Johnson para não ficção, a anunciar no próximo dia 14 de Junho. Antes da invasão do Iraque, "Riverbend" trabalhava como programadora de computadores. Mas perdeu o emprego, porque a caminhada para o trabalho e a volta para casa ficaram muito perigosas para as mulheres desacompanhadas. O jornal britânico The Times publicou o seguinte trecho do blog da escritora, iniciado em Agosto de 2003: "Sou mulher, iraquiana, e tenho 24 anos. Eu sobrevivi à guerra. Isso é tudo o que você precisa saber. E é tudo o que importa hoje em dia."
Riverbend fala do sofrimento do povo iraquiano em "três anos de ocupação e derramamento de sangue" e pede aos Estados Unidos que se retirem do Iraque.
Um prémio merecido e um desabafo a não perder.

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Tributo


Morrem cedo os que admiramos
É sempre assim, com os que admiramos e amamos: morrem sempre cedo de mais.
Mas o Zeca, 19 anos depois, continua na nossa memória…para sempre.


A morte saiu à rua num dia assim
Naquele lugar sem nome pra qualquer fim
Uma gota rubra sobre a calçada cai
E um rio de sangue dum peito aberto sai

O vento que dá nas canas do canavial
E a foice duma ceifeira de Portugal
E o som da bigorna como um clarim do céu
Vão dizendo em toda a parte o pintor morreu

Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual
Só olho por olho e dente por dente vale
À lei assassina à morte que te matou
Teu corpo pertence à terra que te abraçou

Aqui te afirmamos dente por dente assim
Que um dia rirá melhor quem rirá por fim
Na curva da estrada há covas feitas no chão
E em todas florirão rosas duma nação

Zeca Afonso

terça-feira, junho 14, 2005

Simples homenagem...

Álvaro,
Nunca ninguém te apanhou desprevenidoA senhora vestida de negro, de quem não tinhas medo, veio de madrugada, mas tenho a certeza que não te apanhou desprevenido. Nunca ninguém te apanhou desprevenido.Foi há uns meses, a última vez que falámos, perguntaste pelo João, e se eu estava a fazer coisas bonitas, como perguntavas sempre. Rimos, já não me lembro de quê. Sempre o teu sentido de humor. Já reparaste que te estou a tratar por tu? Finalmente, consegui. O João está bom. Tenho pena que não o conheças. Mal te visse, ia esticar-te os braços a pedir colo, como faz com todos os que sente serem amigos. Eu ando a tentar fazer coisas bonitas, mas já não te tenho cá para as veres. Vais fazer-nos muita falta. A todos. Sabes, está a ser difícil escrever este texto. Deve ser dos textos mais difíceis que alguma vez escrevi e alguma vez escreverei. Não gosto de lamechices, e tu muito menos.Lembras-te do dia em que nos conhecemos? Eu lembro-me. Foi para aí há uns oito anos. Tremia. Ia falar cara a cara com um homem que vinha nos livros de História. Queria pedir-te ajuda para um trabalho que estava a fazer sobre ti, para a faculdade. Bastaram uns minutos para o nervosismo passar. Sem dar por isso, estava a falar contigo de igual para igual. E a culpa era tua. E, apesar de teres dito que não te parecia bem um trabalho sobre ti, eu levei a minha avante. Só pediste que te mostrasse o resultado final. Mostrei e acho que gostaste. E depois quando, estagiária de jornalismo na "Notícias Magazine", te pedi uma entrevista, tu deste-me um livro "Cinco conversas com Álvaro Cunhal". Nunca consegui voltar a lê-lo, mas agora ao passar os olhos por ele, detive-me na tua última resposta: "Não sou apenas amigo de camaradas do meu partido. Sou-o e sou capaz de sê-lo de pessoas que têm opiniões muito críticas em relação a concepções e posições do PCP e naturalmente às minhas. Tive ao longo da vida, como uma das maiores riquezas, muitos e muitos amigos, a acompanhar-me, a estimularem-me na luta e na vida. Continuo a tê-los. E também, na medida em que vou conhecendo e conhecendo melhor pessoas que não havia conhecido, passo a estimá-las e vejo que posso ganhá-las como amigos e de vir a ser amigo delas. De ti, por exemplo." Obrigada, igualmente, respondi então e respondo agora.
Um beijinho. Até sempre.
* Jornalista da "Notícias Magazine"catarinapires *
(Post recuperado)

segunda-feira, abril 25, 2005

25 de Abril


Atravessamos uma grave crise social e económica no nosso país. Somos dos países mais atrasados da Europa, mas continuo a acreditar nos Ideais de Abril. Enquanto viver não vou esquecer, aquele "Quadro Pintado pelo Povo" e que viverá sempre comigo: A imagem de uma Pomba Branca com um Cravo Vermelho no bico, a voar no céu azul!Cravo vermelho, símbolo de liberade, democracia, igualdade e ....esperança num Portugal melhor!
* Post recuperado

quarta-feira, abril 13, 2005

Os índiosTerena

Como o saber não ocupa lugar, resolvi fazer este post, tendo plena certeza de que a maior parte dos habitantes da vila onde resido jamais lhes passou pela cabeça que em terras longíquas do Brasil, concretamente no Estado do Mato Grosso do Sul, localizado na Região Centro-Oeste e cuja capital é Campo Grande, se encontram os índios Terena, considerada a segunda maior população indígena daquela zona.
O seu meio de vida é a agricultura. São conhecidos como um povo agricultor que luta pela demarcação da terra que outrora lhes pertencia e que ao longo dos tempos lhes tem sido tomada.
Conhecidos também pelo seu nível de adaptação e aculturação, os índios terena são politizados e exercitam os seus direitos de cidadão. Hoje, muitos jovens terena participam da vida económica do país, pois são hábeis agricultores, embora possuam poucas terras, mas sabem aproveitar bem esse espaço. Na política da sua região já há vereadores eleitos em algumas comunidades. Os Terena procuram preservar sempre os seus valores étnicos culturais. Entre as expressões de destaque, figura a Dança da Ema (Kohixóti Kipahí), na qual somente os homens participam. A sua população é de cerca de 60.000 pessoas.
* Post recuperado.

sexta-feira, março 11, 2005

Simples homenagem

Hoje deu-me para folhear um livro (vá-se lá saber porquê...) editado há já alguns anos pela autarquia deste concelho, intitulado "Cantadores de Alegrias, Mágoas e Mangações".A arte da palavra, e da palavra poética em particular, faz parte da cultura portuguesa e é tão antiga como a própria língua.A inventiva oral-popular dos cantadores, com grandes rasgos de originalidade, baseia-se quase toda nas chamadas décimas, (forma poética semelhante à redondilha) e ainda em uso em toda a região alentejana.Quero partilhar com vocês umas décimas do ti Anastácio Pires, que infelizmente já não se encontra entre nós, mas que nos deixou como legado palavras sábias em forma de poesia.E, como o 8 de Março foi apenas há 2 dois dias, aqui ficam os seus versos cantados por ele em homenagem à sua mulher e que eu roubo, para lhos devolver em homenagem ao grande poeta popular, que viveu neste concelho.


MOTE

A minha mulher amada
Que nunca ralha comigo
Quando ela estiver zangada
O gato sofre um castigo

Se o gato em casa entrar
Prega-lhe com um sapato
-Tal é o estupor do gato
Anda só a patear!
Andei a casa a lavar
Já está toda pateada
Já que não me ajudas nada
Não me estragues o que eu fiz
_Mas a mim nada me diz
A minha mulher amada


Se o gato se for deitar
Em cima de uma cadeira
Dois sopapos na lombeira
Não está livre de apanhar.
Só de o ouvir miar
Põe-se ela desafinada
_O que é que quer a empada?
Se queres comer vai fazê-lo.
_Não lhe queria estar no pelo
Quando ela estiver zangada


Se o gato estiver sentado
Lá ao lume à chaminé
Ela dá-lhe um pontapé
Que ele abala de alma ao lado
_Aqui está escarrapachado
Só gosta de bom abrigo
Por causa dele nem consigo
Pôr as panelas ao lume
-Mas tem um belo costume
Que nunca ralha comigo.


Se eu no café me descuido
Chego a casa não se queixa
Mas só que o gato se mexa
Carrega com o canudo*
O gato papa com tudo
Sem perceber do artigo
Eu percebo mas não ligo
Finjo até não perceber,
Sem culpa nenhuma ter
O gato sofre um castigo.

REMATE

Tirai nota povo honrado
O que vos digo é exacto
Se eu não possuísse um gato
Eu é que estava enrascado,
Era eu o condenado
Tenho a firme certeza
Que a mulher tem natureza
De ralhar um bocadinho,
Mas o bom do meu gatinho
É uma grande defesa.


* Tubo de cana ou de ferro para atear o lume de chão.
(Post recuperado)