sexta-feira, março 30, 2007

Não acredito em coincidências...

Incidente Royal


O Irão é acusado de, a 23 de Março, ter preso sem nenhum motivo 15 militares britânicos da Royal Navy. O caso poderá ter como consequência algo muito mais grave do que a escalada do preço do petróleo.
Com a mesma veemência com que garantiu aos britânicos dispor de provas irrefutáveis da existência de armas de destruição maciça no Iraque, Tony Blair afirmou no domingo, em Berlim, que «simplesmente não é verdade que eles [os militares da Royal Navy] entraram em águas territoriais iranianas» e esperar que o governo iraniano «entenda quão fundamental» é para os britânicos uma «questão como esta».
Diferente é a versão iraniana que, segundo a imprensa local, diz dispor de registos de «dados geográficos» dos navios apresados, os quais confirmariam que os militares britânicos «entraram conscientemente nas águas territoriais iranianas e ali permaneceram», o que motivou a sua prisão.
A questão óbvia que se coloca é a de saber quem «ganha» com este incidente. O Irão não será certamente, pressionado como está a ser pelos EUA via Conselho de Segurança, já que é pouco plausível que possa retirar outros dividendos deste imbróglio que não um aumento da tensão, da pressão e das crescentes ameaças que lhe são feitas.
Já no respeitante à Grã-Bretanha, conhecida como aliada incondicional dos EUA, o caso muda de figura, pois não é absurdo admitir que se tenha prestado a levar a cabo uma provocação que sirva de pretexto ao objectivo de «legitimar» um ataque ao Irão.
A hipótese está há muito em aberto e é reconhecida por destacadas figuras da política norte-americana, como Zbigniew Brzezinski, antigo conselheiro de Segurança Nacional, que a 1 de Fevereiro último, numa audição no Comité de Relações Externas do Senado, admitiu como «cenário plausível para um ataque ao Irão» uma «provocação no Iraque ou um acto terrorista nos EUA» de que o Irão seria acusado. A generalidade dos média, curiosamente, não se interessou pelo depoimento, apesar da sua gravidade.
Blair ameaça que o processo para a libertação dos militares entrará numa «nova fase» caso fracassem os esforços diplomáticos. É muita coincidência junta para ser só coincidência.


Anabela Fino in Avante

quarta-feira, março 28, 2007

É preciso estarmos atentos

O fascismo do século XXI
Q

uando se fala de fascismo, somos frequentemente levados a pensar nos regimes políticos que influenciaram as décadas centrais do século XX. Do ponto de vista sociológico, a actuação e o poder desses regimes são as características mais relevantes do fascismo, mas numa análise filosófica do mesmo, vimos que a essência do seu "sucesso" reside na sua natureza social, nas suas características, na sua raiz, garantias da sua própria existência.
A constituição de uma estrutura de poder, num sistema de dependência verticais, é uma das características essenciais do fascismo. Estruturar as dependências entre os membros do poder, subentende a concessão de uma relação social a cada um dos seus elementos, em função de um programa previamente estabelecido. Esta "dependência operativa" pressupõe, ao fim e ao cabo, uma estrutura de domínio, mais ou menos evidenciada, correspondendo a uma concepção de sociedade autoritária, uma hierarquia de poder.
O apoio que a sociedade proporciona à estrutura do poder fascista, é justificado pela verdade que envolve a sua doutrina. O fascista justifica a necessidade do exercício do poder com o facto de conhecer a "verdade", e toda a sua estrutura é organizada no sentido do desenvolvimento da comunidade numa doutrina "sócio-redentora" dessa "verdade". Existe um verdadeiro empenho em conformar a sociedade com os princípios fundamentais que se propõem como "verdade" essencial da sociedade.
A formalização de uma doutrina fascista é quase sempre o resultado da conveniência de uma aristocracia intelectual ou económica que interpreta como única solução, a unificação do pensamento para atingir os seus objectivos. Generalizando os interesses sociais em função do interesse da sua própria classe, este grupo assume a direcção e estrutura do país, constituindo-se como promotor e defensor do novo poder estabelecido.
Uma vez estabelecida a doutrina e controlado o poder, o processo concentra-se em identificar os cidadãos com essa doutrina, usando a "ideologização"da educação, a repressão da informação e a reinterpretação da cultura. Inevitavelmente, o povo perde a percepção de liberdade, salvo para aqueles que se identificam com o movimento social em que navegam.
Por tudo isto, considerarmos o fascismo como um movimento social historicamente superado, supõe o perigo de não notarmos como alguns dos seus fundamentos se desenvolvem e enraízam nas mais variadas condições sociais, mimetizando-se com aparências mais ou menos democráticas e progressistas.
O exercício do poder que, por detrás de uma “verdade”, move um grupo social, pode encontrar a sua justificação numa ideologia política, num grupo económico, num sectarismo religioso, numa aristocracia social, etc. Construir desde aí a sua influência até consolidar um verdadeiro poder, é uma possibilidade mais real e próxima do que julgam aqueles que consideram o fascismo uma coisa do passado.
Se analisarmos determinadas estruturas de poder, no mundo actual, poderemos constatar como os elementos essenciais ao fascismo estão mais presentes do que à primeira vista nos parece.
Para ilustrar este texto, nada melhor do que este vídeo, a que alguns denominaram “O fascismo do século XXI”.
É preciso abrir os olhos e estar alerta!

segunda-feira, março 26, 2007

A cumplicidade do silêncio

"...A passividade dos portugueses perante os ataques sucessivos deste governo às suas liberdades e garantias tem de terminar..."A

s injustiças com que diariamente somos confrontados na nossa sociedade, todos sabemos que são da responsabilidade do governo. Mas, no terreno político, poucas seriam aquelas que avançariam sem o apoio dos que, directa ou indirectamente as consentem. Deste ponto de vista, podemos dizer que as injustiças sociais são mais da responsabilidade dos cidadãos do que possa parecer. Tendo em conta que a democracia é o governo do povo, a sua quota de responsabilidade é um facto, salvo para os que voluntariamente se afastaram do sistema.
Existem muitas formas de nos opormos às injustiças sociais, quer seja reprovando-as pessoalmente nos meios de comunicação, quer exteriorizando colectivamente a nossa repulsa mediante concentrações, manifestações, greves, etc.
No entanto, a opção mais comum perante o abuso de poder ou a injustiça, é o silêncio, pelo menos o "silêncio passivo", aquele que não passa de mero lamento interior, sem a mínima acção de manifesta repulsa. Esse silêncio, em democracia, é com frequência o melhor cúmplice da injustiça.
Quem cala perante uma decisão injusta, converte-se em cúmplice desse acto. E em democracia, o silêncio pode ler-se como um referendo à actuação do poder e em nada beneficia os cidadãos.
A experiência da falta de liberdade de expressão suportada pelos que sofrem um regime político autoritário, ou daqueles que não têm possibilidade nem meios para contestarem as injustiças de que são alvo, contrasta radicalmente com a oportunidade ao exercício do direito à manifestação inerente a uma sociedade livre como a nossa, direito a que unicamente se dá valor, quando o poder o infringe e limita.
Ainda que fosse apenas, por solidariedade com milhões de homens e mulheres que se vêem privados de denunciar a injustiça social, aqueles que nos consideramos protagonistas de um mundo livre, deveríamos sentir a obrigação de exercer com actos e palavras a nossa crítica às políticas anti-sociais, como um símbolo da verdadeira liberdade. Porque, se os povos democráticos silenciam a injustiça, como poderão alguma vez ser referência de liberdade para aqueles que se encontram subjugados?
Há momentos na vida em que calar se torna uma culpa... e gritar alto, uma obrigação. Não teremos calado já o suficiente?


Edição: Na sequência deste post e depois do resultado de ontem do Programa "Grandes Portugueses", penso ser oportuno ler este artigo, porque apesar de tudo, é reconfortante saber que temos jovens corajosos e conscientes neste país.

terça-feira, março 20, 2007

Uma história


A solução inteligente

Há anos atrás, um mercador londrino ficou a dever uma grande soma de dinheiro a uma pessoa que lhe fez um empréstimo. Este, quando quis recuperar o dinheiro, foi a casa do mercador e quando viu a sua bonita filha, fez-lhe uma proposta.
Propôs-lhe casar com a filha, cancelando desse modo a dívida do mercador. Quer o mercador, quer a filha, ficaram apavorados.

Sem alternativa, o mercador pediu que a solução fosse deixada à sorte. Sugeriu então, que se colocasse dentro de uma bolsa vazia, uma pedra branca e uma pedra preta, devendo a rapariga tirar, de dentro da bolsa uma delas, ao acaso.

Assim:

1- Se ela retirasse a pedra preta, casaria com ele e a dívida do seu pai ficava cancelada.

2- Se retirasse a pedra branca, não casaria com ele, mas a dívida seria, do mesmo modo, cancelada.

3- Se ela se recusasse tirar a pedra, o pai iria para a prisão e ela ficaria sozinha.

O mercador concordou com a proposta. Encontravam-se num caminho de cascalho solto junto do jardim, onde havia muitas pedras brancas e pretas.

O credor baixou-se para apanhar duas mas, ao fazê-lo, não apanhou uma pedra branca e outra preta mas sim duas pedras pretas. A rapariga percebeu o que ele fez e pensou que nunca poderia tirar da bolsa a pedra branca porque não tinha sido lá colocada.

O credor, com um sorriso malicioso de vitória, pediu à moça que retirasse a pedra que iria decidir sobre o seu futuro.

Porém, a rapariga encontrou uma solução que lhe permitia não casar com o credor e cancelar a dívida do pai.

Como conseguiu?
Que solução encontrou?

Nota: Deixem a vossa opinião na caixa de comentários. Prometo que mais tarde divulgo a solução.


sábado, março 17, 2007

Considerações

A propósito da nota negativa na avaliação do desempenho

Estas e outras atitudes são mais frequentes do que se possa imaginar e são muitos os trabalhadores que as sofrem diariamente no seu local de trabalho. O Homem não é perfeito e actua pressionado pelo medo. Medo a perder o seu "status", medo a perder o "reconhecimento" alcançado, medo da sua própria debilidade…
Além de todas estas tácticas na corrida pelo poder, deparamo-nos com outro tipo de abusos que não têm outra finalidade senão o aproveitamento, no plano pessoal ou profissional, da condição de subordinação dos outros, aproveitando a maior parte das vezes a falta de transparência que impede que os abusos possam ser denunciados e julgados.
Numa organização hierarquizada, existem diferentes níveis de poder que se manifestam na tomada de decisões e supervisão e controle sobre as pessoas. Pessoas de todas as condições, sexo, raça, idade e status.
O poder muda, está em movimento constante, roda de uns para outros, num jogo constante em que cada um deve encontrar uma parcela, não só no terreno laboral, mas em todo o tipo de relações. Mas, a cultura, as ideias preconcebidas, o inconsciente colectivo da sociedade, são a razão principal para que surjam determinadas manifestações de poder que são injustas do ponto de vista lógico e até mesmo humano, mas que são aceites socialmente de forma fácil e continuam sendo aplicadas sem nenhum escrúpulo.
Por tudo isto, penso que a questão dos dois anos consecutivos com nota negativa, é um pau com muitos bicos!

Em todos os serviços, sejam públicos ou privados, existe competição, luta pela ascensão do poder. Cada um tem as suas ambições, e pode-se dizer que é legítimo o facto de se pretender alcançar um determinado poder para conquistar a sua própria "parcela". Mas, em cada serviço, a luta pelo poder apresenta-se de forma diferente e possui objectivos distintos. Existem centros vitais de poder para os quais está encaminhada a luta pela ambição. No entanto, nesta batalha, neste percurso pela conquista do poder ambicionado, no esforço em manter a pequena ou grande parcela de poder, que se ostenta, alguns homens e mulheres esquecem a dignidade de outros e extrapolam as suas funções, afectando inclusivamente alguns subordinados em aspectos pessoais e privados.
Nesta grande competição, alguns actuam com malícia e premeditação. Utilizam uma posição privilegiada de poder para bloquear ou marginalizar uma pessoa, sem lhe dar ocupação, por exemplo, até conseguirem que a mudem de lugar, por ser considerada um obstáculo. A "técnica do desgaste" por vezes vem mesmo a calhar, quando se pretende "acabar" com um competidor que se considera perigoso, e bombardeiam-no com trabalhos urgentes, sobrecarregando-o até que se revolte. Ao mesmo tempo, e quando deveriam dar boa informação dos seus subordinados, ocultam o seu verdadeiro valor e fazem ainda pior: fornecem confidencialmente, a pessoas "chave" do serviço, declarações contrárias à realidade, dando informação desfavorável e distorcida sobre eles.

quinta-feira, março 08, 2007

Uma lição de psicologia

O Poder da inteligência


A

s relações entre as pessoas são, por vezes, especialmente complexas. Estão carregadas de influências mútuas, umas são construtivas, mas outras podem chegar a ser profundamente devastadoras.
O Poder é a capacidade para influenciar os outros, para o bem e para o mal, admitindo portanto, poder ser uma bênção ou uma agressão. Existem diferentes formas de exercer o poder: Poder coercivo - o instrumento utilizado é o temor e tem como objectivo controlar os outros através da intimidação. Não é uma fórmula para influenciar mas sim para “obrigar”. Poder utilitário - trata-se de um intercâmbio e alguém que possui poder, está na disposição de proporcionar algo que outros necessitam, com a finalidade de obter alguma contrapartida.
Se determinadas pessoas usassem o poder com honestidade e inteligência, dariam um maior contributo à sociedade e justificariam a existência dos seus neurónios Mas existe um outro tipo de Poder. O Poder baseado em princípios, em que a pessoa que o representa é poderosa porque é credível, respeitada e honrada pelos outros. Estes, cumprem os seus desejos porque estão na mesma luta, têm os mesmos interesses e seguem, livremente e com agrado, a pessoa que consideram competente e digna de confiança.


“O Poder pode ser utilizado para a competência e cooperação, em vez de para o domínio e o controle.”
(Anne L. Barstow)


Cada um de nós, pode escolher ser poderoso ou impotente perante qualquer circunstância da vida. Sem importar o quanto nos sintamos frustrados, sem subestimar as dificuldades da vida, teremos sempre a oportunidade de empreender um objectivo, de pensar e acreditar que existe uma opção. No momento em que registarmos esta consideração na nossa mente, estamos sendo poderosos.
O poder baseado em princípios é sólido, baseia-se no respeito pelas pessoas, nas quais desejamos influir, e deve conduzir a uma interdependência. Ambas as partes tomam decisões e escolhem alternativas. Este tipo de poder alimenta uma conduta ética porque os implicados se sentem livres e expressam as suas razões e opiniões em função dos seus conhecimentos, necessidades e expectativas.
É evidente que o exercício do poder requer, para além do respeito pelos outros, capacidade de persuasão. Devemos ser persuasivos e determinantes, mas não ofensivos.
A amabilidade e o respeito pela vulnerabilidade alheia são condição essencial. Simplesmente, tratar os outros como gostaríamos de ser tratados. É importante ser-se coerente. Isto não significa que temos de portar-nos de modo semelhante com todas as pessoas, em qualquer momento ou lugar. Significa antes que devemos orientar-nos sempre pelos mesmos princípios básicos, de cada vez que actuamos.
Todos, definitivamente, desejamos o poder. Não se trata necessariamente de chegar a ser ministro ou presidente, ou responsável de uma multinacional, trata-se sim de influir nas pessoas que nos rodeiam, filhos, amigos, colegas, etc., com o propósito de obter o respeito, a colaboração, o entusiasmo e a conquista dos nossos objectivos.
Se trabalharmos todos estes princípios, de forma serena, honrada e consciencializada, estamos na direcção exacta para o conseguir.
É só uma questão de tempo.

terça-feira, fevereiro 20, 2007

Como formigas...

Que raio de vida sem sentido! Trabalhar... trabalhar... e o resto?

Sento-me ao sol por uns minutos, cansada. Olho à volta e os meus olhos recaem na azáfama de umas formigas que me esburacaram a calçada do jardim e dou comigo a pensar: num formigueiro bem organizado, as formigas rainhas são poucas e as formigas operárias são imensas. As rainhas nascem com asas e podem fazer amor. As operárias, que não podem voar nem tão pouco amar, trabalham para as rainhas. As formigas polícias vigiam umas e outras…
Nesta época em que vivemos, caracterizada pela confusão dos meios e dos fins, não se trabalha para viver. Vive-se para trabalhar. Uns trabalham cada vez mais porque necessitam mais do que consomem, e outros consomem mais do que necessitam. E o que nos diz o sistema?
Pois bem, o sistema ensina-nos que SER é TER. E onde está o logro? Bem, o logro está no facto de que, quem mais tem, mais quer e, ao fim de contas, as pessoas acabam por pertencer às coisas e trabalhando às suas ordens. O modo de vida desta sociedade de consumo, que hoje em dia se impõe como um modelo único à escala universal, converteu o tempo num recurso económico, cada vez mais escasso e mais caro. O tempo, hoje, vende-se, aluga-se, transforma-se… E quem é afinal o dono do tempo? O automóvel, o telemóvel, o DVD, o computador, o televisor e outros tantos indicadores da felicidade, máquinas criadas para “ganhar tempo” ou para “passar o tempo” que, ao fim e ao cabo se apoderam do nosso precioso tempo.
Um automóvel, por exemplo, não só se apropria do espaço urbano, como também se apodera do tempo humano. Em teoria, o automóvel serve para economizar tempo, mas na prática devora-o. Porque afinal boa parte do tempo do nosso trabalho (como as formigas operárias que dedicam o tempo da sua vida à rainha) destina-se ao pagamento do transporte ao trabalho, e transforma-se a cada dia que passa num “comilão” de tempo, em consequência das enormes filas de trânsito (como formigas encarreiradas) nas BABILÓNIAS modernas.
O revoltante é que vivemos para as coisas, em prol das coisas e em função das “formigas rainhas”.
Continuamos relutantes em trocar as coisas pelas asas que nos fariam voar e conformamo-nos em TER, mesmo sabendo de antemão que o supérfluo nos rouba todos os dias a faculdade de poder amar.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Today

Agarrado como uma lapa!
Always and forever
Each moment with you
It's just like a dream to me
That somehow came true

And I hope tomorrow
Will still be the same
Cause we got a life of love
That won't ever change


sexta-feira, fevereiro 09, 2007

SIM, para mudar a lei

SIM

Abílio Fernandes em entrevista


Com que impressão ficaste da Assembleia da República?

Não fazia ideia nenhuma do que era aquilo. Digo isto agora, depois de ter lá estado estes dois anos. A Assembleia da República é de facto um mundo onde se consegue compreender o funcionamento do Estado. E onde se consegue perceber os jogos de bastidores e os compromissos de poder que ali se formam. Isto faz-nos compreender, a quem lá está, por que é que os dois partidos maiores, o PS e o PSD, num momento em que o País atravessa grandes dificuldades, não apresentam propostas válidas. Porque ambos têm fortíssimas culpas de tudo quanto se passou no País desde que começaram os governos constitucionais.

Foi difícil, a adaptação?

Sabes, tive uma grande sorte e felicidade de encontrar um conjunto de camaradas que já lá estão há muitos anos, e que demonstram não só uma grande capacidade de trabalho e de dedicação, mas também uma vitalidade de memória e raciocínio imediato. Para mim isto foi de uma riqueza imensa e ajudou-me bastante.
Por outro lado, encontrei uma equipa de camaradas jovens, que entraram recentemente. E isto para mim é uma grande felicidade. Sinto que estes jovens estão a dar grandes saltos e a progredir a grande velocidade…

Mas entretanto, renuncias…

Sim, passado dois anos renuncio. E renuncio com grande satisfação. Porque eu entendo que o Partido tem que pensar no futuro e pensar no futuro tem que ser com gente nova que possa entrar e assumir responsabilidades e, quando temos essa gente nova, não a podemos desperdiçar. E nós, na Assembleia da República, temos esses jovens! O camarada que me vai substituir, o João Oliveira, tem 27 anos. Eu tenho quase 70… Por isso, saio com muita satisfação

Que momentos destacas desta tua passagem pela Assembleia da República?

Destacar algum pela positiva é difícil, porque nós dificilmente conseguimos fazer aprovar as nossas propostas… Mas um momento importante da minha intervenção parlamentar deu-se aquando da discussão da lei das Finanças Locais, que é, pode dizer-se, a «minha área».
Outro grande momento que eu passei foi no Conselho da Europa, em que foi levantada a questão de considerar que a ideologia comunista está associada a crimes e barbaridades. Foi uma afronta que, como deputado do Partido Comunista Português, me coube denunciar. E disse que quem foi assassinado e espancado em Portugal foram os comunistas. Pela direita e pelo fascismo.
Foi também muito gratificante para mim levar à Assembleia da República as propostas para o distrito de Évora, pelo qual fui eleito, e também de Portalegre.

É sabido – tu próprio acabaste de o dizer – que as nossas propostas dificilmente são aprovadas. Na tua opinião, e neste quadro, qual é o papel do deputado comunista?

Em primeiro lugar, as intervenções dos deputados comunistas são de uma importância extrema. Digo isto em contraponto a todos os que pensam que, como as nossas propostas raramente são aprovadas, quase que estamos ali a perder tempo. É exactamente o contrário…
O Partido, com a sua coerência, tem vindo ao longo dos anos a fazer propostas sempre com o mesmo objectivo: a defesa dos interesses das populações e das camadas trabalhadoras. As intervenções dos comunistas fazem parte da história da Assembleia da República e farão parte de toda a análise que se vier a fazer no futuro sobre a participação dos partidos na vida democrática. E isso tem um peso muito grande.
O mundo vai dar muitas voltas e a política de direita vai continuar a não resolver os problemas das pessoas. E poderá haver perturbações, manifestações e protestos. E aí os cidadãos sérios e honestos vão encontrar nas intervenções dos deputados do PCP a tal coerência e a tal garantia e solidez para governar o País.

Momentos de uma entrevista a Abílio Fernandes, que pode ser lida na íntegra aqui.

terça-feira, janeiro 30, 2007

Opinião

A defesa do Deus varão

Penso que a Carta aos bispos da igreja católica sobre a colaboração do homem e da mulher na igreja e no mundo passou despercebida a alguns dos defensores do “não”, na medida em que continuam a basear os seus argumentos contra o aborto, numa consciência moral e religiosa, a meu ver, falaciosa. Digo alguns, porque a maioria dos europeus, lembro-me, recebeu-a como uma simples “anedota” mal contada. A Carta é, na realidade, uma das piores criações intelectuais do Vaticano, durante o papado de João Paulo II. Os erros de lógica que contém e a pobreza filosófica que a sustentam são surpreendentes, tendo em conta que é assinada pelo então Cardeal Ratzinger, considerado um dos mais brilhantes ideólogos da igreja Católica. As debilidades desta carta mostram que, nem um homem como Ratzinger pode defender o indefensável.
Como se fosse dirigida a extraterrestres que desconhecem a história de erros e horrores da Igreja, começa logo por, mais uma vez, repetir ao mundo a sua máxima arrogante em que se auto-proclama como uma instituição “perita em humanidade”. Como pode ser perita em humanidade uma instituição que depois de quase dois mil anos de existência, publica um documento revelando que os seus dirigentes ainda não conseguiram entender as aspirações e necessidades das mulheres, que são cinquenta por cento da humanidade? Como pode declarar-se “perita” em humanidade uma instituição que comete a barbaridade de argumentar que as mulheres têm uma inclinação natural, pelo que “desenvolve em si o sentido e o respeito do concreto, que se opõe às abstracções, muitas vezes mortais para a existência dos indivíduos e da sociedade”. Traduzindo: as mulheres não se inclinam (não têm tendência natural a entender) para o abstracto, ou seja, para as ideias, a filosofia, a teologia, etc. Melhor dizendo: segundo Ratzinger, as mulheres não devem nem podem tentar ascender o plano existencial concreto da sua cozinha!
A carta identifica duas correntes ou tendência de pensamento. A primeira, “sublinha fortemente a condição de subordinação da mulher, procurando criar uma atitude de contestação. A mulher, para ser ela mesma, apresenta-se como antagónica do homem. Aos abusos de poder, responde com uma estratégia de busca do poder.”.
A segunda, continua dizendo a carta, “emerge no sulco da primeira. Para evitar qualquer supremacia de um ou de outro sexo, tende-se a eliminar as suas diferenças, considerando-as simples efeitos de um condicionamento histórico-cultural. Neste nivelamento, a diferença corpórea, chamada sexo, é minimizada, ao passo que a dimensão estritamente cultural, chamada género, é sublinhada ao máximo e considerada primária.”
Efectivamente, as mulheres há muito que lutam por alcançar uma melhor distribuição da poder entre os homens e as mulheres no Estado, na sociedade, dentro dos partidos, dentro da família, nos processos de formulação de políticas públicas e até mesmo dentro das igrejas. A crítica desta carta do Vaticano é surpreendente, na medida em que a luta pela justa distribuição do poder, é a dinâmica essencial da democracia. Devemos no entanto entender que a democracia é uma ideia e uma prática alheias à vivência daqueles que operam dentro das estruturas verticalistas e autoritárias do Vaticano. A igreja condenou a mulher a parir sem limites e sem condições. Não importa a sua idade, não importa a causa da sua gravidez, Não importa se se trata de uma jovem violada e engravidada. Ao mesmo tempo, a Igreja perpetuou a imagem da mulher como um símbolo das debilidades da carne. Virgem é a Maria, esposa do carpinteiro, para exorcizar a sexualidade humana. O homem, por sua vez, representa a força do espírito que, elevando-se sobre a “natural” tendência ao pecado pela mulher, converte-se no representante de Deus na terra. Só um homem pode ser Papa ou sacerdote. Só um Ratzinger sabe o que querem e o que precisam as mulheres. Deus é varão. Putas e pecadoras são, ou se inclinam naturalmente a ser, todas as madalenas...
A bíblia e a igreja foram, desde sempre, o maior obstáculo para o processo da emancipação da Mulher.
Exemplo de alguns excertos do Antigo Testamento:

- Levítico 12: 1, 2 & 5
Deus falou a Moisés e disse:
Fala com os filhos de Israel e diz-lhes: "A mulher quando conceber e der à luz um varão, será imunda 7 dias… e se der à luz uma menina, será imunda duas semanas…

- Efésios 5: 22 & 23
As casadas estão sujeitas aos seus próprios maridos, como ao Senhor; porque o marido é a cabeça da mulher, assim como Cristo é a cabeça da igreja, a qual é o seu corpo, e ele é seu Salvador.

- Romanos 7: 2
A mulher casada está sujeita à lei do marido enquanto ele viver: mas se o marido morrer, ela fica livre da lei do marido.
- Pedro 3: 1
Assim vós, mulheres, estais sujeitas aos vossos maridos; para que também os que não creiam na palavra de Deus, sejam considerados gado sem palavra, pela conduta das suas esposas…

- Corintiuos 14: 34 & 35
As vossas mulheres devem calar nas congregações: porque não lhes é permitido falar, porque estão sujeitas, como diz a lei. E se quiserem aprender algo, perguntem em casa aos seus maridos; porque é indecoroso que uma mulher fale na congregação.

- Timoteo 2: 11- 15
A mulher deve aprender em silêncio, com toda a sujeição.
Não permito que a mulher ensine, nem exerça domínio sobre o homem, deve ficar em silêncio. Porque Adão foi formado primeiro, e depois a Eva; e Adão não foi enganado, mas sim a mulher, que ocorreu em transgressão. Mas se salvará parindo filhos, se permanecer em fé, amor e sacrifício, com modéstia.

Como responde a igreja a esta clara demonstração de machismo bíblico? Dissimulam, tentam evadir-se, mudam de tema, dizem que a bíblia transformou muitos com a sua bondade, ou inventam mentiras de maneira a justificarem a bíblia como o livro santo e puro. Pode uma pessoa racional considerar que a Bíblia é útil nos nossos dias como fonte de conselhos? E mais: que devemos acreditar em tudo o que nela está escrito?

domingo, janeiro 28, 2007

Apelo - Vamos denunciar os responsáveis

!

"Os representantes da Assembleia de Pais de Crianças que frequentam os estabelecimentos de infância da Fundação D. Pedro IV, realizada no dia 19 de Janeiro, reuniram ontem com o Presidente do Conselho de Administração da Fundação D. Pedro IV, Eng. Vasco Canto Moniz, e a Coordenadora para a Área da Infância, Dr.ª Dulce Canto Moniz.
Os representantes dos pais deram conhecimento da deliberação da assembleia no sentido da constituição de uma Associação de Pais, e solicitaram formalmente autorização para a utilização do nome e morada da sede da instituição para o exercício das suas actividades. Ambas as autorizações foram concedidas.
Perante a preocupação manifestada relativamente à deterioração das condições de segurança, higiene e saúde das crianças que frequentam a instituição, e a quebra da confiança implícita que os pais depositavam num modelo de serviço existente aquando da inscrição dos seus filhos, o Presidente do Conselho de Administração reconheceu ter havido uma diminuição na qualidade dos serviços prestados e um defraudar de expectativas dos pais.
O Eng. Canto Moniz tornou público que está em curso uma reorganização dos Estabelecimentos de Ensino - cujo conteúdo efectivo não nos foi revelado, embora tenha sido formalmente solicitado. Sobre isto, apenas transmitiu oralmente aos pais um conjunto de propostas avulsas, que na sua maioria implicam a diminuição de pessoal e o aumento do número de horas de trabalho por parte dos funcionários da instituição.
O Presidente do Conselho de Administração referiu ainda que durante a próxima semana estaria em curso um processo de análise e reorganização de todos os estabelecimentos de ensino de modo a resolver algumas das questões mais prementes relacionadas com a segurança das crianças. Propôs reunir novamente com os pais.
O teor das propostas que foram ao longo da reunião sendo sugeridas pelo Presidente do Conselho de Administração não oferece, na opinião de todos os pais presentes, garantias de solução dos problemas apresentados, porque não inflecte a prática de redução do pessoal responsável pelas crianças, elemento que, neste contexto, é fulcral para a manutenção do serviço e da sua qualidade. A abertura manifestada para o diálogo, por parte da Administração, não se coaduna com as medidas por ela apresentadas, pois estas levarão à desestruturação do núcleo central do seu serviço: a relação educador - criança. Tal, naturalmente, impede a óbvia resolução dos problemas mais graves por nós diagnosticados e não levará à reposição das condições de segurança, higiene e bem-estar afectivo e emocional das crianças, prevendo-se que a situação se venha a agravar durante os próximos dias.
Mais, o Eng. Canto Moniz, após ter sido questionado pelos representantes dos pais, informou que durante os próximos dias iriam ser extintos mais 10 postos de trabalho, assegurando que as educadoras se manteriam todas, "até ao final do ano lectivo" - de acordo com as suas palavras.
Os pais reiteraram junto da administração a sua total confiança na competência e empenho das funcionárias actualmente existentes e nas que entretanto foram sendo dispensadas.
Os representantes dos pais estranham a total ausência de resposta às dezenas de queixas enviadas à Inspecção da Segurança Social pelos pais de crianças do Estabelecimento de Infância da Fundação D. Pedro IV.
Os representantes dos pais requerem a intervenção urgente das entidades competentes, dado estarem em causa os direitos fundamentais das crianças, propondo-se, entretanto, pedir esclarecimentos à Segurança Social sobre o processo de reestruturação em curso, de que esta tem conhecimento desde o passado dia 15 de Janeiro."
ver mais no blog dos pais
Por enquanto ainda lá vamos deixando todos os dias a Amélia, confiando nas excelentes auxiliares, assistentes e educadoras.
Contudo, deixo algumas notícias que aterrorizam qualquer pai:
Público de 31 de Dezembro de 2006, sobre o arquivamento de relatório que propunha a extinção da Fundação D. Pedro IV.
Público Local (pág. 3) 19 de Junho de 2006, sobre os "arquivamentos" do Sec. de Estado Simões de Almeida, a Fundação, etc…
Correio da Manhã 4 de Janeiro de 2007, recomendo esta notícia do CM e todas as outras sobre Simões de Almeida que se encontram no final da página.

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Assédio moral, um inimigo invisível

A violência moral existe!


As atitudes abusivas manifestadas por comportamentos, palavras, actos, gestos ou escritos que possam provocar danos à personalidade, à dignidade ou à integridade física ou psíquica de uma pessoa, pôr em perigo o seu emprego ou degradar o ambiente de trabalho, caracterizam o assédio moral (não confundir com assédio sexual) no local de trabalho.Este é considerado um fenómeno do mundo moderno, onde impera a degradação das relações de trabalho e prolifera o individualismo, a arrogância e a prepotência. Apesar de pouco estudado, este tipo de violência é cada vez mais uma realidade preocupante do quotidiano laboral, onde a ideia de "não olhar a meios para atingir fins" é estimulada pela determinação de objectivos individuais, pela avaliação do desempenho através de um sistema de quotas e pelas políticas de privatização e reestruturação de Serviços Públicos que aumentam a instabilidade, a precariedade e o desemprego.

A retirada dos direitos laborais e sociais conduz ao enfraquecimento das estruturas representativas dos trabalhadores. Privados de protecção social e das suas organizações, estes ficam expostos a todo o tipo de coações. Esta degradação das relações laborais provoca danos na saúde mental dos trabalhadores, tais como stress, ansiedade, depressão, angústias entre outros distúrbios psicossomáticos, aumentam o recurso a baixas médicas e, em casos extremos, à reforma compulsiva ou antecipada.

A situação de assédio moral é normalmente de duração prolongada, por vezes superior a um ano. O trabalhador é induzido a perder a confiança e a auto-estima. Em alguns casos é isolado dos seus colegas, o que o torna indefeso e manipulável. A dificuldade em fazer prova das acusações, associada à falta de legislação de protecção da vítima, leva a que sejam raros os agressores levados a tribunal.

A potencial vítima de assédio moral é aquela que dá visibilidade a um problema ou ao exercício de um direito, defende os seus colegas, não aceita ser manipulada.

O sector público tem um elevado risco de incidência de assédio oral devido ao sistema hierárquico rígido que permite, através de delegação e subdelegação de competências, que o "agressor"se esconda. A Administração Local, o poder político está muito próximo dos trabalhadores e os cargos de dirigentes municipais e chefias dependem muitas vezes da confiança política e não da competência e desempenho profissionais. Aqui, o assédio moral é frequente, sendo, por esse motivo, banalizado em muitos casos.

A entidade empregadora tem obrigação de garantir um bom ambiente de trabalho, devendo proceder à implementação prioritária de programas de sensibilização e prevenção na área de segurança, higiene e saúde no trabalho que podem ser determinantes na prevenção dos distúrbios decorrentes do assédio moral.


Helena Afonso

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Alienação


Carta de um pai laico a seu filho

Eu não quero deixar-te prisioneiro de uma organização que primeiro te injecta o veneno do complexo de culpa, para depois te vir dizer que o único antídoto o têm eles. Não quero que te incutam uma moral tão astuta que considera mais perigoso uma mama que uma pistola ou um artefacto capaz de arrasar uma cidade inteira.

Não quero que te ensinem a dividir a humanidade em bons e maus, em fiéis e infiéis, em os "nossos" e os outros. Não quero que manchem com o pecado original a tua alma imaculada, nem que vendam a tua inocência a algum sem vergonha qualquer da sua organização, oculto e salvo pela sua hierarquia.

Não quero que matem a tua rebeldia com um punhal de resignação, nem que ameacem a tua bendita ousadia com um inferno à sua medida. Não quero que troquem pela tristeza a tua imensa alegria, que confundam a tua perspicácia com o mais além e o mais aqui, que as promessas de vida eterna te façam esquecer o compromisso frente à eterna maldita vida dos de sempre, que injusto seja normal e irmãos não sejam todos, que de tanto olhar o céu te esqueças do chão que pisas.

Não quero que ninguém dirija a tua cama, que uns homens que vivem sós te digam o que é família, que a injustiça social é apenas inveja, o impulso natural é lascívia e a liberdade um pecado. Não quero ver-te expiar as suas culpas, perdido nas suas turbulências sem razão nem coração, tão dependente dos santos que não repares que todos os outros somos tantos, não quero que te troquem um beijo por um paraíso, nem um abraço por uma chicotada, que te substituam a solidariedade pela caridade.

Não quero para ti nem o seu céu nem o seu inferno eternos, não quero o seu bálsamo de não pensares, o alívio do perdão por coisa nenhuma, a cruz do complexo de culpa ou o flagelo do castigo divino, não quero que compres almas por um prato de feijão, nem que ajudes a vestir os nus em troca de substituíres o Deus que reza. Para ti, meu filho, quero paz de verdade, paz de humano, paz de irmão, amor de verdade, amor de humano, amor de irmão, esperança de verdade, esperança de humano, esperança de irmão, para ti quero todas as mãos, toda a paz, todas as esperanças e todo o amor, porque para ti desejo que todos os seres humanos sejam teus irmãos, sem distinção de raça, sexo ou credo, para ti quero a plenitude de ser humano, irmão, inteiro e sem medo.

Gonzalo Morales, 22 de Janeiro de 2005

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Hipocrisia


A hipocrisia é a atitude de simular uma virtude que não se tem.

Ser hipócrita é fingir e falsear na actuação social a sombria identidade que se esconde. É nomear o Deus para tudo, mas em vez de perdoarem, oferecem a forca e o verdugo. Hipócritas são os milhares de casais que se "oferecem" para adoptar um bebé recém-nascido porque estão contra o aborto, e nunca lhes passou pela cabeça adoptar uma dos milhares de crianças órfãos já nascidos, porque estes não passam afinal de mera estatística. Hipócritas são os que se manifestam com velas como se fossem pacíficos mas exigem a pena de morte. Alguns hipócritas são mesmo descarados Hipócritas são os que se apropriam da palavra democracia quando esta palavra já não está em perigo, mas calaram as suas vozes quando foi necessário dar as suas vidas por ela. Hipócritas são aqueles que saíram à rua quando eram contestatários revolucionários e não saem mais porque se tornaram eles os capitalistas. Hipócritas são os que se escandalizam com assassínios pontuais e nunca se espantam com os genocídios de guerras injustas. Hipócritas são aqueles que se preocupam com a Constituição quando são apresentadas para discussão propostas sociais de igualdade e equidade entre os cidadãos e se "estão nas tintas" quando a economia os coloca a eles em primeira classe.

Hipócritas são os que dizem ser liberais e se entusiasmam com a ideia de intrometer-se em Cuba; hipócritas são os que consideram o Irão como o mal e ameaça nuclear, e não dizem nada dos países que têm arsenais nucleares com fartura.

Hipócritas são os que falam de "segurança jurídica" e não possuem um plano para a segurança dos trabalhadores flexibilizados e excluídos. Hipócritas são os que apregoam a segurança democrática mas no fundo desejam acabar com as greves e manifestações de direitos.

A hipocrisia é elitista. Todos os dias enfrentamos um mundo onde proliferam os hipócritas.

Magnolia

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Uma história

As picadas que nos fazem desistir

Um ancião oriental ao ver um escorpião que se estava afogando, decidiu tirá-lo da água, mas quando o fez, o bicho picou-o.
Num impulso de reacção à dor o ancião soltou o animal, que caiu de novo à água, e de novo se estava afogando. O ancião tentou outra vez livrá-lo de morte certa e o bicho tornou a picar-lhe.
Um indivíduo que tinha observado a cena, aproximou-se e disse-lhe:
_ Desculpe, mas você é palerma ou quê? Não percebe que de cada vez que o tentar tirar da água, o escorpião vai picar-lhe?
A natureza do escorpião é picar e isso não irá alterar em nada a minha, que é a de ajudar, respondeu o ancião.
E então, socorrendo-se de uma folha de figueira, tirou o bichinho da água e salvou-lhe a vida.
Esta história, como todas as histórias, tem uma moral: não devemos mudar o que é da nossa natureza e não devemos deixar-nos influenciar facilmente pelos outros.
Que a conduta das outras pessoas jamais condicione a tua!

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Opinião


O sr. Apenas

Saberá Correia de Campos que o envio destes casos para o estrangeiro custa no mínimo 200 mil euros, quando os conhecimentos e equipamentos existem em Portugal?
Correia de Campos não fez mais do que voltar a aplicar o argumento que mais tem posto a uso desde que se encarregou de tratar da saúde aos portugueses. «Apenas» parece ser a palavra preferida do ministro: «apenas» nascem 800 crianças numa maternidade, feche-se; «apenas» usam o SAP em média duas pessoas por noite, feche-se; um milhão de portugueses estão a «apenas» 30 minutos da urgência mais próxima, fechem-se os serviços; os portugueses estão demasiado tempo internados, modere-se o luxo com uma taxa moderadora de «apenas» 5 euros por dia; «apenas» um miúdo por mês precisa de um transplante do fígado, que vá a Espanha.
Bem que o ministro avisou: 2007 será um ano de muita luta em defesa do direito à saúde!



Margarida Botelho in Avante

Estão suspensos há algumas semanas os transplantes do fígado a crianças em Portugal. O único sítio do país onde existe uma equipa de profissionais de saúde formada para fazer uma operação tão delicada é em Coimbra, nos Hospitais da Universidade. O médico que domina a técnica suspendeu a sua actividade e os transplantes pararam. Anos de uma política de recursos humanos obtusa levou a que não fossem criadas condições para ensinar jovens profissionais que assegurassem a continuidade do serviço. O que se passa agora em Coimbra não é diferente do que vai sucedendo por todo o país: a política do Governo PS está a empurrar para fora do Serviço Nacional de Saúde muitos profissionais e a deixar o serviço público empobrecido e fragilizado.
Face ao drama das crianças portuguesas a precisar de transplantes para sobreviver, o ministro da Saúde entendeu que o que era necessário era «relativizar».
Afinal, disse o ministro Correia de Campos para quem quis ouvir, estamos a falar de «não mais de 10 ou 12 casos por ano, apenas», que serão tratados no estrangeiro enquanto não se arranjar outra solução. Achará Correia de Campos que para as oito crianças que neste momento precisam de um transplante do fígado é indiferente serem operadas em Coimbra ou em Madrid, longe da sua família, da sua língua, do seu país? Saberá Correia de Campos quanto tempo demora a formar uma equipa de profissionais com a experiência desta?